“Espiritismo na cabeça é informação.

No coração é transformação”.

 

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Revendo enfoques

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Algumas palavras e enfoques

a serem repensados:

 

a) Caridade

b) Cultura do silêncio

c) Idolatria

d) Expiação

e) Carma expiatório

f) Culpa 

g) Resignação

h) Nossa relação com seres superiores

como Jesus e com espíritos como

Kardec, Bezerra de Menezes,

Emmanuel, André Luiz...

Conforme a codificação do Espiritismo, o mundo de ONTEM era de provas e expiações, com resgates de ações negativas, além dos necessários aprendizados.

Podemos facilmente observar que HOJE já estamos começando a vivenciar o início de um período de transição, continuando, assim, os resgates de ações negativas e os aprendizados, mas acrescidos de um processo de eliminação de “lixos” do inconsciente e dos primeiros passos para um crescimento interior mais pleno.

Primeira página

A transição pede mudanças

Uma palavra difícil de dizer

Revendo enfoques

Alteridade

Campanha quinzenal

Dificuldades na casa espírita?

A transição e a mediunidade

AGENDA MÍNIMA para evoluir

Experiências compartilhadas

Como posso ser fraterno

A importância da prece

Exercícios individuais

Exercícios em grupo

Crescimento interior

Viver com ética

Para reflexão

Diversos

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Áudio

 

  

O mundo de AMANHÃ deverá ser o de regeneração, dando continuidade aos aprendizados e conduzindo os seres a mais elevados patamares evolutivos.

Assim, se já estamos dando os primeiros passos nessa transição, é importante começarmos a mudar alguns enfoques, com vistas ao novo tempo.

  

Caridade

 A aplicação da palavra caridade também precisa ser repensada porque se desgastou pelo mau uso, revestida de características humilhantes para quem é dirigida e de envaidecimento de quem a pratica, situações incompatíveis com as idéias espíritas.

Não seria bem melhor usar os termos como fraternidade ou atos de amor?

É verdade que “fazer caridade” tem peso no terreno do merecimento, mas não da evolução, porque esta representa um processo contínuo de crescimento interior, que nada tem a ver com aquela prática.

A evolução, em sua principal vertente, ocorre mediante aquisição ou desenvolvimento de um sentimento, o amor. Então haverá atos de amor e não de caridade. Praticar esta última pode preparar terreno para o amor, pela percepção do sofrimento alheio, que mobiliza e desenvolve sentimentos fraternos. Mas é importante destacar a diferença entre atos de amor e caridade, na forma como ela é compreendida.

As palavras geram idéias, com reflexos que influenciam posturas e atitudes.

Quando dizemos: “vamos usar de caridade com fulano que está em erro, e orar por ele”, já o estamos diminuindo, ou seja, estamos vendo-o como alguém abaixo de nós na escala de valores, alguém por quem “caridosamente” vamos interceder. Observe que até mesmo esse ato de orar por ele gera uma idéia por onde flui um pouco de desdém. É como se o olhássemos do alto da nossa pretensa superioridade, dispondo-nos a ajudá-lo “caridosamente”, com aquele ar displicente de quem atira, do alto da sua mesa farta, algumas migalhas da sua preciosa atenção, através de uma prece.

Mas se dissermos: “vamos orar por fulano que está em erro, pois ele precisa de ajuda”, estaremos nos aproximando dele para estender-lhe mão amiga, nas vibrações do amor. É uma situação diferente, que faz toda a diferença.

Vê como as palavras condicionam atitudes, posturas e comportamentos?

  

Cultura do silêncio

 Outra idéia distorcida que pode ser observada nos meios espíritas refere-se ao "calar caridosamente", quando não se concorda com algo ou quando alguém anda se conduzindo mal. Esse tipo de caridade mal compreendida tem causado o afastamento de muitos companheiros, que preferem “passar a mão no boné” e ir embora, em vez de buscarem um diálogo franco e sincero, dentro das linhas do amor. Outros se calam, mas desenvolvem cochichos, comentários dúbios, ou expressões que lançam dúvidas sobre o companheiro em erro, podendo causar muito mais dano do que uma chamada às falas a quem se deixou escorregar, podendo gerar repercussões muito mais negativas do que a mera realidade.

Talvez pelo fato de o Espiritismo nos convidar para um tipo de conduta muitíssimo difícil, cuidamos muitas vezes de exagerar na dose do que entendemos como caridade e, assim, preferimos fazer vista grossa em relação a condutas erradas que podemos observar em torno de nós, entendendo que estamos sendo caridosos.

