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ATITUDES DE AMOR

Saara Nousiainen

 

Nota da autora.

 

Quero informar, em primeiro lugar, que este movimento vem ocorrendo desde o início deste século XXI, e dele só tomei conhecimento recentemente. Portanto, meu papel é apenas o de uma recém-chegada.

Como sempre é possível que alguém levante dúvidas sobre a autenticidade da mensagem de Bezerra de Menezes, inserida no início deste opúsculo, na qual ele fala sobre o novo período do Espiritismo, prefiro não entrar no mérito dessa questão, por entender que, se ela não fosse autêntica, mereceria sê-lo; basta observar um pouco e refletir mais um tanto, para perceber a sua lógica e sentir o quanto é oportuna.

Assim, não percamos o trem da história, gastando precioso tempo com especulações, mas busquemos analisar com a mente, sentir com o coração e levantar esta bandeira, porque ela reflete as nossas mais prementes necessidades deste momento.

O movimento Atitudes de Amor não tem donos. É plural e aberto, não institucionalizado.

Sua finalidade é a propagação e aplicação de orientações procedentes do mundo espiritual, endereçadas a todos os espíritas, que certamente irão percebê-las de acordo com seus próprios conteúdos.

Muitos talvez digam que se trata de esforços inúteis. Outros, que é um “movimento paralelo” engendrado por opositores desencarnados, visando desestabilizar o movimento espírita organizado. Muitos outros assimilarão da mensagem apenas o que lhes interessa e outros tantos se manterão indiferentes.

Muitos companheiros, no entanto... realmente serão muitos os que sentirão em seus corações a verdade dessas orientações e, movidos por profundos impulsos de amor e de alegria, partirão para o trabalho, com vistas a materializar tais idéias e entendimentos nas suas vidas e atitudes, assim como nas instituições espíritas em que labutam.

Em nome dos espíritos responsáveis por este movimento, dos reencarnados já engajados e dos outros que lhe deram início, recebamos todos nós as boas-vindas ao trabalho e procuremos tornar-nos a cada dia mais fortes, mais fraternos e solidários. Isto é necessário porque qualquer mudança de paradigmas se faz acompanhar por inúmeros obstáculos (muitas vezes provocados por adversários invisíveis), por muito trabalho, muitas decepções, injustiças e ingratidão, mas também por indefiníveis júbilos.

Pela oportunidade, por mais ínfima que seja, agradecemos ao Senhor da Vida, ao Mestre Jesus e aos espíritos benfeitores, que nos permitiram e possibilitaram participar da realização deste pequeno trabalho.

 

 

 

Terceiro período do Espiritismo

É fácil perceber que estamos vivendo o final de uma civilização decadente, mas também já é possível entrever prenúncios que indicam estarmos iniciando um processo de transição para uma nova era ou, como disseram os espíritos na codificação do Espiritismo, esse transitar seria de mundo de provas e expiações para o de regeneração. Isto pode ser observado nos muitos movimentos pela paz, pela ecologia, pelo respeito aos diferentes, pela fraternidade, pelo amor, pela vida. São movimentos que vêm surgindo em várias partes da Terra. É a ciência descobrindo que a vivência dos valores da alma é benéfica para o corpo, induzindo o ser humano ao perdão, à fraternidade e à paz; e a Psicologia buscando caminhos interiores para as pessoas conhecerem melhor a si mesmas e se tornarem mais equilibradas, mais plenas. E tudo isso, desvinculado de aspectos religiosos.

Procedentes do mundo espiritual, vêm se materializando na Terra inúmeras obras psicografadas ou “canalizadas”, não apenas nos meios espíritas. Nestas, temos o excelente trabalho de benfeitores como Joana de Angelis, Hammed e Ermance Dufaux. Fora do âmbito espírita, vamos encontrar inúmeros autores cujos livros, traduzidos para vários idiomas, alcançam grande número de edições, mostrando como atitudes antifraternas e de negação da vida, do afeto e da alegria causam inúmeros males, principalmente enfermidades. Outros realizam extraordinários trabalhos de desenvolvimento espiritual, como o Pathwork de Eva Pierrakos, canal através do qual falava uma entidade espiritual de grande sabedoria, a quem chamavam apenas de “o Guia”, visando mudar os padrões de pensamento, ensinando as pessoas a se amarem e sentirem-se plenas, abrindo espaços para o amor universal, a fraternidade e o contentamento.

Essa expectativa de transição, no entanto, muda muita coisa, e é nos meios espíritas que devemos estar mais atentos para o papel que nos cabe neste momento, em virtude dos conhecimentos transcendentais da Doutrina professada por nós, da assistência permanente dos espíritos benfeitores e dos compromissos que assumimos com nossa própria consciência e com aqueles que avalizaram nossa reencarnação.

 

Conforme Bezerra de Menezes, estamos adentrando a terceira etapa do Espiritismo, na qual se criará entre nós, seus adeptos, o período da ATITUDE. Nessa etapa, pretende-se também a maioridade das idéias espíritas.

Essa informação está contida num relato feito pelo espírito Cícero Pereira, no livro Seara Bendita, psicografado pelo médium Wanderley Soares de Oliveira (MG). Nesse relato Cícero descreve um memorável encontro ocorrido no mundo espiritual, ao término do Congresso Espírita Brasileiro de 1999, em Goiânia.

Desse encontro, conforme Cícero Pereira, participaram mais de cinco mil espíritos desencarnados e encarnados, quando então Bezerra, em nome do espírito Verdade, apresentou uma série de diretrizes que representam verdadeiro planejamento estratégico para o novo período do Espiritismo, que se iniciaria com o novo século. Essas diretrizes, como se pode perceber, estão inteiramente alicerçadas sobre o maior dos valores defendidos por Jesus, o amor. Isto nos dá tranqüilidade quanto à sua procedência, lembrando que o Mestre afirmou: “Pelos frutos os conhecereis”.

Disse, então, Bezerra, que o primeiro período do Espiritismo, de setenta anos, constituiu a fase da consagração das origens e das bases em que se assentam a Doutrina, as quais lhe conferiram legitimidade.

Os setenta anos seguintes representaram o tempo da proliferação.

Com relação ao terceiro período, de outros setenta anos, afirmou: “Esse novo tempo deverá conduzir a efeitos salutares a nossa coletividade espírita, criando entre nós, seus adeptos, o período da atitude. O velho discurso sem prática deverá ser substituído por efetiva renovação”; “O núcleo espiritista deve sair do patamar de templo de crenças e assumir sua feição de escola capacitadora de virtudes e formação do homem de bem, independentemente de fazer ou não com que seus transeuntes se tornem espíritas e assumam designação religiosa formal”; “A diversidade é uma realidade irremovível da Seara e seria utopia e inexperiência tratá-la como joio. Imprescindível propalar a idéia do ecumenismo afetivo entre os seareiros, para que a cultura da alteridade seja disseminada e praticada no respeito incondicional a todos os segmentos”. (Grifos nossos)

 

Como podemos perceber por estas rápidas pinceladas, as diretrizes trazidas por Bezerra são de molde a mudar paradigmas e essas mudanças são absolutamente necessárias para podermos acompanhar a transição em andamento, porque transição sempre muda muita coisa.

