A transição está pedindo mudanças

 

 

Primeira parte

Saara Nousiainen

 

 

Este é um livro para ser lido, pensado e repensado, porque propõe ao movimento espírita mudanças, tanto em paradigmas quanto em metodologias.

O ser humano é avesso a mudanças porque elas causam transtornos, desorganizam tudo, para depois reorganizar em novos formatos. Mas como são indispensáveis para que haja evolução, principalmente em períodos de transição, como o atual, precisam ser enfrentadas com coragem, tranqüilidade e firmeza.

 

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É fácil perceber que estamos vivendo o final de uma civilização decadente, mas também já é possível vislumbrar que estamos ensaiando os primeiros passos sobre a ponte que nos levará a uma nova época. Isto pode ser notado em tudo que nos toca e nos cerca.

Também nos meios espíritas há sinais visíveis dessa transição, principalmente nas expectativas que se desenham nos corações de grande número de companheiros, clamando por mudanças, por novos enfoques, assim como também no trabalho de outros tantos, visando mais praticidade e otimização na difícil tarefa de crescimento interior, que reflete a finalidade maior do próprio Espiritismo.

 Segundo relato feito pelo espírito Cícero Pereira, no livro Seara Bendita, psicografado pelo médium Wanderley Soares de Oliveira (MG), ao término do Congresso Espírita Brasileiro de 1999, do qual participaram mais de cinco mil espíritos desencarnados e encarnados, em memorável encontro no mundo espiritual, Bezerra de Menezes lançou as diretrizes para o terceiro período do Espiritismo, a se iniciar com o século XXI.

Os primeiros setenta anos, conforme explicou, constituíram o período da consagração das origens e das bases em que se assentam a Doutrina, as quais lhe conferiram legitimidade.

O segundo período de mais setenta anos foi o tempo da proliferação.

Neste terceiro período, de outros setenta anos, pretende-se a maioridade das idéias espíritas.

Palavras de Bezerra:

“Esse novo tempo deverá conduzir a efeitos salutares a nossa coletividade espírita, criando entre nós, seus adeptos, o período da atitude. O velho discurso sem prática deverá ser substituído por efetiva renovação.”

“O núcleo espiritista deve sair do patamar de templo de crenças e assumir sua feição de escola capacitadora de virtudes e formação do homem de bem, independentemente de fazer ou não com que seus transeuntes se tornem espíritas e assumam designação religiosa formal”.

“A diversidade é uma realidade irremovível da Seara e seria utopia e inexperiência tratá-la como joio. Imprescindível propalar a idéia do ecumenismo afetivo entre os seareiros, para que a cultura da alteridade seja disseminada e praticada no respeito incondicional a todos os segmentos”. (Grifos nossos)

Nas últimas décadas, quando se falava no terceiro milênio, era comum acreditar-se que essa transição seria de curta duração, como se “Deus estalasse os dedos lá em cima” e as coisas acontecessem rapidamente aqui na Terra. Mas, em raciocínios mais acurados, acabou-se entendendo que ela será lenta, obra do tempo e dos esforços dos seres humanos. Tal entendimento veio reforçar o senso de responsabilidade, que deve estar presente na consciência de cada espírita, por este perceber a importância da sua efetiva participação nesse desiderato.

Se estamos assim, ensaiando os primeiros passos sobre a ponte que nos levará a uma nova época, um novo período, devemos lembrar que transição pede mudanças, mas vamos tratar neste livro principalmente daquelas que se referem a alguns enfoques e algumas metodologias vigentes em nosso meio, além da nova diretriz, ou seja, a alteridade.

 

 

Enfoques

 

 

Conforme a codificação do Espiritismo, o mundo de ONTEM era de provas e expiações, com resgates de ações negativas, além dos necessários aprendizados.

Podemos facilmente observar que HOJE já estamos começando a vivenciar o início de um período de transição, continuando, assim, os resgates de ações negativas e os aprendizados, mas acrescidos de um processo de eliminação de “lixos” do inconsciente e dos primeiros passos para um crescimento interior mais pleno.

O mundo de AMANHÃ deverá ser o de regeneração, dando continuidade aos aprendizados e conduzindo os seres a mais elevados patamares evolutivos.

Assim, se estamos caminhando celeremente para a transição, o que é necessário fazer? Permanecer como antes? Ou participar ativamente para que ela se dê mais depressa e de forma mais fácil?

Voltando nossas vistas para os meios espíritas e lembrando que toda transição se faz pelas vias das mudanças, surge naturalmente uma pergunta: o que é necessário mudar?