Na verdade, uma das ações mais difíceis, que pede muita coragem e determinação, é a de conversar com um companheiro para mostrar-lhe que está agindo em desacordo com os postulados espíritas. Isto é até mesmo mais difícil do que um pedido de desculpas, desde que o móvel seja exclusivamente o de ajudar o outro em suas dificuldades evolutivas e não contenha qualquer vestígio de vaidade, daquela vaidade que geralmente nos move quando intentamos apontar o erro alheio.

É dificílimo chegar a um companheiro, que talvez seja alguém a quem muito estimamos, para apontar-lhe o erro. Por mais amor e tato que possamos colocar nessa ação, havemos de vê-lo humilhado, talvez revoltado conosco, magoado, ofendido... E certamente tememos ver diminuído o seu apreço, seu afeto por nós. Podemos até mesmo nos questionar se não estamos lhe causando alguma frustração, algum desencanto ou desilusão, podendo isto levá-lo a se desestimular e talvez até mesmo a afastar-se da Casa e quem sabe, do próprio Espiritismo.

Certamente, pensamentos tais podem passar pela nossa cabeça e sentimentos amargos se desenvolverem como conseqüência, levando-nos a desistir do intento ou optar por deixar que o próprio tempo tome conta do caso e leve o companheiro a perceber seus erros e a buscar corrigi-los. Mas se agirmos assim, fugindo ao que a consciência nos pede, estaremos prejudicando nosso irmão, pela nossa omissão.

Quando um companheiro de atividades espíritas passa a desenvolver vaidade, orgulho ou outro valor negativo, ou começa de alguma forma a desviar-se do bom caminho, e ao olhar em torno percebe nos circunstantes apenas sorrisos, acaba acreditando que está tudo bem, ou que a sua má conduta não é tão má assim e, com isso, certamente irá caindo mais e mais fundo. Isto acontece porque, por uma idéia distorcida sobre a caridade, ninguém lhe estendeu mão salvadora, ou seja, ninguém o chamou para uma conversa franca, visando alertá-lo com relação a seus atos ou atitudes. Será que aqueles companheiros que comodamente fizeram vista grossa também não são parcialmente responsáveis pelas suas quedas ou pelos seus erros?

O companheiro pode até mesmo nem ter percebido seus deslizes por estar envolvido em situações daquele tipo que nos cega, que não nos permite ver com clareza, a não ser o que nos possa parecer como justificativas.

Devemos nos lembrar da extraordinária força das paixões e do poder que os espíritos atrasados ou perversos exercem sobre a nossa invigilância, e entender que o seareiro em erro pode estar achando que está certo.  E essa convicção se fortalece ao observar apenas sorrisos em torno de si, em tácita aprovação.

Pense na formidável decepção que terá no dia em que lhe “cair a ficha”, mesmo que isto ocorra apenas depois do seu retorno ao mundo espiritual, ao constatar a falta de amor daqueles que o cercavam e que poderiam tê-lo ajudado a retomar o rumo certo.

Cabe lembrar o que disse o espírito S. Luiz em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo X, itens 19 e 21, que vamos transcrever, para maior facilidade de entendimento.

“Item 19. Como ninguém é perfeito, ninguém tem o direito de repreender o próximo? “Seguramente não, uma vez que cada um deve trabalhar pelo progresso de todos, sobretudo daqueles cuja tutela vos é confiada. Mas é uma razão de fazê-lo com moderação, para um fim útil, e não pelo prazer de denegrir – como se faz na maior parte do tempo. Nesse último caso a censura é uma maldade; no primeiro é um dever, que a caridade manda cumprir com toda cautela possível. Por fim, a censura que se lança a um outro deve ao mesmo tempo ser dirigida a si mesmo, perguntando-se se não a merece.

[...]

Item 21. Há casos nos quais é útil revelar o mal no outro?

Essa questão é muito delicada, e aqui é preciso fazer um chamado à caridade bem compreendida. Se as imperfeições de uma pessoa só prejudicam ela mesma, não há utilidade alguma em fazê-las conhecidas. Mas se elas podem causar prejuízo a outros, é preferível o interesse da maioria ao interesse de um só. Segundo as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode ser um dever; pois antes caia um homem que vários sejam feitos suas vítimas ou logrados por ele. Nesse caso, é preciso pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes.”

Estas explicações de S. Luiz nos levam a uma pergunta: Será que nós, espíritas, temos agido segundo essas orientações?

Certamente é muito mais difícil, nesse tipo de situações, agir com verdadeiro amor, fazendo o que for necessário para ajudar o companheiro a reencontrar o caminho certo, mesmo que isto possa provocar a diminuição do seu afeto por nós ou desagradar a comunidade em que atuamos.