Podemos observar também que o discurso de Bezerra foi todo vazado numa linguagem muito forte, peremptória, imprópria de seu estilo suave, porque naquele momento, como informado, ele estava transmitindo o pensamento do Espírito Verdade, em orientações de grande importância e seriedade para o movimento espírita.

Já o detalhar dessas diretrizes, quanto a formas, roteiros e procedimentos, vem sendo trazido do mundo espiritual por diversas vias, principalmente através do espírito Ermance Dufaux, nos livros psicografados por Wanderley S. Oliveira (MG), tais como Mereça ser Feliz, Laços de Afeto, Reforma Íntima sem Martírio e Unidos pelo Amor, editados pelo INEDE (MG), representando poderosos instrumentos para o desenvolvimento dos valores da afetividade e crescimento interior do ser.

Ermance, em sua última encarnação, foi uma das médiuns da codificação. Hoje, ao lado de Bezerra de Menezes, Eurípedes Barsanulfo, Maria Modesto, Cícero Pereira e outras entidades de escol, vem trabalhando intensamente para difundir essas novas idéias, visando a sua materialização nos ambientes espíritas, pois conforme disse Bezerra, referindo-se ao novo período do Espiritismo, “o núcleo espiritista deve sair do patamar de templo de crenças e assumir sua feição de escola capacitadora de virtudes e formação do homem de bem”.

Bezerra refere-se às instituições espíritas como “templos de crenças”. O que isto significa?

Certamente ele se refere à crença no conhecimento espírita em ambiente de templo, onde nos reunimos para manifestar nossa fé, dentro das diretrizes do Espiritismo. Até este ponto, tudo está certo, mediante nossa visão atual. Mas é bom observar que, nesse ambiente da nossa fé, há muita disputa de variada natureza, e há aquela idéia de que somos os únicos detentores da Verdade, por cuja pureza devemos lutar “com unhas e dentes”, porque nela está a salvação da humanidade.

É nesse momento que Bezerra, com muita clareza, apresenta um novo paradigma, pelo qual o centro espírita deverá sair desse patamar de mero “templo de crença”, para se constituir uma “escola capacitadora de virtudes” e formação do homem de bem.

Reflitamos juntos sobre o significado destas palavras.

Fica claro que capacitar o ser para a vivência das virtudes é mais importante do que a crença que ele possua, porque a humanidade, para evoluir, necessita de “homens de bem”, sendo de somenos importância o que acreditam em termos de religião. Não é alguma doutrina ou religião que vai salvar o mundo, mas sim o próprio homem, quando se tornar mais fraterno e ético. Assim, o foco principal do Espiritismo, ou das atividades espíritas, deverá sair do emaranhado de discussões doutrinárias que a nada de bom conduzem, passando a ocupar-se com mais intensidade do seu aspecto de escola, na qual se aprende a vivenciar o amor, a fraternidade, a alteridade, a honestidade, a ética e demais virtudes que fazem do ser uma presença sempre benéfica.

Com essa mudança, os espíritas estarão praticando verdadeiramente o amor ao próximo e atuando com mais segurança na transformação do ser humano.

 

Alteridade

Mas o que significa essa alteridade de que fala Bezerra?

Esse é um termo que vem sendo cada vez mais utilizado não apenas nos meios espíritas, e seu significado reflete uma nova mentalidade, aquela que irá vigorar na civilização que deverá transformar a Terra num mundo de regeneração, porque se refere à aceitação das diferenças; também significa a não-indiferença, o aprender com os diferentes, o amar e acolher o outro, aceitando e respeitando as suas diferenças.

É uma palavra que representa, em sua profundidade, as leis cósmicas de convívio entre os seres.

A pessoa que a vivencia passa a ser mais fraterna em todos os sentidos, deixando de criticar, julgar, agredir, excluir, desprezar...

A não-crítica, a não-agressão, o não-julgamento deixam o ser em paz consigo mesmo, com a humanidade, com a vida.

Muitos poderão contestar dizendo que atitudes assim tornam a criatura alienada. Mas há grande diferença entre analisar de forma construtiva e julgar, criticar, marginalizar, excluir, desprezar, enviar uma vibração negativa para o que, ou a quem, se considera inferior ou errado, seja ele uma pessoa, uma instituição ou uma nação, já que as instituições e as nações são formadas por pessoas.

O ser humano, dentro dos seus critérios de crítica, habituou-se a tudo rotular. Assim, vendo os outros sob o enfoque dos rótulos que lhes colocamos, geralmente irreais, quase sempre mantemos esses enganos durante toda a vida. Por exemplo, se em algum momento concluímos que “fulano” é preguiçoso, estamos lhe colocando esse rótulo e, a partir de então, sempre o teremos na conta de preguiçoso, a não ser que algum fato novo venha nos provar o contrário.

Pense por alguns instantes, caro leitor, sobre quais rótulos os outros lhe terão aplicado...

Numa postura alteritária, os rótulos tendem a desaparecer, porque passamos a ver o outro como alguém que vem de longos percursos reencarnatórios, assim como nós mesmos, tendo aprendido muito com as lutas, dores e alegrias dos caminhos, mas ainda com muitas falhas, um tanto imaturo em termos de evolução e necessitado de crescer interiormente, exatamente como nós próprios. Assim, podemos mais facilmente amá-lo apesar das diferenças, respeitando seu inalienável direito de ser como deseja, porque tudo é aprendizado no bojo da vida.

Quanto aos relacionamentos nos meios espíritas, voltemos às sábias palavras de Bezerra: “A diversidade é uma realidade irremovível da Seara e seria utopia e inexperiência tratá-la como joio. Imprescindível propalar a idéia do ecumenismo afetivo entre os seareiros, para que a cultura da alteridade seja disseminada e praticada no respeito incondicional a todos os segmentos”.

Sendo pois a “diversidade uma realidade irremovível da Seara”, importa que todos os segmentos se dêem as mãos fraternal e alteritariamente, despreocupados de detalhes ou diferenças doutrinárias, e voltem-se para cuidar com todo esmero da questão fundamental: desenvolver amor nos meios espíritas, porque é ele, o amor, o mais importante de tudo. Aqueles que dão grande importância aos detalhes doutrinários, quando aprenderem a amar verdadeiramente, encontrarão meios pacíficos e agregadores para debater suas idéias e tentar convencer os que entendem estar em erro.