Certamente as carências são muitas, mas vamos tratar neste capítulo apenas daquelas que se referem a alguns enfoques, lembrando que são eles os sinalizadores que direcionam e orientam as nossas atitudes e ações.

 

VAMOS REFLETIR?

 

Ao longo do tempo as religiões criaram verdadeiro encarceramento psíquico através de três algemas.

A primeira é a EXIGÊNCIA, com regras de conduta e de ações, algumas de acordo com as leis cósmicas, outras para atender seus próprios interesses e prender os fiéis às teias do seu poder.

Pela ótica espírita, a exigência deve ser a que nos faz nossa consciência, onde estão registradas as leis de Deus.

A segunda algema está nos sentimentos de CULPA, nem sempre pertinentes, que foram introduzidos no psiquismo dos cristãos, como instrumento de manipulação e domínio psíquico. É natural que um “fiel”, sentindo-se culpado perante Deus ou diante da igreja, entendida por ele como representante legal da divindade, torne-se elemento frágil e suscetível às mais diversas manipulações.

A terceira algema está nas idéias de PUNIÇÃO, das quais a Igreja Católica e depois as protestantes souberam aproveitar-se para implantar o império do MEDO, através do qual conseguem ainda hoje domínio sobre seus “rebanhos”.

Mas é preciso dizer, a bem da verdade, que esse domínio teve também o seu mérito, a sua razão de ser, por funcionar como freio para muitos que jamais se amoldariam a determinadas atitudes não fosse o medo das represálias divinas, ou mesmo as das próprias igrejas. Hoje, porém, se torna importante analisar a atualidade do cristianismo, do qual nós mesmos herdamos vários condicionamentos.

Podemos perceber, então, como os cristãos estão triplamente algemados às suas religiões. Daí surge a imensa dificuldade de se libertarem dos condicionamentos que foram se enraizando em seus psiquismos, ao longo do tempo e das encarnações, e que podem:

a) gerar complexos, causando “n” problemas de vivência, de convivência e até mesmo de saúde;

b) abrir canais de sintonia com espíritos obsessores.

Acontece também que significativa parcela dos espíritas, em níveis variados, tem igualmente o psiquismo preso a esses condicionamentos, como herança reencarnatória. 

 

Que fazer então para liberar-se?

 

1 – DESENVOLVER SENSO CRÍTICO

2 – MUDAR ALGUNS ENFOQUES

3 – BUSCAR O CRESCIMENTO INTERIOR

 

Desenvolver senso crítico

 

Para desenvolver senso crítico, é necessário, em primeiro lugar, desocupar-se de qualquer tipo de fanatismo, e, lembrando sua condição de ser único, partícipe do grandioso espetáculo da natureza, começar a perceber as próprias capacidades e a grandeza latente escondida na intimidade de si mesmo. Assim, iniciando um processo de individualização, poderá ir abandonando as atitudes grupais, pelas quais todos seguem, sem questionar aqueles que se põem à sua frente “tocando berrante”. Esse é, creio eu, o primeiro e importante passo para desenvolver senso crítico e poder começar a abrir aquelas algemas de que falamos acima.

 

 

Mudanças em alguns enfoques

 

Termos como expiação, carma expiatório, culpa e resignação refletem idéias pesadas, condicionantes, gerando medo e complexos. Se estamos no limiar de um novo tempo, o da regeneração, vemos oportuno mudar os enfoques:

expiação para reajuste;

carma expiatório para carma evolutivo;

culpa para responsabilidade;

resignação para aceitação;

caridade para fraternidade ou atos de amor.

 

Expiação

 

Os termos reajuste e carma evolutivo são mais leves, libertam o ser para os vôos da evolução. Certamente, nas situações em que a vida machuca muito, é válido entender que se trata de expiação, porque essa idéia resguarda a pessoa de sentir revolta, ao entender que não está sendo injustiçada pela vida. O contrário poderia levá-la a descrer da justiça divina.

Mas não é positivo atribuir-se tudo ao carma. Afinal, o grande papel do sofrimento e das dificuldades não é o da mão que castiga, mas o do professor que ensina a ciência do bem-viver.