Também são inúmeros os casos em que certas ações ou determinações do presidente da instituição, da diretoria ou de algum diretor causam distúrbios e até prejuízos ao bom relacionamento ou ao andamento das atividades, levando os tarefeiros a reclamações e comentários entre si, sem coragem de adotar outras medidas, receando gerar desarmonia na casa. Nestes casos é preciso avaliar em que o prejuízo seria maior, se numa conversa franca com o autor ou autores da dificuldade ou nos murmúrios que apenas envenenam o ambiente, talvez com prejuízos ainda mais graves à instituição.

O ser humano tem necessidade de sentir-se incluído em seus grupos sociais, por isso raros companheiros têm coragem de romper com esse “status quo” e indispor-se com a direção da Casa que freqüentam ou tornar-se antipatizados ou tachados de descaridosos, por adotarem atitudes de censura ou questionarem aquilo que entendem estar errado.

Essa cultura do silêncio, que vigora em nossos meios, precisa ser repensada.

  

Idolatria 

A humanidade compõe-se de seres com múltiplos aspectos, características, “manhas” conscientes e inconscientes, além de necessidades as mais variadas.

Em razão disso, surgem desvios como a idolatria. Através dela grande parte dos cristãos deixa de perceber a grandeza espiritual de Jesus, transformando sua luminosa figura num ídolo barato, cuja função é servir de bengala, ou melhor, de burro de carga aos interesseiros e àqueles que não querem caminhar com os próprios pés.

Por que idolatramos alguém? Porque esse alguém nos serve de algo. Se fosse apenas pelo prazer que nos dá observar sua grandeza espiritual e receber orientações para o nosso crescimento interior, certamente nossa relação sentimental e emocional com ele seria mais equilibrada, de admiração profunda, afeto e amor. Já a idolatria é diferente, pois gruda o idólatra a seu ídolo, e o primeiro fica sugando do segundo tudo o que consegue, gerando dependência.

No caso de Jesus, as religiões cristãs têm nele uma bengala, a mão forte que conduzirá seus fiéis, não apenas ao Céu, quando chegar a hora, mas principalmente à solução dos mais diversos problemas e à consecução dos mais diferentes desejos.

Em certo programa na televisão, um empresário evangélico afirmava que Jesus ia sempre à sua frente em todos os momentos e era Ele quem lhe facilitava os negócios e ajeitava as coisas quando estavam mal. Era Ele quem lhe dava riqueza material, prestígio, “status” e tudo o mais.

No meios espíritas também podemos encontrar algo de idolatria, não só com relação a Jesus mas também a espíritos como Bezerra de Menezes, Emmanuel, André Luiz, Chico Xavier e muitos outros.

Sempre é importante ter-se em vista que a idolatria prende o idólatra à imagem que ele próprio criou visando sua defesa, prazer ou benefício, tornando-o impermeável à realidade, ao verdadeiro sentido da existência ou da missão do seu ídolo.

Por isso, nos meios espíritas, muitos dos que enxergam essa questão com maior clareza se afligem no sentido de mudar a mentalidade estagnante da idolatria e, com isso, inúmeras vezes partem para extremos, minimizando a figura do ídolo e até mesmo refutando-a. Daí nasce o confronto, em que haverá sempre mais perdedores que ganhadores.

 

Outros enfoques pedindo mudanças

Termos como expiação, carma expiatório, culpa e resignação refletem idéias pesadas, condicionantes, gerando medo e complexos. Se estamos no limiar de um novo tempo, o da regeneração, vemos oportuno mudar os enfoques:

expiação para reajuste;

carma expiatório para carma evolutivo;

culpa para responsabilidade;

resignação para aceitação;

caridade para fraternidade ou atos de amor.

 

Os termos reajuste e carma evolutivo são mais leves, libertam o ser para os vôos da evolução. Certamente, nas situações em que a vida machuca muito, é válido entender que se trata de expiação, porque essa idéia resguarda a pessoa de sentir revolta, ao entender que não está sendo injustiçada pela vida. O contrário poderia levá-la a descrer da justiça divina.

Mas não é positivo atribuir-se tudo ao carma. Afinal, o grande papel do sofrimento e das dificuldades não é o da mão que castiga, mas o do professor que ensina a ciência do bem-viver.

Muitos companheiros espíritas, de forma equivocada, entendem que tudo que acontece é carma. Se alguém dá uma topada e arranca uma unha do pé, estaria recebendo o retorno das unhas que arrancou, quando fora carrasco do santo ofício em passada encarnação. Entretanto, a topada pode ter acontecido simplesmente por descuido, mero acidente, e até mesmo como recurso da vida, visando algum fim útil. Certamente, pensar em retorno cármico deve ser sempre a última opção, vendo antes na dor e nas dificuldades de qualquer natureza alguma lição que a vida está nos querendo ensinar. Isto é muito mais saudável e proveitoso para nossa evolução.