A propósito, os segmentos citados por Bezerra refletem as diversas tendências existentes no movimento espírita: os que pugnam pela “pureza doutrinária”, os que seguem as idéias de Roustaing, os que se identificam com o pensamento de Ramatís, de Pietro Ubaldi, de Edgar Armond, os que têm maiores afinidades com Chico Xavier, etc.

 

Amor

 

Se refletirmos minimamente sobre a situação do nosso movimento, perceberemos logo que o seu maior e mais doloroso problema está na ausência de amor, de afeto nas relações entre os companheiros e destes para com os que procuram a casa espírita, necessitados de ajuda. No entanto, o Mestre recomendou enfaticamente: “Amai-vos uns aos outros”. E informou: “Meus discípulos serão conhecidos por muito se amarem”.

Diante desta tão simples constatação, podemos perceber que a ação mais importante e urgente está em desenvolver-se amor e afeto nos nossos meios.

O amor, em termos de evolução, é tão importante quanto o próprio ar que respiramos. Informam espíritos benfeitores que, nas dimensões espirituais mais elevadas, a sua nutrição está essencialmente no amor. O grande apóstolo Paulo de Tarso disse: “Ainda quando eu falasse todas as línguas dos homens e a língua dos próprios anjos, se não tiver amor serei como um bronze que soa, ou um címbalo que retine. Ainda quando eu tivesse o dom da profecia, que penetrasse todos os mistérios e tivesse perfeita ciência de todas as coisas, e ainda quando tivesse toda a fé possível até o ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, nada sou”.

Prestemos atenção nestas palavras: “...que penetrasse todos os mistérios e tivesse perfeita ciência de todas as coisas, se não tiver amor, nada sou”.

Pergunto: Por que nos meios espíritas se valoriza tanto o estudo doutrinário, ou seja, “o penetrar nos mistérios e aquisição da perfeita ciência de todas as coisas”, e tão pouco se trabalha para desenvolver amor? Por que, com tantas possibilidades educativas do mundo moderno, quando a Psicologia e outras ciências vêm apresentando inúmeros recursos para ajudar o ser humano a trabalhar de forma positiva seus sentimentos, a ter mais equilíbrio, a viver melhor consigo e com os outros, o movimento espírita organizado não prioriza a vivência do Espiritismo, o crescimento interior, a geração de amor entre os trabalhadores da seara, os freqüentadores e as instituições?

O estudo doutrinário certamente é importante, porém mais ainda que esse mero estudo é a sua prática, a vivência daquilo que ele nos ensina.

Quantos de nós temos a cabeça cheia de conhecimento espírita, mas o coração vazio de amor! Isto representa desequilíbrio evolutivo, dificultando ou atrapalhando a caminhada.

O conhecimento que trazemos sinaliza para a prática do bem, da caridade. Esse já é um passo importante. É quando começamos a refletir luz, mas ainda não temos luz própria.

Mas quando começamos a desenvolver amor em nossos sentimentos, em todo o nosso interior, e este passa a irradiar-se de nós, refletindo-se em nossas atitudes, então começamos a ter luz própria, porque amor é luz de Deus.

Quando o movimento espírita passar a dedicar-se à vivencia dos ensinamentos do Mestre e do Espírito Verdade, então, sim, estaremos fazendo um espiritismo verdadeiro, com luz própria. Por enquanto essa luz ainda permanece um tanto quanto escondida nas páginas da codificação.

Vejamos a esse respeito alguns trechos extraídos dos livros de Ermance Dufaux.

“Amar é uma aprendizagem. Conviver é uma construção.”

Será que, nas atividades da casa espírita, somos conduzidos a essa aprendizagem do amor? Será que somos “trabalhados” no sentido de convivermos cada vez melhor? Há reuniões sistemáticas visando a esse desiderato, de forma realmente prática e proveitosa? Estamos construindo um convívio verdadeiramente fraterno e alteritário?

“Não existe amor ou desamor à primeira vista, e sim simpatia ou antipatia. Amor não pode ser confundido com um sentimento ocasional e especialmente dirigido a alguém. Devemos entendê-lo como O Sentimento Divino que alcançamos a partir da conscientização de nossa condição de operários na obra universal, um “estado afetivo de plenitude”, incondicional, imparcial e crescente.”

O amor realmente só o é quando incondicional, imparcial e crescente. É como uma fonte sempre em estado de doação, sem guardar-se para uns ou outros. Quem ama não necessita de que o amem, porque o amor verdadeiro nutre-se nas fontes do amor divino, ou cósmico.

Se refletirmos um pouco, podemos perceber o quanto o nosso amor é ainda um simulacro, mas conforme diz Ermance, é uma aprendizagem, portanto podemos aprender a amar. Mas para isso não bastam meras leituras ou estudos, é preciso muito mais. As leituras e estudos geram predisposição, mas realizar a construção do amor na intimidade do ser a irradiar-se nas atitudes do cotidiano pede firme decisão e exercício contínuo. Para tanto, os centros espíritas podem organizar reuniões e oficinas, nas quais os participantes, unindo esforços e ideais, encontrarão inúmeros recursos que os ajudem efetivamente nessa construção.

“Mesmo entre aqueles que a simpatia brota instantaneamente, amor e convivência sadia serão obras do tempo, no esforço diário do entendimento e do compartilhamento mútuo do desejo de manter essa simpatia do primeiro contato, amadurecendo-a com o progresso dos elos entre ambos”. (...) “Relações exigem cuidados para serem edificadas no amor, e esse aprendizado exige os testes de aferição no transcorrer dos tempos.”

Uma instituição espírita que queira ter um ambiente fraterno e de bom convívio entre seus membros e freqüentadores precisa desenvolver ações nesse sentido, intentando a educação dos sentimentos entre todos que por ali transitam. O mero conhecimento doutrinário e estudos do Evangelho não são suficientes. Quantos irmãos das mais diversas religiões que conhecem de cor os textos bíblicos e sabem citar exatamente onde se encontram tais e quais dizeres do Evangelho vivem de forma absolutamente antifraterna, gananciosa, orgulhosa...

A cabeça cheia de conceitos espíritas só tem valor quando em sintonia com o coração, e refletindo-se nas ATITUDES.

 “A terapêutica do amor é, sem dúvida, a melhor e mais profilática medicação do Pai para seus filhos na criação. Compete-nos, aos que nos encontramos à míngua de paz, experimentá-la em nossos dias, gerando fatos abundantes de amor, vibrando em uníssono com as sábias determinações cósmicas estatuídas para a felicidade do ser na aquisição do glorioso e definitivo título de Filhos de Deus.”

Ermance fala em gerar fatos abundantes de amor..., mas para isso necessitamos desenvolvê-lo em nós.