Muitos companheiros espíritas, de forma equivocada, entendem que tudo que acontece é carma. Se alguém dá uma topada e arranca uma unha do pé, estaria recebendo o retorno das unhas que arrancou, quando fora carrasco do santo ofício em passada encarnação. Entretanto, a topada pode ter acontecido simplesmente por descuido, mero acidente, e até mesmo como recurso da vida, visando algum fim útil. Certamente, pensar em retorno cármico deve ser sempre a última opção, vendo antes na dor e nas dificuldades de qualquer natureza alguma lição que a vida está nos querendo ensinar. Isto é muito mais saudável e proveitoso para nossa evolução.

Há alguns anos, quando colaborava com um grupo espírita que assistia a uns oitenta idosos, pude observar com toda clareza como é importante essa questão dos enfoques.

Os velhinhos, procedentes de uma favela próxima, iam chegando isoladamente ou em grupos, uns silenciosos, outros bulhentos. O ambiente era descontraído e as conversas calcadas em brincadeiras inocentes, logo tomavam conta. Cada um apanhava seu copo de refresco, o pão com manteiga e ia sentar-se para o lanche. Em seguida todos se reuniam no grande salão onde seria realizado o Evangelho, seguido de passe coletivo.

Naquela tarde a leitura de O Evangelho Segundo o Espiritismo versava sobre as penas e expiações, seguida da palavra de alguns espíritos sobre a necessidade de suportá-las com paciência e conformação, visando resgatar erros do passado e antevendo recompensas futuras.

A companheira que lia o Evangelho fazia-o em tom lamentoso, e a sonoridade de sua voz caía pesadamente sobre os psiquismos presentes.

A essa altura os semblantes, antes alegres e descontraídos, mostravam-se soturnos e amargurados, como se estivessem revivendo todas as suas tristezas e aflições. Aquele ar de contentamento fora substituído por expressões de dolorosa conformação.

Deu vontade de levantar e pedir a todos para sorrirem, cantarem e se abraçarem, agradecendo a Deus pela vida, o ar, a natureza e a amizade, esquecendo-se das suas mágoas e dores; dizer-lhes que o ser humano precisa aprender a sentir-se feliz, apesar dos problemas ou sofrimentos. Mas aquela disciplina que aprendemos na Casa Espírita não permitiria tal atitude.

O ambiente era de funeral, os comentários do Evangelho seguiram o mesmo estilo e a prece, pedindo a fluidificação da água, foi vazada em voz que mais parecia um lamento que um pedido.

Os velhinhos foram saindo um a um, mais vergados que antes, sentindo com mais intensidade as suas aflições.

Voltei para casa pensativa. Será esse o papel do Espiritismo?

No livro Reforma Íntima Sem Martírio, psicografado por Wanderley Soares Oliveira,  o espírito Ermance Dufaux, falando sobre o sofrimento, assim se expressa:

“O culto à dor tornou-se uma cultura nos ambientes espíritas. Condicionou-se a idéias de que sofrer é sinônimo de crescer, de que sofrer é resgatar, quitar. Portanto, passou-se a compreender a “dor-punitiva” como instrumento de libertação, quando, em verdade, somente a dor que educa liberta. Há criaturas dotadas de largas fatias de conhecimento espiritual sofrendo intensamente, mas continuam orgulhosas, insensatas, hostis e rebeldes.”

Se nossa humanidade está transitando de mundo de provas e expiações para a condição de regeneração, conforme informam os espíritos, está claro que a nossa mentalidade também precisa ser reformulada, para atender com segurança as necessidades dessa transição. Se ficarmos engessados no pensamento antigo, calcado na temática do sofrimento como necessidade expiatória, como poderemos trabalhar pelo novo modelo?

É natural que prepondere num mundo de provas e expiações a idéia do Consolador, como também é a Verdade que deve preponderar num mundo de regeneração. Mas a própria natureza do Consolador, por um ponto de vista mais saudável, está muito mais nas informações trazidas pela Verdade, do que na conformação ante o sofrimento, visando recompensas futuras.

E é justamente essa mentalidade mais avançada, mais adequada à época, que vem surgindo em alguns segmentos dos meios espíritas.

Aquela idéia de que  “vamos sofrer resignadamente porque receberemos recompensas no mundo espiritual” está começando a mudar para um discurso mais saudável e progressista: “vamos buscar o nosso crescimento interior, desenvolver nossas qualidades superiores e as nossas potencialidades; ajudar a comunidade procurando levar-lhe as verdades espirituais, além de trabalhar visando conscientizá-la quanto à importância da sua participação na transformação do mundo; auxiliar o ser humano a comandar seus estados de espírito, erguer-se e caminhar com os próprios pés”.

É a cruz transformando-se em instrumento de trabalho, de crescimento e de alegria.