Há alguns anos, quando colaborava com um grupo espírita que assistia a uns oitenta idosos, pude observar com toda clareza como é importante essa questão dos enfoques.

Os velhinhos, procedentes de uma favela próxima, iam chegando isoladamente ou em grupos, uns silenciosos, outros bulhentos. O ambiente era descontraído e as conversas calcadas em brincadeiras inocentes, logo tomavam conta. Cada um apanhava seu copo de refresco, o pão com manteiga e ia sentar-se para o lanche. Em seguida todos se reuniam no grande salão onde seria realizado o Evangelho, seguido de passe coletivo.

Naquela tarde a leitura de O Evangelho Segundo o Espiritismo versava sobre as penas e expiações, seguida da palavra de alguns espíritos sobre a necessidade de suportá-las com paciência e conformação, visando resgatar erros do passado e antevendo recompensas futuras.

A companheira que lia o Evangelho fazia-o em tom lamentoso, e a sonoridade de sua voz caía pesadamente sobre os psiquismos presentes.

A essa altura os semblantes, antes alegres e descontraídos, mostravam-se soturnos e amargurados, como se estivessem revivendo todas as suas tristezas e aflições. Aquele ar de contentamento fora substituído por expressões de dolorosa conformação.

Deu vontade de levantar e pedir a todos para sorrirem, cantarem e se abraçarem, agradecendo a Deus pela vida, o ar, a natureza e a amizade, esquecendo-se das suas mágoas e dores; dizer-lhes que o ser humano precisa aprender a sentir-se feliz, apesar dos problemas ou sofrimentos. Mas aquela disciplina que aprendemos na Casa Espírita não permitiria tal atitude.

O ambiente era de funeral, os comentários do Evangelho seguiram o mesmo estilo e a prece, pedindo a fluidificação da água, foi vazada em voz que mais parecia um lamento que um pedido.

Os velhinhos foram saindo um a um, mais vergados que antes, sentindo com mais intensidade as suas aflições.

Voltei para casa pensativa. Será esse o papel do Espiritismo?

No livro Reforma Íntima Sem Martírio, psicografado por Wanderley Soares Oliveira,  o espírito Ermance Dufaux, falando sobre o sofrimento, assim se expressa:

“O culto à dor tornou-se uma cultura nos ambientes espíritas. Condicionou-se a idéias de que sofrer é sinônimo de crescer, de que sofrer é resgatar, quitar. Portanto, passou-se a compreender a “dor-punitiva” como instrumento de libertação, quando, em verdade, somente a dor que educa liberta. Há criaturas dotadas de largas fatias de conhecimento espiritual sofrendo intensamente, mas continuam orgulhosas, insensatas, hostis e rebeldes.”

Se nossa humanidade está transitando de “provas e expiações” para “mundo de regeneração”, conforme informam os espíritos, está claro que a nossa mentalidade também precisa ser reformulada, para atender com segurança as necessidades dessa transição. Se ficarmos engessados no pensamento antigo, calcado na temática do sofrimento como necessidade expiatória, como poderemos trabalhar pelo novo modelo?

É natural que prepondere num mundo de provas e expiações a idéia do Consolador, como também é a Verdade que deve preponderar num mundo de regeneração.

E é justamente essa mentalidade mais avançada, mais adequada à época, que vem surgindo aqui e ali nos meios espíritas.

Aquela idéia de que “vamos sofrer resignadamente porque receberemos recompensas no mundo espiritual” está começando a mudar para um discurso mais saudável e progressista: “vamos buscar o nosso crescimento interior, desenvolver nossas qualidades superiores e as nossas potencialidades; ajudar a comunidade procurando levar-lhe as verdades espirituais, além de trabalhar visando conscientizá-la quanto à importância da sua participação na transformação do mundo; auxiliar o ser humano a comandar seus estados de espírito, erguer-se e caminhar com os próprios pés”.

É a cruz transformando-se em instrumento de trabalho, de crescimento e de alegria.

Sem a mais remota idéia de tecer críticas aos espíritos que trabalharam na codificação do Espiritismo, devemos lembrar que a maioria deles era procedente da Igreja Católica, por isso em seus enfoques transparecem conceitos que, se podiam ser adequados àquela época, estão carecendo de revisão.