Mas se entendermos que bastarão pequenas ações aqui e ali, estaremos apenas nos enganando. Para que o amor venha a fluir de nós, assim como as águas fluem de uma fonte, é preciso priorizar a abertura de canais para o mais Alto e assim, nutrindo-nos no amor universal, aprender a estabelecer a sua presença em nós, a dinamizá-lo, a imprimi-lo em todo o nosso ser.

Um bom exercício para desenvolver esse sentimento divinal é acostumarmo-nos a olhar para qualquer pessoa, seja quem for, e sentir por ela afeto, carinho, desejando-lhe tudo de bom. Isto fica mais difícil quando se trata de algum desafeto ou alguém com aspecto de pessoa má ou desagradável, mas é justamente aí que começamos a vivenciar o amor incondicional. Esse exercício tem vários efeitos benéficos, porque imprimir amor nos sentimentos nos eleva a freqüência vibratória, livrando-nos da sintonia com irmãos das sombras; fortalece nosso sistema imunológico, conforme a ciência vem constatando, proporcionando mais saúde e bem-estar, além de favorecer a grandiosa construção desse sentimento em nós, o mais importante dos valores, priorizado por Jesus quando formulou o maior de todos os mandamentos, dizendo: “Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”.

Mas há algo muito importante a ser observado, com relação ao amor. Ele necessita de sabedoria para haver equilíbrio. O amor e a sabedoria formam as duas asas da evolução e nada decola só com uma asa.

Disse o espírito Miramez que a caridade só deve ir até onde não se faça em ninho para aproveitadores.

Muitos erros se têm cometido em nome do amor, quando este passa a acobertar a omissão. Mas quando amamos verdadeiramente, nosso foco será sempre o melhor para os objetos desse amor, mesmo que tenhamos de tomar medidas ou atitudes aparentemente opostas. Os pais que realmente amam seus filhos, muitas vezes, terão de negar-lhes algo ou até mesmo castigá-los, visando encaminhá-los para condutas mais adequadas e para aquisição de valores éticos, morais e espirituais, ou seja, o melhor para eles.

Assim, convém meditar sobre esses meandros todos, a fim de nunca nos tornarmos omissos e para que a nossa mente aprenda a pensar com amor, e o nosso coração a amar com sabedoria.

Mais uma razão importantíssima para trabalharmos intensamente no sentido de gerar amor é o estado espiritual da nossa humanidade atual, que criou em torno do planeta um ambiente de pesadas vibrações, geradas principalmente pelo tipo de emoções vivenciadas por grande número de pessoas, induzidas por filmes violentos, amorais e de horror; por jogos que a juventude “curte” adoidadamente, nos quais matar se torna diversão; por noticiários sobre crimes e acidentes, etc. Sabemos que esse “astral” pesado que vibra nos ambientes da Terra influencia a humanidade, levando-a mais e mais a afundar-se nesse abismo. Se sabemos de tudo isso, é fácil entender qual a nossa responsabilidade. Assim, gerando amor, que é a mais poderosa das vibrações luminosas, estaremos colaborando grandemente para eliminar um pouco dessa sombra, substituindo-a por luz.

 

 Santificação de adorno

Quando tomamos contato com o Espiritismo e passamos a participar de reuniões, ouvir palestrar, ler livros espíritas, encantamo-nos com a beleza dessa Doutrina e ingressamos nessa corrente que visa à evolução do ser, à transmutação de valores negativos em positivos. E, com o passar do tempo, sutilmente também vamos incorporando às nossas atitudes exteriores a “santidade de adorno”, da qual fala Ermance Dufaux no livro Reforma Íntima sem Martírio. Isto ocorre por assimilarmos aquelas idéias, que fluem como “clichês” nos nossos ambientes, de que o espírita precisa ser assim ou assado, que não pode isso, não pode aquilo. Então, sem nem perceber, acabamos por apresentar comportamentos que ainda não têm raízes mais profundas no terreno da alma. A adoção de máscaras de uma santidade irreal é muito natural no nível evolutivo em que nos encontramos, mas prejudica muito nossa evolução, além de nos causar profundas decepções quando retornarmos ao mundo espiritual.

Além disso, estamos no limiar de uma nova era para a humanidade e ingressando num novo período para o Espiritismo. Portanto, é hora de começarmos a nos olhar com muita clareza e verdade; mergulhar em nosso interior, além de qualquer máscara, e sem qualquer constrangimento diante de tantos valores negativos, tantas manhas e artimanhas que iremos observar nesse mergulho, e iniciar o trabalho do nosso crescimento consciente como seres cósmicos que somos. E será esse próprio crescimento que irá nos levar firmemente a retirar as velhas máscaras, mas não com aquela postura habitual em cujo bojo está a sutil intenção de que os outros nos vejam como portadores da tão decantada virtude, a humildade. 

Esse é um passo dificílimo, principalmente para quem é visto como um “bom espírita”, e para quem ocupa posições de destaque nas atividades, ou dentro da instituição.

Então, pergunto sobre o que é mais importante: crescer no conceito da nossa comunidade, mas sofrer no além-túmulo, carregando seqüelas para as futuras encarnações, ou conduzir-nos (nos pensamentos, atitudes, palavras, sentimentos e ações) visando tão somente buscar nosso crescimento interior, apoiando-nos, inclusive, uns nos outros, para mais facilmente podermos alcançar nossas metas, sem recear julgamentos humanos, nem mesmo discriminações?

Essa segunda opção certamente é bem mais difícil, mas de que vale caminhar por caminhos mais fáceis quando encarnados, para depois sofrer no mundo espiritual e ter de recomeçar tudo em futuras encarnações? Aqui cabe lembrar aquela conhecida exortação de Jesus: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta que leva à perdição”.

Se não entrarmos por essa porta estreita, além de atrasar nossa própria evolução, estaremos também engessando a daqueles que seguem conosco e que podem estar vendo em nós modelos ou líderes.

 

Cultura do sofrimento

No livro Reforma Íntima Sem Martírio, Ermance, falando sobre o sofrimento, assim se expressa:

“O culto à dor tornou-se uma cultura nos ambientes espíritas. Condicionou-se a idéias de que sofrer é sinônimo de crescer, de que sofrer é resgatar, quitar. Portanto, passou-se a compreender a “dor-punitiva” como instrumento de libertação, quando, em verdade, somente a dor que educa liberta. Há criaturas dotadas de largas fatias de conhecimento espiritual sofrendo intensamente, mas continuam orgulhosas, insensatas, hostis e rebeldes.”

Se nossa humanidade está transitando de mundo de provas e expiações para a condição de regeneração, está claro que a nossa mentalidade também precisa ser reformulada, para atender com segurança as necessidades dessa transição. Se continuarmos engessados no pensamento antigo, calcado na temática do sofrimento como necessidade expiatória, como poderemos trabalhar pelo novo modelo?