Sem a mais remota idéia de tecer críticas aos espíritos que trabalharam na codificação do Espiritismo, devemos lembrar que a maioria deles era procedente da Igreja Católica, por isso em seus enfoques transparecem conceitos que, se podiam ser adequados àquela época, estão carecendo de revisão.

Podemos observar essa tendência em algumas passagens, como no capítulo em que falam sobre as penas e recompensas. A linguagem é bastante semelhante à da Igreja. No capítulo Bem-aventurados os aflitos, Lacordaire diz: “O homem não recebe nenhuma recompensa para esse tipo de coragem, mas Deus lhe reserva seus louros e um lugar glorioso”. Essa idéia de recompensas, louros e um lugar glorioso é adequada a espíritos que ainda não alcançaram certo grau de entendimento e que necessitam desse tipo de muletas para caminhar melhor. Mas hoje, em pleno trânsito para uma nova época, essa velha mentalidade deve começar a ceder lugar à do trabalho pela auto-superação, a auto-ajuda, o crescimento da criatura como ser cósmico. Tal crescimento por si só, deve ser o seu maior fator de felicidade atual e futura. Também se observa aí um toque de vaidade na expectativa de glórias, incompatível com os ensinamentos de Jesus e as idéias transmitidas pelo Espiritismo. E mais adiante Santo Agostinho diz: “O Senhor marcou com seu selo todos os que acreditam nEle”, ou seja, passa a idéia da salvação pela fé.

Como vemos, aqueles espíritos, embora de elevada estirpe, mantiveram, até certo ponto, um linguajar e idéias compatíveis com suas últimas reencarnações ou, quem sabe, preferiram usar aquela linguagem como um degrau para entendimentos mais elevados.

Por isso e também porque o bom senso indica, não se deve entender tudo ao pé da letra.

Sofrer hoje, resignadamente, visando louros e glórias no Céu, demonstra curto entendimento sobre evolução. Um espírito evoluído, pela humildade que lhe é própria, jamais encontrará a felicidade nesses louros e glórias, mas sim em seu próprio estado evolutivo, que é jubilosamente luminoso.

Assim, é hora de começarmos a abandonar aquelas idéias de comprar um lugar no Céu, ou na colônia espiritual Nosso Lar, através da conformação, uma postura estagnante, que ainda voeja nas cabeças de muitos espíritas que entendem ser necessário sofrer para purificar a alma, ou pagar culpas do passado, como se apenas pagar essas culpas fosse o suficiente.

 Certamente, no novo modelo que deverá nortear o mundo de regeneração, serão utilizados caminhos outros, que não apenas a dor, para a evolução dos seres.

A largueza de vistas do Espiritismo mostra ao ser humano que ele deve buscar a felicidade, o bem-estar, o contentamento, desde que não arranhe a ética cósmica, ou seja, as leis de Deus.

Por certo é importante aceitarmos o sofrimento que não pudermos mudar, mas há diferenças fundamentais entre aceitar e conformar-se, como também é indiscutível que podemos, sempre, mudar nossa vida para melhor, começando por melhorar os próprios estados de espírito e as atitudes. E, mesmo aceitando o sofrimento como necessário à evolução, ou como retorno de atos do presente ou do passado, devemos recebê-lo como lição e não como carga.

Por esses novos enfoques podemos também perceber a importância de começarmos a mudar aquele tom que é usado em alguns centros espíritas, o da voz melíflua, chorosa, piegas, orientando para a conformação, colocando como exemplo os sofrimentos de Jesus e acenando com as recompensas futuras. A nova civilização que está para nascer pede discursos diferentes, aproveitando, inclusive, o muito de bom que já existe na área do conhecimento humano, visando o crescimento da criatura em toda a sua plenitude.

 

Culpa

 

Também os sentimentos de culpa, pela ótica espírita, são pertinentes apenas no que dizem respeito ao mal que fazemos aos outros, à comunidade, a nós mesmos e à natureza; mesmo assim, só devem persistir na medida em que nos levem à correção, ao reajuste e ao resgate, quando for o caso. É natural e mesmo útil que esses sentimentos perdurem por algum tempo, após o ato que os gerou, mas sem que isso se transforme num peso inútil a martirizar a alma. Da mesma forma, não cabe ao espírita sentir-se culpado perante Deus, mas sim perante a própria consciência e também diante de quem vitimou, porque o Ser Supremo não se ofende, não se magoa nem se aborrece com nossos erros. As suas leis existem, não para nos cercear ou violentar, mas para nos orientar a evolução.