Podemos observar essa tendência em algumas passagens, como no capítulo em que falam sobre as penas e recompensas. A linguagem é bastante semelhante à da Igreja. No capítulo Bem-aventurados os aflitos, Lacordaire diz: “O homem não recebe nenhuma recompensa para esse tipo de coragem, mas Deus lhe reserva seus louros e um lugar glorioso”. Essa idéia de recompensas, louros e um lugar glorioso é adequada a espíritos que ainda não alcançaram certo grau de entendimento e que necessitam desse tipo de muletas para caminhar melhor. Mas hoje, em pleno trânsito para uma nova época, essa velha mentalidade deve começar a ceder lugar à do trabalho pela auto-superação, a auto-ajuda, o crescimento da criatura como ser cósmico. Tal crescimento por si só, deve ser o seu maior fator de felicidade atual e futura. Também se observa aí um toque de vaidade na expectativa de glórias, incompatível com os ensinamentos de Jesus e as idéias transmitidas pelo Espiritismo. E mais adiante Santo Agostinho diz: “O Senhor marcou com seu selo todos os que acreditam nEle”, ou seja, passa a idéia da salvação pela fé.

Como vemos, aqueles espíritos, embora de elevada estirpe, mantiveram até certo ponto um linguajar e idéias compatíveis com suas últimas reencarnações ou, quem sabe, preferiram usar aquela linguagem como um degrau para entendimentos mais elevados.

Por isso e também porque o bom senso indica não se deve entender tudo ao pé da letra.

Sofrer hoje, resignadamente, visando louros e glórias no Céu, demonstra curto entendimento sobre evolução. Um espírito evoluído, pela humildade que lhe é própria, jamais encontrará a felicidade nesses louros e glórias, mas sim em seu próprio estado evolutivo, que é jubilosamente luminoso.

Assim, é hora de começarmos a abandonar aquelas idéias de comprar um lugar no Céu, ou na colônia espiritual Nosso Lar, através da conformação, uma postura estagnante, que ainda voeja nas cabeças de muitos espíritas que entendem ser necessário sofrer para purificar a alma, ou pagar culpas do passado, como se apenas pagar essas culpas fosse o suficiente.

 Certamente, no novo modelo que deverá nortear o mundo de regeneração, serão utilizados caminhos outros, que não apenas a dor, para a evolução dos seres.

A largueza de vistas do Espiritismo mostra ao ser humano que ele deve buscar a felicidade, o bem-estar, o contentamento, desde que não arranhe a ética cósmica, ou seja, as leis de Deus.

Por certo é importante aceitarmos o sofrimento que não pudermos mudar, mas há diferenças fundamentais entre aceitar e conformar-se, como também é indiscutível que podemos, sempre, mudar nossa vida para melhor, começando por melhorar os próprios estados de espírito e as atitudes. E, mesmo aceitando o sofrimento como necessário à evolução, ou como retorno de atos do presente ou do passado, devemos recebê-lo como lição e não como carga.

 

Resignação

Também a palavra resignação passa uma idéia negativa, de alguém que se arrasta pesada e resignadamente pelos caminhos da vida, carregando sua cruz. Já a palavra aceitação é mais leve. Aceitar as agruras da vida não significa inércia nem sofrimento, mas luta para quem se afeiçoa a ela, possibilitando desenvolver esperança e contentamento, valores fundamentais para quem deseja vencer.

 Por esses novos enfoques podemos também perceber a importância de começarmos a mudar aquele tom que é usado em alguns centros espíritas, o da voz melíflua, chorosa, piegas, orientando para a conformação, colocando como exemplo os sofrimentos de Jesus e acenando com as recompensas futuras. A nova civilização que está para nascer pede discursos diferentes, aproveitando, inclusive, o muito de bom que já existe na área do conhecimento humano, visando o crescimento da criatura em toda a sua plenitude.

 

Culpa

Também os sentimentos de culpa, pela ótica espírita, são pertinentes apenas no que dizem respeito ao mal que fazemos aos outros, à comunidade, a nós mesmos e à natureza; mesmo assim, só devem persistir na medida em que nos levem à correção, ao reajuste e ao resgate, quando for o caso. É natural e mesmo útil que esses sentimentos perdurem por algum tempo, após o ato que os gerou, mas sem que isso se transforme num peso inútil a martirizar a alma. Da mesma forma, não cabe ao espírita sentir-se culpado perante Deus, mas sim perante a própria consciência e também diante de quem vitimou, porque o Ser Supremo não se ofende, não se magoa nem se aborrece com nossos erros. As suas leis existem, não para nos cercear ou violentar, mas para nos orientar a evolução.