Aquela idéia de que “vamos sofrer resignadamente porque receberemos recompensas no mundo espiritual” está começando a mudar para um discurso mais saudável e progressista: “vamos buscar o nosso crescimento interior, desenvolver nossas qualidades superiores, nossas potencialidades e principalmente o amor; ajudar a comunidade, procurando levar-lhe as verdades espirituais, além de trabalhar visando conscientizá-la quanto à importância da sua participação na transformação do mundo; auxiliar o ser humano a comandar seus estados de espírito, a erguer-se e caminhar com os próprios pés”.

É a cruz transformando-se em instrumento de trabalho, de crescimento e de alegria.

A “cultura do sofrimento” nos oprime, a da “auto-ajuda” nos dá vitalidade, alegria e promove saúde e bem-estar, tornando-nos seres mais plenos.

Pela “cultura do sofrimento”, o espírita não deve ser uma pessoa feliz, alegre, de bem com a vida, e não deve vivenciar prazeres, nem mesmo os mais inocentes, mas ter sempre presente a sua realidade de “grande devedor”, que, por misericórdia divina, está tendo a oportunidade de carregar seu pesado carma, arrastando-o vida afora, com as lágrimas escorrendo pelo rosto ou sufocadas em angústias interiores, e a esperança de vir a ser feliz depois que retornar ao mundo espiritual.

A propósito, aqui cabe uma perguntinha: será que Deus é misericordioso, ou tão somente nos AMA? Quem ampara alguém por amá-lo não está usando de misericórdia, mas vivenciando seu amor.

Quanto à “cultura do sofrimento”, será que Deus criou os seres para sofrerem?

Já a auto-ajuda, ao contrário do que muitos espíritas entendem, significa desenvolver recursos internos para transformar velhas viciações da alma em valores positivos, naqueles mesmos que Jesus ensinou; buscar meios para construir em si mesmo a paz, a harmonia e o equilíbrio; cuidar melhor do interior, para que o corpo responda com saúde e bem-estar.

Cultivar estados de espírito leves, otimistas, fraternos, confiantes, de esperança e de contentamento, representa poderosa ajuda que podemos dar a nós mesmos.

E lembremos que o Mestre sempre dizia: “Levanta-te e anda”. Que lição terá desejado nos ensinar com tal atitude?

O grande papel do sofrimento e das dificuldades não é, pois, o da mão que castiga, mas sim o do professor que ensina a ciência do bem-viver.

As responsabilidades que assumimos com o trabalho na seara espírita e o respeito que lhe devemos não precisam revestir-se com ar carrancudo, mas devem refletir-se em atitudes que iluminam, levantam, fortalecem, tornando o ambiente mais fraterno e mais feliz.

 

 

Cultura da conformação

 

Mas a “cultura do sofrimento” também carreia outras posturas com aspectos negativos, tais como a da conformação.

Por certo é importante aceitarmos o sofrimento que não pudermos mudar, mas há diferenças entre aceitar e conformar-se, como também é indiscutível que podemos, sempre, mudar nossa vida para melhor, começando por melhorar os próprios estados de espírito e as atitudes. E, mesmo aceitando o sofrimento como necessário à evolução, ou como retorno de atos do presente ou do passado, devemos recebê-lo como lição e não como carga.

Por esses novos enfoques, podemos também perceber a importância de começarmos a mudar aquele tom que é usado em alguns centros espíritas, o da voz melíflua, chorosa, piegas, orientando para a conformação, colocando como exemplo os sofrimentos de Jesus e acenando com as recompensas futuras. A nova civilização que está para nascer pede discursos diferentes, aproveitando, inclusive, o melhor que já existe na área do conhecimento humano, visando ao crescimento da criatura em toda a sua plenitude.

Assim, entendemos que é hora de começarmos a abandonar algumas idéias equivocadas, como aquelas de comprar um lugar no Céu, ou na colônia espiritual Nosso Lar, através da conformação, uma postura estagnante que ainda voeja nas cabeças de muitos espíritas, quando entendem ser necessário sofrer a fim de purificar a alma, ou para pagar culpas do passado, como se apenas pagar essas culpas fosse o suficiente para elevar alguém a planos mais luminosos.

 Certamente, no novo modelo que deverá nortear o mundo de regeneração, serão utilizados caminhos outros, que não apenas a dor, para a evolução dos seres.

A largueza de vistas do Espiritismo mostra ao ser humano que ele deve buscar a felicidade, o bem-estar, o contentamento, desde que não arranhe a ética cósmica, ou seja, as leis de Deus.

 

 

Crescimento interior

Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim. (Chico Xavier)

 

Em nossa orgulhosa imaturidade, sempre acreditamos que sabemos tudo.

Se nos chega às mãos algo, uma mensagem, um livro, que trata de questões relacionadas com a nossa reforma moral ou crescimento interior, de imediato nos domina a idéia de que nada ali será novidade para nós, que já conhecemos tudo a esse respeito. Isto se explica em razão dos nossos percursos mais ou menos longos no estudo do Evangelho e seus desdobramentos.

Mas quando nos debruçamos sobre trabalhos como esses da coleção de livros do espírito Ermance Dufaux, começamos a perceber neles novos enfoques, novos desdobramentos, objetivos práticos e podemos dizer, com tranqüilidade, que estamos diante de novos paradigmas. Em seguida, observamos o quanto estamos necessitados de transformar velhas idéias (que foram boas para a época em que dominaram) em novos rumos, em novas vivências, em novas atitudes.

E essas mudanças, percebemos, precisam ser radicais.

Dessa forma, decididos a trabalhar pela nossa renovação, começamos a procurar mais recursos para nos alavancar os propósitos. O Mestre disse: “A quem bate, abrir-se-á; quem procura, encontra”.

Um desses recursos encontramos numa palestra no Fórum Espírita de Pernambuco, em 2004, quando o Lama Padma Samten, falando sobre compaixão e amor pela ótica budista, nos dá uma nova dimensão a esses valores.

Pela sua extensão, que não caberia num trabalho como este, reproduzimos apenas o final da palestra:

“Digamos que alguém olha para uma planta que se encontra num vaso dentro da casa. Pelo olhar compassivo, em vez de observar se gosta dela ou não, pergunta como é que ela se sente sem a luz do sol, a água da chuva e sem as suas plantas amigas e companheiras.

Quando olhamos uma planta pensando se gostamos dela ou não, nossa mente opera obstruída pela sensação de gostar ou não gostar.

Uma inteligência maior é olharmos para aquela planta perguntando do que ela necessita. E mais do que isso, nós podemos olhá-la e ver, com os olhos do bom jardineiro, quais as flores e frutos que essa planta tem escondida dentro dela e que ela mesma não sabe.