Reportamo-nos mais uma vez ao espírito Ermance Dufaux, no livro anteriormente citado:

“Freqüentemente existe um trio de sicários da alma que a chicoteiam durante as etapas do amadurecimento, são eles: baixa auto-estima, culpa e medo de errar. Apesar de serem sofrimentos psíquicos, funcionam como emuladores do progresso quando nos habilitamos para gerenciá-los. Assim, a culpa transforma-se em auto-aferição da conduta e freio contra novas quedas, a baixa auto-estima converte-se em capacidade de descobrir valores e o medo de errar promove-se a valoroso arquivo de experiências e desapego de padrões.”

Sentimentos de culpa, portanto, só são válidos como força propulsora para os devidos resgates e o crescimento interior do ser.

Esse é um tema que deveria merecer, principalmente dos palestrantes e dirigentes espíritas, o maior cuidado, particularmente ao tratar de questões como o aborto e o suicídio, para que não agravem ainda mais a situação, lembrando que as pessoas envolvidas em tais ações, certamente, já carregam grandes sofrimentos ou graves pesos conscienciais.

Certa vez um amigo contou que há muitos anos, quando convidado a fazer uma palestra sobre o suicídio num centro espírita, caprichou nas explicações sobre o sofrimento pelo qual passam aqueles que tiram a própria vida. Foi brilhante em seu discurso, mas, ao final, o presidente da casa veio pedir-lhe para consertar os estragos feitos a um casal que assistira à palestra e que havia perdido um filho há poucas semanas, por suicídio. Eles tinham procurado o Espiritismo buscando consolo para sua dor e encontraram ainda mais dor.

Talvez pelo grande número de palestras que alguém faz, ano após ano, acaba se automatizando. O fluxo de palavras desce de forma quase automática dos arquivos mentais, sem passar pelo crivo do bom senso, do questionamento, sem a preocupação de saber se devem ser ditas ou caladas. Muitas vezes os discursos ou as respostas já estão prontinhos e na “ponta da língua”, sem serem tocados pelas asas da razão, sem que se questione se são oportunos e adequados à situação e ao momento. Também a empolgação por estar frente a um público que o ouve atentamente, criando certa relação de poder, pode gerar descuidos altamente prejudiciais.

Muitas das perguntas que são feitas a espíritas abrangem situações com mais de uma vertente. Daí, também, a necessidade de sempre refletir antes de responder e, se não souber com segurança, deve-se ter a humildade de dizê-lo.

Inúmeros são os casos, às vezes muito delicados, de pessoas que ouviram de espíritas que gozam de credibilidade respostas peremptórias às suas perguntas, e essas respostas, posteriormente, foram desmentidas pelos acontecimentos. Além de causar prejuízos a essas pessoas, isso gera descrédito para o próprio Espiritismo.

Por isso é fundamental que aqueles que falam em nome desta doutrina sejam cautelosos no falar, que reflitam antes de dizer algo que possa vir em prejuízo de quem está necessitando de apoio, conhecimento ou ajuda.

Espiritismo não deve ser decorado, mas refletido.

 

 

 

Valores negativos x valores positivos

 

Se estamos transitando para um novo tempo, devemos deixar o sol desse dia nascente começar a iluminar o nosso interior.

 

Muitos vêem o autoconhecimento como a busca aos valores negativos, visando combatê-los. Mas, refletindo mais profundamente, vamos perceber que o mais importante não é a identificação do que há de errado em nós, mas sim o garimpo das nossas qualidades. Se olharmos apenas para o nosso lado escuro, vamos ficar sempre tateando nas sombras. Mas, valorizando nosso lado positivo, estaremos nos auto-incentivando para desenvolvê-lo cada vez mais.

Numa palestra apresentada pela TV Senado, o Professor Aloysio Ivo Urnaw, falando sobre o medo, disse que essa emoção, na sua forma negativa, está no desconhecimento de nós mesmos, da nossa luz interior, e fez uma sugestão para que os presentes começassem a fazer uma relação, por escrito, das suas qualidades, mergulhando profundamente em si mesmos nesse garimpo, afirmando que ficariam extremamente surpreendidos ao descobrirem no mínimo cinqüenta qualidades que nunca haviam pensado em encontrar.

Vamos refletir?

Desde que começamos a viver como seres ativos, passamos a receber um número incalculável de “nãos”. Não mexa nisso, não entre aí, não bata no irmãozinho, não ponha o dedo na tomada, etc.