Reportamo-nos mais uma vez ao espírito Ermance Dufaux, no livro anteriormente citado:

“Freqüentemente existe um trio de sicários da alma que a chicoteiam durante as etapas do amadurecimento, são eles: baixa auto-estima, culpa e medo de errar. Apesar de serem sofrimentos psíquicos, funcionam como emuladores do progresso quando nos habilitamos para gerenciá-los. Assim, a culpa transforma-se em auto-aferição da conduta e freio contra novas quedas, a baixa auto-estima converte-se em capacidade de descobrir valores e o medo de errar promove-se a valoroso arquivo de experiências e desapego de padrões.”

Sentimentos de culpa, portanto, só são válidos como força propulsora para os devidos resgates e o crescimento interior do ser.

Esse é um tema que deveria merecer, principalmente dos palestrantes e dirigentes espíritas, o maior cuidado, particularmente ao tratar de questões como o aborto e o suicídio, para que não agravem ainda mais a situação, lembrando que as pessoas envolvidas em tais ações, certamente, já carregam grandes sofrimentos ou graves pesos conscienciais.

Certa vez um amigo contou que há muitos anos, quando convidado a fazer uma palestra sobre o suicídio num centro espírita, caprichou nas explicações sobre o sofrimento pelo qual passam aqueles que tiram a própria vida. Foi brilhante em seu discurso, mas, ao final, o presidente da casa veio pedir-lhe para consertar os estragos feitos a um casal que assistira à palestra e que havia perdido um filho há poucas semanas, por suicídio. Eles tinham procurado o Espiritismo buscando consolo para sua dor e encontraram ainda mais dor.

Talvez pelo grande número de palestras que alguém faz, ano após ano, acaba se automatizando. O fluxo de palavras desce de forma quase automática dos arquivos mentais, sem passar pelo crivo do bom senso, do questionamento, sem a preocupação de saber se devem ser ditas ou caladas. Muitas vezes os discursos ou as respostas já estão prontinhos e na “ponta da língua”, sem serem tocados pelas asas da razão, sem que se questione se são oportunos e adequados à situação e ao momento. Também a empolgação por estar frente a um público que o ouve atentamente, criando certa relação de poder, pode gerar descuidos altamente prejudiciais.

Muitas das perguntas que são feitas a espíritas abrangem situações com mais de uma vertente. Daí, também, a necessidade de sempre refletir-se antes de responder e, se não souber com segurança, deve-se ter a humildade de dizê-lo.

Inúmeros são os casos, às vezes muito delicados, de pessoas que ouviram de espíritas que gozam de credibilidade respostas peremptórias às suas perguntas, e essas respostas, posteriormente, foram desmentidas pelos acontecimentos. Além de causar prejuízos a essas pessoas, isso gera descrédito para o próprio Espiritismo.

Por isso é fundamental que aqueles que falam em nome desta doutrina sejam cautelosos no falar, que reflitam antes de dizer algo que possa vir em prejuízo de quem está necessitando de apoio, conhecimento ou ajuda.

Espiritismo não deve ser decorado, mas refletido.

 

 

Visão mais ampla sobre o Espiritismo

Estamos habituados a entender o Espiritismo como o caminho para a evolução moral e espiritual do ser, e o sofrimento como recurso para sua redenção.

Devido à evolução do conhecimento e das muitas áreas do saber voltadas para beneficiar o ser humano, como também às mudanças solicitadas por esta época de transição, podemos começar a ver o Espiritismo por um prisma diferente. Não apenas um caminho religioso, visando à evolução espiritual do ser, mas todo um contexto que pode favorecê-lo com mais equilíbrio, saúde, harmonia, melhor convívio, melhor qualidade de vida e felicidade, enfim, proporcionar-lhe uma vida realmente mais plena.

 Isso pode ser percebido, quando ampliamos os antigos enfoques, acrescentando à idéia de Espiritismo como fator moral-espiritual, outras como “instrumento na busca ao homem integral, ao ser pleno, saudável, de bem com a vida”.

Também o conceito de sofrimento como caminho para a redenção da criatura, podemos passar a perceber como instrumento para o seu despertar, para alavancar seu processo de crescimento interior.

São mudanças de visão que impulsionam nossa evolução.

E há ainda a questão dos companheiros que entendem que o Espiritismo é suficiente para solucionar todos os problemas vivenciais. Ocorre que há casos em que o apoio profissional é imprescindível para minimizar ou eliminar traumas, fobias, complexos e condicionamentos, que poderão refletir-se na saúde física e no equilíbrio psíquico.