Quando, em algum momento da nossa infância, alguém (nossos pais, professores ou qualquer outra pessoa) nos olhou e viu em nós as sementes e flores que tínhamos dentro de nós e não sabíamos, amorosamente umedeceu a terra onde vivíamos, para que pudéssemos crescer e nos desenvolver. A essa capacidade, essa inteligência de olhar o outro e reconhecer nele qualidades positivas, a isso, no budismo, chamamos de amor.

Olhar o outro e ver o que afeta a existência dele, para nos manifestarmos de forma positiva e para remover os obstáculos, isso é compaixão; para promover as qualidades positivas, isso é amor.

Existem cinco formas de compaixão apresentadas pelo budismo, através de cinco cores.

A primeira é o azul. Através dessa cor, nós olhamos para o outro e o acolhemos; também perguntamos quais as flores e frutos escondidos nesse ser.

Temos a compaixão amarela, de um amarelo-dourado, que significa generosidade, riqueza, meios. Então, quando vamos ajudar alguém, nós podemos não somente ouvi-lo, entendê-lo, aspirar ao bem, mas podemos eventualmente fazer algo mais.

Vamos supor, como acontece lá no sul do Brasil, de tanto em tanto, que o rio subiu e a casa foi destruída. Podemos visitar o desabrigado e dizer: “Você não se preocupe tanto... isto passa”. É uma boa ajuda, mas, com a cor amarela, podemos auxiliar para que passe mais rápido, oferecendo um suporte prático.

Depois temos a cor vermelha, que simboliza o eixo. Ela vem da sedução, daquilo que nos encanta. Então, que possamos produzir no outro um encantamento positivo, um eixo positivo. Assim, a cor vermelha vai nos ajudar a dizer àquela pessoa que é melhor não reconstruir a casa no mesmo lugar, porque o rio pode subir de novo. Dessa forma, muitas vezes não basta que se ajude o outro a reconstruir, mas que o ajude a fazê-lo numa situação melhor. Para isso precisamos da sabedoria dos eixos. Para os nossos filhos, não podemos abdicar disso. Não precisamos impor os eixos, eles não são impostos. Mas se dissermos que não devemos ajudar o outro a criar uma estrutura positiva, um referencial positivo, estaremos nos omitindo e isso seria uma atitude sem compaixão.

Assim é muito necessário que repitamos as palavras dos grandes mestres, que vivamos essas palavras, estudemos isso e entendamos, ajudando os outros a compreender como viver melhor. Se não ajudarmos ou outros nesse sentido, isso será uma falha da nossa compaixão.

No entanto não bastam essas três formas.

Há um momento em que vemos uma criança puxando uma toalha com uma leiteira de leite fervente em cima. Se não gritarmos, a criança puxa e se machuca. Quando gritamos, nós não nos opomos à criança. Nós estamos a favor dela. Quando dizemos: “Não faça isso”, nós interrompemos uma ação negativa. Então muitas vezes é necessário manifestar o que se chama a cor verde. No budismo, isso é chamado “a família karma”, em que vemos a negatividade surgindo e a obstruímos. Nós nos impomos diante da negatividade, interrompendo-a. Não somos contra a pessoa, somos a seu favor.

E há ainda a cor branca, a culminância da compaixão, porque, ainda que eu acolha, ainda que propicie meios, ainda que ofereça eixos, ainda que obstaculize a negatividade, se não revelar a natureza ilimitada, não tive a compaixão, a generosidade, a amorosidade de descobrir essa natureza ilimitada e oferecer às outras pessoas. Então as outras compaixões são muito menores, são quase sem sentido.

O que dá sentido à vida é que todos marchamos para a consciência da natureza última e vivemos inseparáveis disso. A nossa vida não teria culminância, não teria completude, sem a cor branca em que nós reconhecemos a natureza ilimitada. Então, a compaixão maior é podermos oferecer aos outros essa natureza.”

Por esses enfoques do Lama, começamos a perceber que alguns valores cultivados por nós, aos quais chamamos de piedade e caridade, geralmente nos situam acima do outro, por isso estão precisando ser transmutados em compaixão e em amor.

Se prestarmos atenção, perceberemos quão infinitas vezes em nosso cotidiano podemos usar essa compaixão tão bem explicada pelo Lama.

Por exemplo, quando vemos uma pessoa feia, ou desagradável, colocamo-nos interiormente em posição superior a ela. Mas se a olharmos com olhar compassivo, pensando nas imensas dificuldades que deve enfrentar, por causa da sua condição, enviaremos a ela uma vibração de simpatia, de fortaleza, de soerguimento. Isto é muito melhor para nós e é bom para ela.

Da mesma forma, ao nos depararmos com um tipo mau, repugnante ou facínora, pelo olhar compassivo veremos que seu espírito é da mesma essência que o nosso e que apenas está vivenciando fases primárias em suas experiências evolutivas, em patamares ainda degradantes, mas um dia sua luz interior irá iluminá-lo por completo, como acontecerá também com nós outros. Então lhe enviaremos uma vibração de afeto e de indução ao bem.

Observe, caro leitor, as profundas diferenças que existem entre a nossa “piedade” e “caridade”, e a compaixão e o amor, vistos pelo enfoque budista, que certamente deverá vir a ser também o do espírita.

Quando conseguirmos perceber as profundas diferenças entre uma e outra e nos imbuirmos da decisão de adotar a compaixão e o amor como atitudes predominantes, em breve poderemos observar como o nosso interior mudou.

Pense em quantos benefícios haverá para o movimento espírita e para todos aqueles que, de alguma forma, são alcançados por sua atuação, quando conseguirmos vivenciar verdadeiramente esses dois valores.

Mas não espere o movimento espírita adotar tais posturas para engajar-se junto com ele. Decida-se, você mesmo, como unidade que é dentro do todo, porque é de pequenas unidades, ou seja, de exemplos e vivenciamentos que o bem vai se alastrando, podendo vir a alcançar dimensões imprevisíveis.

Decididos, assim, a trabalhar pela nossa renovação, acabamos também entendendo como é importante começar a encarar nossa verdadeira face, porque já estamos suficientemente amadurecidos; aprender a olhar para dentro de nós com clareza e, apesar das inferioridades ali encontradas, amar-nos mais do que nunca, a amar a nossa luz e também a nossa sombra, porque tudo isto faz parte natural do nosso crescimento.

Dessa forma, amando-nos, compreendemos como é urgente darmos mais um passo, subirmos mais um degrau e mudarmos velhos paradigmas que foram criados em razão da nossa pouca idade sideral.

Ao invés de tentarmos “matar” em nós o homem velho, que representa tudo de bom e de ruim que vivenciamos ao longo dos milênios e das reencarnações e que forma a estrutura do nosso psiquismo, devemos amá-lo e conquistá-lo para transmutar suas sombras em luz.

A época não é de destruição, mas de crescimento.