O “não” é uma força repressora que vai, ao longo dos anos, inibindo a nossa expansividade, ou seja, nos comprime. Esse fato, aliado às críticas que vamos recebendo ao longo da vida, quando os elogios não são suficientes para contrabalançá-las, acaba nos levando a nos desvalorizar e nos desamar. É uma espécie de condicionamento da negatividade. Tudo isso, quando acrescido de antecedentes reencarnatórios, pode gerar condições profundamente negativas para nós e em nós. A nossa força de vida, sempre em ebulição, pode desviar-se ou irromper em outros rumos, passíveis de gerar “n” dificuldades em nosso viver. Também vale lembrar que no mundo cristão estamos milenarmente condicionados a ver apenas nossos “pecados” ou erros, ou seja o nosso lado sombrio, que se avoluma sobre nós em complexos de culpa, criando ambiente favorável à instalação do medo e também de obsessões.

É certo que jamais poderemos acabar com o medo, porque ele faz parte da vida, mas podemos dominá-lo, não permitindo que ele nos domine.

Como conseguir isto? O Professor Urnaw dá uma receita: “Comece o seu garimpo interior, procurando identificar as suas qualidades. Escreva-as numa relação e leia-a vez por outra, a fim de que fique bem consciente da sua luz interior”. Isto ajuda a nos tornarmos mais fortes, mais tranqüilos, abrindo canais para as forças mais altas e luminosas do universo.

Ao contrário do que possa parecer, esse procedimento não é gerador de orgulho, porque, ao passo que vamos identificando nossas qualidades, vamos também percebendo que elas ocorrem não só em nós, mas em todas as pessoas. E podemos começar esse garimpo pelos valores mais óbvios: nossa inteligência, memória e as mais diversas aptidões; nossa honestidade, em maiores ou menores proporções; nossa afetividade, nossa beleza – não exatamente a beleza física, que é efêmera, mas a graça que cada um possui e que muitas vezes vai aumentando com o passar dos anos, ao passo que a beleza física vai declinando.

A propósito dessa beleza-graça, se começarmos a nos olhar no espelho e dizer com convicção “eu sou uma pessoa boa, graciosa, justa, fraterna”; “sou inteligente e capaz”; “sou uma pessoa bonita” etc., essas afirmativas facilitarão a introjeção desses valores, ou melhor, a nossa conscientização de que os possuímos e eles passam a sobrepujar os seus opostos.

Essa viagem interior no intuito de reconhecermos nossas qualidades é uma questão de honestidade, não de vaidade. Perceber quantos focos de luminosidade interior possuímos ajuda a reconstruirmos nossa imagem e isto nos leva a nos admirar e também a admirar os outros.

Quando passamos a nos conhecer, a perceber nossas potencialidades e capacidades, também deixamos de nos incomodar com as críticas e elas servirão apenas para mais profundamente podermos buscar o autoconhecimento. Mas se ficarmos olhando só para o nosso lado escuro, estaremos fadados a andar tateando em nossa própria sombra.

Também devemos nos acostumar a sempre agradecer a Deus pelas nossas qualidades e trabalhar no sentido de aperfeiçoá-las e ampliá-las.

Por que é tão importante essa reconstrução, esse olhar mais lúcido e sem condicionamentos para dentro de nós mesmos? Por que é importante nos valorizarmos?

Se somos herdeiros do Criador, se na essência mais íntima do nosso Espírito somos centelhas de Sua luz, precisamos aprender a nos reconhecer com esses valores, porque esse reconhecimento ajuda a trabalharmos para que eles, os valores superiores, se desenvolvam, sobrepujando os negativos que ainda estão atuantes e em manifestação.

Andando na sombra de nós mesmos, estamos sujeitos a inúmeros perigos, mas se buscarmos a nossa luminosidade interior, valorizando-a como reflexo da luz do Criador, podemos caminhar na luz, ou seja, com mais segurança.