No mundo moderno as dificuldades e os problemas ligados à psique vêm se multiplicando. Nos meios espíritas, em alguns centros, situações dessa natureza são tratadas como sendo tão-somente de origem espiritual, e quando um companheiro está sofrendo de depressão, ansiedade ou síndrome do pânico, muitas vezes é rotulado como obsediado. Isto reflete absoluta falta de fraternidade e de conhecimento. É preciso entender que inúmeros desses casos resultam de problemas orgânicos, bioquímicos e energéticos, embora possam ter raízes em ocorrências de vidas passadas, como também podem apresentar algum componente espiritual. Nessas situações, por receio de serem rotulados como obsediados, inúmeros seareiros preferem afastar-se dos trabalhos espíritas a dizer que estão sofrendo de problemas dessa natureza.

Não será oportuno passarmos a valorizar também os aspectos médico e psicológico dos nossos companheiros de atividades espíritas, orientando, quando necessário, para a busca de ajuda profissional? Isto, é claro, sem criar-lhes qualquer sombra de estigma ou rótulo.

  

Perdição e salvação

 “Levanta-te e anda”, “Ama teu próximo”, “Sê perfeito”, “Não julgues”, “Perdoa”, são orientações de um MESTRE.

Mas seguir essas orientações é tão difícil que os cristãos, digamos que numa idade espiritual ainda infantil, buscaram a variante da teologia, criando infinitas e inúteis discussões.

Transformaram a figura do Mestre em objeto de adoração e idolatria.

Deturparam a missão de Jesus e a relação dos seus seguidores para com Ele.

Criaram uma relação de piedade pelos Seus sofrimentos, exaltados ao máximo, e de interesse pelo Seu sangue a lavar pecados e salvá-los, e por todo tipo de ajuda que Ele poderia dar-lhes. Transformaram-no no mártir da cruz e no salvador.

 Esse tipo de relação gerou no Cristianismo:

a) pieguismo doentio;

b) dependência doentia;

c) adoração doentia.

Acontece que alguma parcela do movimento espírita brasileiro herdou algo dessa cultura.

Entretanto, qual a relação que Jesus sempre estimulou?

A do MESTRE para com seus discípulos: aquele que ensina, orienta, aconselha, esclarece e até ampara nos momentos difíceis, mas sem dependências, idolatria, pieguismo ou adoração doentia.

 VAMOS REFLETIR?

 Duas idéias incoerentes foram criadas pela Igreja Católica e perduram no seio do Cristianismo. São elas a perdição e a salvação, ou seja, a humanidade estaria perdida por causa do pecado de Adão e Eva, por isso Deus precisara enviar seu filho inocente e puro para ser imolado, a fim de que seu sangue purificasse o ser humano e seu sacrifício o redimisse.

Mas essas idéias não fazem sentido porque, sendo Deus onipotente, o máximo poder do universo, autor das leis universais, poderia simplesmente perdoar os pecados do ser humano, sem necessidade de sacrificar alguém, muito menos um inocente. Aliás, essa perspectiva de sacrificar alguém em nosso lugar é muito cômoda, alimentada pelo egoísmo e hipocrisia humanos. Além disso, seria necessário fazer-se uma idéia muito estúpida sobre Deus para entender que Ele poderia criar leis tão injustas, mediante as quais os erros de alguém seriam resgatados com o sacrifício de outrem.

Essa ótica sobre a necessidade de sacrifícios para aplacar a ira dos deuses vem do paganismo, foi assimilada por Abraão e sua descendência e adotada por Moisés, que realizou um magnífico trabalho de codificação ao longo dos livros do Pentateuco, detalhando e enumerando cada pecado possível de ser cometido pelos descendentes de Israel, com a punição correspondente. Essas punições, em sua maioria, eram de sacrifícios de animais, acreditando-se que o sangue derramado aplacaria a ira de Deus, que, assim apaziguado, paparicado, iria continuar a abençoar o pecador que se redimira.

Outra idéia incongruente que foi colocada na Bíblia, no Antigo Testamento, é a de que Deus se agradava com o cheiro do sangue dos animais imolados. Imagine que tipo de ser seria esse, a gostar de sangue. O escritor Jayme Andrade, no livro O Espiritismo e as Igrejas Reformadas, diz que Jeová, certamente, seria um espírito protetor do povo israelita, uma espécie de deidade tribal, mais ou menos identificada com a índole da raça e que assumia junto ao povo a condição de Deus. Assim se podem explicar as inúmeras absurdidades encontradas na Bíblia com relação a Jeová, ou Senhor, como também o chamavam. (Mais detalhes no livrinho Temor a Deus.)

As palavras redenção e salvação, utilizadas nos meios religiosos cristãos, vieram desse contexto, tanto que Jesus foi tido como o “Cordeiro de Deus, imolado para tirar os pecados do mundo”, ou seja, seu sangue teria lavado os pecados de Adão e Eva, os quais maculavam as almas de todos os seus descendentes, redimindo-as, e seu sacrifício salvaria do inferno aqueles que cumprissem fielmente os preceitos das suas religiões.