 

 

Crescimento interior na prática

 

No livro Laços de Afeto, Ermance pergunta: “O centro espírita tem arregimentado um programa para ensinar a transformação íntima? Tem havido clima nos grupos para que os tarefeiros possam dialogar construtivamente sobre seus conflitos?” “Temos nos iludido, transferindo responsabilidades pessoais para as ações obsessivas de desencarnados?” “Temos desenvolvido a razão, mas, temos trabalhado o afeto?”

 

Qualquer ganho na evolução está diretamente ligado ao crescimento interior, que também é caminho para o equilíbrio e o bem-estar, mas isto não se dará apenas pelo estudo doutrinário, a leitura de belas mensagens ou por assistir a discursos emocionados.

É preciso ir além, estabelecer programas, utilizar recursos outros, tais como reuniões ou estudos interativos, além de oficinas com aplicação de exercícios e técnicas já existentes e outras que forem criadas, que possam efetivamente auxiliar a pessoa a transmutar valores negativos em positivos.

A decisão de desenvolver determinado valor e o trabalho contínuo nesse sentido, começam proporcionando ganhos de superfície. Com a continuidade do esforço, esses ganhos vão se aprofundando até alcançar o inconsciente, gerando ali as devidas transformações que passam a manifestar-se através do psiquismo em ATITUDES, não mais de superfície, mas resultantes de uma nova realidade interior.

Tais resultados, no entanto, só se conseguem mediante muito esforço e quando este passa a ser a nossa grande prioridade.

Para tanto, os trabalhos em grupo são os mais indicados. Há mais estímulo, os companheiros podem trocar experiências, aprender uns com os outros, incentivar-se, nutrir a contínua motivação, sem a qual fica difícil prosseguir. Faz-se menção aos Alcoólicos Anônimos, que encontram sua força justamente nas reuniões direcionadas ao fim proposto.

Um grupo que se reúne visando crescer interiormente transforma-se numa força coletiva, pois todos se ajudam mutuamente, e essa força é capaz de realmente transformar o homem velho em novo.

Uma valiosa ferramenta para o nosso crescimento interior está em começarmos a transmutar nossa preocupação com a censura externa, aquela que nos fazem, para uma interna; em sistematizar nossa consciência para estar sempre de atalaia junto à mente, observando os pensamentos ainda em seu nascedouro, para nos alertar a fim de lhes mudarmos o curso, sempre que estejam fora das linhas do amor e da verdade. Da mesma forma, com relação às palavras, emoções e ações. Quando nos habituarmos a esse exercício de luz, estaremos dando firmes e largas passadas nas trilhas da nossa evolução.

Os centros espíritas podem encontrar muitas maneiras para desenvolver naqueles que circulam entre suas paredes, uma cultura de crescimento interior. Isto pode ser feito através de reuniões específicas, oficinas, inserção desse tema nas reuniões, distribuição de folhetos apropriados, exposição de cartazes, como por exemplo: “Pense nas pessoas que estão neste ambiente e envolva-as numa vibração de afeto, confiança e alegria”, “Quer evoluir? Passe a desenvolver de forma contínua um estado de espírito fraterno e jubiloso”.

Se a diretoria de um centro se reúne visando a determinado fim, certamente encontrará os melhores caminhos para alcançá-lo.

Um livro que também poderá servir como apoio para esse desiderato, é de nossa autoria e intitula-se Crescimento Interior.

Em sua primeira parte, apresentamos um roteiro, um modelo-sugestão para reuniões, que pode ser adotado por grupos ou instituições ou, ainda, realizado em casa, da mesma forma como se faz o Evangelho no lar. A segunda parte é um manual individual.

 Esse livro pode ser adquirido a preço de custo nesta editora pelos grupos que o adotarem.

 

Uma forma prática

 

Uma maneira bem prática para desenvolver valores como o amor e a alteridade, tão importantes e mesmo fundamentais para a evolução espiritual do ser, é a de imbuir-se continuamente desses sentimentos e, quando em situações específicas, acrescentar a compaixão, naquela forma como foi explicada pelo Lama Padma Samten.

Mas, para conseguir resultados, é preciso exercitar-se muito. Ocorre que a grande dificuldade em qualquer intento dessa natureza é a memória, ou a falta dela. Geralmente só nos lembramos dos nossos propósitos depois de praticada a ação, dita a palavra, ou gerado o pensamento em desacordo com nossa intenção.

Digamos que alguém tem o hábito de coçar a ponta do nariz e deseja corrigir-se. Isto se consegue através de alguns passos: primeiro a memorização, depois a vigilância constante e por último a ação, ou seja, o freio. Se não memorizar essa decisão, não vai exercer a vigilância porque não vai lembrar-se. Não exercendo vigilância, não conseguirá evitar coçar o nariz.

E como podemos adquirir essa memorização?

Há várias maneiras. Muitos a conseguem trazendo-a continuamente ao consciente, lembrando-se dela a todo instante. Mas, para a maioria das pessoas, essa prática não dá bons resultados, porque, no fluxo do cotidiano, acabamos esquecendo o objeto da memorização, pondo a perder a oportunidade.

Há alguns anos, formamos um grupo de pessoas dispostas a trabalhar pelo crescimento interior. Iniciávamos a reunião com a discussão de um tema escolhido no encontro anterior, como a paciência, o perdão, a humildade, o medo, a depressão, a solidão, etc. Em seguida, fazíamos alguns exercícios práticos e encerrávamos com um relax com visualizações e induções positivas, sempre relacionadas à vivência que estava em pauta.

Numa dessas reuniões, alguém teve a excelente idéia de sugerir o uso de lembretes que nos ajudassem a memorizar melhor o que estávamos desejando alcançar, ou seja, a paciência, que tinha sido o tema do dia. Uns escreveram a palavra “paciência” num pedaço de papel, amarrotando-o e colocando-o no bolso ou na bolsa. Dessa forma, ao botarem a mão no bolso ou bolsa e o encontrarem, iriam trazer à memória a idéia da paciência, lembrando-se de que precisavam ser pacientes. Outros adotaram o uso de outros tipos de lembretes.

Como a impaciência era algo que eu não conseguia dominar, por mais que viesse tentando ao longo de muitos anos, resolvi fazer uma trança com pequenos cordões. Enquanto ia trançando, mentalizava a seguinte idéia: sempre que sentir ou olhar para esta trancinha, vou lembrar-me da paciência. Depois de pronta, prendi-a no pulso. Até que ficou um enfeite original... aos olhos dos outros.

Ao final da semana, percebi que aquele lembrete estava sendo tão importante que resolvi continuar e acabei usando a trancinha durante dois meses, até conseguir fixar no consciente a idéia de que precisava ser paciente.