Se você observar a sua sombra no lusco-fusco do amanhecer, verá que ela é imensa, mas, conforme o dia vai clareando e o sol subindo ao zênite, a sua sombra também vai ficando cada vez menor, a seus pés, e você poderá pisá-la, estar-lhe acima. Assim, se o sol da nossa auto-estima estiver no zênite, nossa sombra será mínima, e com relação aos medos, também eles vão diminuindo à medida que vamos descobrindo a nossa luz. Essa reconstrução interior dá segurança íntima, ajudando a dominar o medo, ter coragem de ousar e de não temer o aparente fracasso. E digo aparente, porque mesmo o fracasso é sempre uma experiência de vida, e podemos lembrar aquele famoso poema de Carlos Drummond de Andrade, quando diz de maneira repetitiva e obsessiva que havia uma pedra no caminho, com verdadeira fixação nessa idéia. Mas quando estamos com o nosso sol interior no zênite, podemos dizer: se há uma pedra no meu caminho, vou arrebentá-la, ou passar por cima dela; se não consegui-lo, vou afastá-la e, se isto não for possível, dou uma volta em torno da pedra e sigo em frente.

O fracasso nos serve também como fonte de análise, na busca às causas que o motivaram e que servirão de valiosas lições, quando não nos deixamos deprimir. O nosso lado bom nos dá segurança.

Quanto ao medo, ele também tem aspectos positivos, porque nos leva a refletir, a ter cuidado, a não sermos temerários, por isso é importante que ele exista em nós, nas devidas proporções. Só o medo negativo é ruim em qualquer situação porque traz perturbação mental e nos tolhe os passos. Ele é cruel, é o maior construtor de fracassos.

Assim, podemos andar nas sombras de nós mesmos ou buscar a luz interior, lembrando as orientações de Jesus naquela parábola das virgens que souberam adquirir a sua luz. A auto-reconstrução da nossa imagem interior é tonificante, dá extraordinária energia, segurança e favorece a coragem. Já diziam os antigos romanos que aos corajosos a sorte ajuda.

Não devemos nos ocupar em reconstruir apenas a nossa imagem, mas também as dos nossos desafetos, daqueles com os quais não nos damos bem e dos que consideramos inferiores a nós. Assim, fazendo o mesmo com eles, dedicando-nos a garimpar os seus valores, certamente iremos modificar algo na imagem que deles fazemos. E para dinamizar mais essa garimpagem, podemos desafiar a nós mesmos sobre quantos valores seremos capazes de encontrar em cada um deles. Esse é um exercício sobremodo importante para o nosso crescimento interior, ajudando-nos a desenvolver humildade e alteridade.

 

Resignação

 

A palavra resignação passa uma idéia negativa, de alguém que se arrasta pesada e resignadamente pelos caminhos da vida, carregando sua cruz. Já a palavra aceitação é mais leve. Aceitar as agruras da vida não significa inércia nem sofrimento, mas luta para quem se afeiçoa a ela, possibilitando desenvolver esperança e contentamento, valores fundamentais para quem deseja vencer.

 

 

 

Perdição e salvação

 

 

“Levanta-te e anda”, “Ama teu próximo”, “Sê perfeito”, “Não julgues”, “Perdoa”, são orientações de um MESTRE.

Mas seguir essas orientações é tão difícil que os cristãos, digamos que numa idade espiritual ainda infantil, buscaram a variante da teologia, criando infinitas e inúteis discussões.

Transformaram a figura do Mestre em objeto de adoração e idolatria.

Deturparam a missão de Jesus e a relação dos seus seguidores para com Ele.

Criaram uma relação de piedade pelos Seus sofrimentos, exaltados ao máximo, e de interesse pelo Seu sangue a lavar pecados e salvá-los, e por todo tipo de ajuda que Ele poderia dar-lhes. Transformaram-no no mártir da cruz e no salvador.

 

Esse tipo de relação gerou no Cristianismo:

a) pieguismo doentio;

b) dependência doentia;

c) adoração doentia.

Acontece que alguma parcela do movimento espírita brasileiro herdou algo desses enfoques.

Entretanto, qual a relação que Jesus sempre estimulou?

A do MESTRE para com seus discípulos: aquele que ensina, orienta, aconselha, esclarece e até ampara nos momentos difíceis, mas sem dependências, idolatria, pieguismo ou adoração doentia.

 

VAMOS REFLETIR?

 

Duas idéias incoerentes foram criadas pela Igreja Católica e perduram no seio do Cristianismo. São elas a perdição e a salvação, ou seja, a humanidade estaria perdida por causa do pecado de Adão e Eva, por isso Deus precisara enviar seu filho inocente e puro para ser imolado, a fim de que seu sangue purificasse o ser humano e seu sacrifício o redimisse.