Esse conceito é tão infantil quanto a mentalidade humana daquela época. As idéias sobre Deus eram absolutamente incompatíveis com o bom senso. O Espiritismo, felizmente, veio colocar as coisas nos seus devidos lugares, mostrando ao homem um enfoque mais real sobre o Criador, as suas leis, a vida. Mas, em razão dos condicionamentos milenares sofridos pelo psiquismo do mundo cristão, até mesmo nos meios espíritas ainda perduram certas estruturas dessa mentalidade.

Num entendimento mais saudável, poderíamos dizer que ninguém está precisando salvar-se porque ninguém está perdido. Estamos todos, sim, precisando evoluir.

Mas, ante esse conceito sobre a inexistência da salvação, como ficaria aquela máxima da codificação “Fora da caridade não há salvação”?

É preciso entender que o sentido dado a essa palavra indubitavelmente não é o mesmo do significado que tem na Bíblia. É preciso observar-se a época e a circunstância em que essa máxima foi dita. Foi uma contraposição ao dogma “Fora da Igreja não há salvação”.

E Kardec, nesse mesmo capítulo, em seus comentários aos textos do Evangelho, em vez da palavra “salvação”, usa “felicidade futura”.Todo o discurso da codificação nos fala em evolução ao longo das reencarnações e isto é incompatível com a idéia da salvação bíblica.

O Espírito Verdade trouxe um universo de informações que foram codificadas e comentadas por Kardec. O conteúdo desse “pacote” de novos conhecimentos é de molde a produzir mudanças nos enfoques e na vivência das pessoas. São mudanças que ocorrem pela conscientização do que é bom e do que não é bom para o presente e o futuro da própria pessoa. É a via certa e mais segura de transformação, de crescimento interior dos seres e da própria coletividade.

Mas, enquanto virmos Jesus como o Salvador, estaremos sempre nos atrelando a Ele, procurando n’Ele muletas ou mesmo uma “carona” para Nosso Lar, quando não, a mão de uma babá a nos conduzir vida afora. É a anti-evolução.

Podemos também entender que essa questão reflete o nosso momento evolutivo. Quando vemos em Jesus o Salvador, esse tipo de relação se assemelha à da criancinha com aqueles que cuidam dela, quando espera deles e até mesmo exige alimento, cuidados necessários para o seu bem-estar, amor, atenção e as brincadeiras de que gosta.

Pense agora como é a relação do jovem para com o pai, a mãe ou alguém a quem ama e admira profundamente. É bem diferente. É a relação de alguém que procura espelhar-se nas qualidades que admira no outro. Da mesma forma, numa relação menos infantil com Jesus, forçosamente veremos n’Ele o Mestre. E quando nos dedicamos a meditar sobre a Sua grandeza espiritual, serenidade, força, amor e sabedoria, o vínculo que criamos com Ele irá nutrir-nos com esses valores, e poderemos assimilá-los na medida em que a nossa idade sideral permitir.

Quanto à imagem que d’Ele fizeram como o mártir da cruz, quando relembrada vez por outra, de forma correta, pode ajudar na construção do nosso interior, no que diz respeito ao exemplo que nos legou de força moral, estoicismo e aceitação da vontade de Deus; do amor que demonstrou em meio aos mais horríveis sofrimentos, ao perdoar seus algozes; da fidelidade aos princípios esposados e da serenidade nos momentos mais difíceis. Mas convém atentar para o fato de que até mesmo nos piores momentos no drama da crucificação, Jesus foi acima de tudo o Mestre, porque até mesmo ali, de forma muito especial, foi o vívido ensinamento. Não tremeu ante aquele desfecho, não abjurou sua fé nem seus princípios, não se acovardou negando sua missão para livrar-se da cruz. Além de Mestre, foi exemplo vivo de tudo que ensinou.

 Fica assim muito clara a necessidade de se começar a desenvolver debates amplos e equilibrados em torno dessas e de outras questões, para que todos possam reorganizar suas idéias, já que todos nós, por mais firmes que sejam nossos conceitos, podemos, de repente, observar que algo em nossas posturas pede mudanças. Mas sempre é importante desenvolver esses debates com muita prudência, porque em embates dessa natureza, quando envolvem algo que se possa entender por “pureza doutrinária”, há tendências à radicalização. Por isso os debates devem ser conduzidos com muito cuidado e permanecer sempre tão-somente no terreno das idéias.

 

Texto extraido do livro A Transição está pedindo mudanças (Saara Nousiainen/Simone Ivo Sousa)

 

 

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