Esse pequeno estratagema ajudou-me em dois meses muito mais do que os muitos anos de decisões sempre renovadas de desenvolver a paciência. A bem da verdade, ainda não posso afirmar que sou uma pessoa paciente, porque mudanças dessa natureza, em caráter definitivo, só se conseguem em trabalho de longo curso e quando tais valores alcançarem o inconsciente e ali se estruturarem. Mas o primeiro e o segundo passos já foram dados com segurança.

Assim, imbuir-se continuamente de sentimentos de amor, de fraternidade e de compaixão com relação a tudo e a todos, representa formidável conquista para a evolução espiritual do ser. E quando isto ocorre com companheiros que militam na seara espírita, o benefício se estende de forma imprevisível.

 

 

Outra forma de colaborar

Se possuímos conhecimentos mais avançados e sabemos que podemos colaborar mais efetivamente na transição do nosso mundo para um modelo melhor, não apenas pelas atividades comuns nos centros, mas também através da prece, das vibrações e visualizações voltadas para a humanidade, que estamos esperando para iniciar um amplo movimento nesse sentido?

Você que é dirigente, trabalhador da seara, freqüentador ou mero leitor de obras espíritas reflita sobre a importância do momento que estamos vivendo. Lembre que a nossa responsabilidade ante a coletividade se amplia à medida que vamos adquirindo mais conhecimentos, capacidade e aptidões. Pense o quanto pode ajudar, desenvolvendo vibrações benéficas direcionadas à comunidade espírita e, mais ainda, quando habituar-se a sempre enviar pensamentos e emoções positivos, luminosos, para nossa humanidade e nosso planeta, acrescidos de pedidos ao Pai Celestial para abençoar a nossa nave cósmica. Essas vibrações, essas energias, irão somar-se a outras de igual teor, o que irá ajudar, e muito, nesta difícil transição planetária, que já está começando a dar seus primeiros sinais.

Quando a nossa vida pessoal ou a de algum familiar está complicada, com dificuldades, que fazemos? Além das providências cabíveis, o nosso pensamento se volta sempre para o Alto, em busca da ajuda divina; muitas vezes pedimos preces aos amigos, aos companheiros da Casa espírita, e procuramos envolver a situação numa vibração benéfica.

Se a nossa Casa Planetária está complicada, em dificuldades, por que não fazermos o mesmo? Se o mundo vai mal, nós também sofremos com ele. Se a humanidade caminha à beira de um abismo, nós estamos caminhando com ela.

 

Convocação

No prefácio de O Evangelho Segundo o Espiritismo, o espírito Verdade faz uma grande convocação, informando que os “tempos são chegados, em que todas as coisas devem ser restabelecidas em seu verdadeiro sentido”.

Agora, se prestarmos atenção, podemos perceber como nos últimos anos vem vertendo dos planos superiores uma nova convocação. Desta vez, para a VIVÊNCIA dos valores que foram apresentados por Jesus e por tantos outros luminares, ao longo dos séculos. Estamos realmente adentrando um período que deve priorizar as ATITUDES, em detrimento dos velhos discursos.

 Mas não pensemos, em nossa natural vaidade, que essa convocação para a vivência do amor e de valores éticos esteja destinada apenas a nós, espíritas. Ela abrange a humanidade inteira e cada qual vem recebendo-a, ou rejeitando-a, de acordo com seus próprios padrões psíquicos e evolutivos.

Pergunto: De que forma iremos nós, espíritas, interpretar e nos posicionar ante esse novo chamamento, procedente dos planos mais elevados?

 

* * * * *

 

Em novembro de 2004, aconteceu em Belo Horizonte um encontro de companheiros que, em contato com os livros de Ermance Dufaux, haviam sentido, em profundidade, a necessidade urgente e premente de trabalhar pelo próprio crescimento em bases mais atuais e mais adequadas a esta época de transição que estamos vivenciando. Mais de cem pessoas, das mais diversas partes do país, trocaram idéias e experiências, firmemente decididas a continuar desenvolvendo sentimentos e ATITUDES de amor, de afetividade, de alteridade, de contentamento e demais valores tão bem apresentados por Ermance, como também de levar esse “trabalho” para o âmbito das instituições nas quais militam.

Foi um evento inesquecível, no decorrer do qual era possível sentir no próprio ar o amor, o afeto e a alegria, em vibrações de poderosas motivações para a continuidade desse trabalho que visa a algo muito difícil e que sempre encontra inúmeros opositores, uma mudança de paradigmas.

Durante esse encontro, vários companheiros narraram suas experiências relacionadas a este movimento, dentre as quais destacamos a do CELUZ, cujo resumo apresentamos, como exemplo que pode ser seguido por outras instituições.

 

CENTRO ESPÍRITA LUZES NO CAMINHO – CELUZ

Travessa Mauriti, 726 – Pedreira – Belém/Pará - Fone: (91)254-5940

Fundado em 04 de janeiro de 1981, esse centro é adeso à União Espírita Paraense e administrado por um modelo de colegiado, composto pelos diretores dos diversos departamentos.

Possui quinze grupos de estudos do chamado ESDE, onde enfoca o estudo do Evangelho Segundo o Espiritismo e de O Livro dos Espíritos. Tem uma média de 400 participantes ao todo. E destes, 120 são trabalhadores.

Possui cinco grupos de reunião mediúnica, destinados ao apoio das diversas atividades do centro: Crianças – Jovens – Adultos – Trabalhadores e Casos Graves.

Realiza, há quase cinco anos, atividades de autodescobrimento, para trabalhadores, através do estudo da série psicológica de Joanna de Angelis, do Hamed e ultimamente Laços de Afeto. Esta atividade está sendo reestruturada e se chamará “O Despertar do Espírito”.

 RESUMO DAS MUDANÇAS OCORRIDAS A PARTIR DE JULHO 2004

O projeto Em Busca de Novos Aprendizados foi elaborado todo ele com base nos ensinos dos livros da Hermance Dufaux e teve seu início no dia 17 de outubro de 2004, com uma organização voltada para quinze grupos de estudos.

A partir de dezembro de 2004, foi iniciada a construção de dois projetos, o de “ Relacionamento Afetivo” e o de “Amor ao Próximo”, como coroamento da preparação que tiveram em outubro, novembro e dezembro, com a finalidade de abrir o coração ao amor, na prática. No final de 2005, avaliaremos o quanto se realizou.

O mesmo programa está sendo aplicado no ex-núcleo Raio-de-Sol. Lá o grupo tem menos nível cultural e foi preciso modificar a metodologia, evitando leituras de textos. São os mesmos textos, mas levados com dinâmica e estudo de casos.

Foram criadas planilhas como rumos para uma melhor organização das ações que os grupos vão construir, a fim de exercitar o afeto.

O projeto Em Busca de Novos Aprendizados está sendo aplicado pelos próprios monitores. Eles têm sentido dificuldade, em virtude de as mensagens atingir-nos em nossos limites, por isso o projeto tem sido bom.

 

 


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