Mas essas idéias não fazem sentido porque, sendo Deus onipotente, o máximo poder do universo, autor das leis universais, poderia simplesmente perdoar os pecados do ser humano, sem necessidade de sacrificar alguém, muito menos um inocente. Aliás, essa perspectiva de sacrificar alguém em nosso lugar é muito cômoda, alimentada pelo egoísmo e hipocrisia humanos. Além disso, seria necessário fazer-se uma idéia muito estúpida sobre Deus para entender que Ele poderia criar leis tão injustas, mediante as quais os erros de alguém seriam resgatados com o sacrifício de outrem.

Essa ótica sobre a necessidade de sacrifícios para aplacar a ira dos deuses vem do paganismo, foi assimilada por Abraão e sua descendência e adotada por Moisés, que realizou um magnífico trabalho de codificação ao longo dos livros do Pentateuco, detalhando e enumerando cada pecado possível de ser cometido pelos descendentes de Israel, com a punição correspondente. Essas punições, em sua maioria, eram de sacrifícios de animais, acreditando-se que o sangue derramado aplacaria a ira de Deus, que, assim apaziguado, paparicado, iria continuar a abençoar o pecador que se redimira.

Outra idéia incongruente que foi colocada na Bíblia, no Antigo Testamento, é a de que Deus se agradava com o cheiro do sangue dos animais imolados. Imagine que tipo de ser seria esse, a gostar de sangue. O escritor Jayme Andrade, no livro O Espiritismo e as Igrejas Reformadas, diz que Jeová, certamente, seria um espírito protetor do povo israelita, uma espécie de deidade tribal, mais ou menos identificada com a índole da raça e que assumia junto ao povo a condição de Deus. Assim se podem explicar as inúmeras absurdidades encontradas na Bíblia com relação a Jeová, ou Senhor, como também o chamavam. Abordamos com mais detalhes esse assunto no livrinho Temor a Deus.

As palavras redenção e salvação, utilizadas nos meios religiosos cristãos, vieram desse contexto, tanto que Jesus foi tido como o “Cordeiro de Deus, imolado para tirar os pecados do mundo”, ou seja, seu sangue teria lavado os pecados de Adão e Eva, os quais maculavam as almas de todos os seus descendentes, redimindo-as, e seu sacrifício salvaria do inferno aqueles que cumprissem fielmente os preceitos das suas religiões.

Esse conceito é tão infantil quanto a mentalidade humana daquela época. As idéias sobre Deus eram absolutamente incompatíveis com o bom senso. O Espiritismo, felizmente, veio colocar as coisas nos seus devidos lugares, mostrando ao homem um enfoque mais real sobre o Criador, as suas leis, a vida. Mas, em razão dos condicionamentos milenares sofridos pelo psiquismo do mundo cristão, até mesmo nos meios espíritas ainda perduram certas estruturas dessa mentalidade.

Num entendimento mais saudável, poderíamos dizer que ninguém está precisando salvar-se porque ninguém está perdido. Estamos todos, sim, precisando evoluir.

Mas, ante esse conceito sobre a inexistência da salvação, como ficaria aquela máxima da codificação “Fora da caridade não há salvação”?

É preciso entender que o sentido dado a essa palavra indubitavelmente não é o mesmo do significado que tem na Bíblia. É preciso observar-se a época e a circunstância em que essa máxima foi dita. Foi uma contraposição ao dogma “Fora da Igreja não há salvação”.

E Kardec, nesse mesmo capítulo, em seus comentários aos textos do Evangelho, em vez da palavra “salvação”, usa “felicidade futura”.Todo o discurso da codificação nos fala em evolução ao longo das reencarnações e isto é incompatível com a idéia da salvação bíblica.

O Espírito Verdade trouxe um universo de informações que foram codificadas e comentadas por Kardec. O conteúdo desse “pacote” de novos conhecimentos é de molde a produzir mudanças nos enfoques e na vivência das pessoas. São mudanças que ocorrem pela conscientização do que é bom e do que não é bom para o presente e o futuro da própria pessoa. É a via certa e mais segura de transformação, de crescimento interior dos seres e da própria coletividade.

Mas, enquanto virmos Jesus como o Salvador, estaremos sempre nos atrelando a Ele, procurando nEle muletas ou mesmo uma “carona” para Nosso Lar, quando não, a mão de uma babá a nos conduzir vida afora. É a anti-evolução.

Podemos também entender que essa questão reflete o nosso momento evolutivo. Quando vemos em Jesus o Salvador, esse tipo de relação se assemelha à da criancinha com aqueles que cuidam dela, quando espera deles e até mesmo exige alimento, cuidados necessários para o seu bem-estar, amor, atenção e as brincadeiras de que gosta.

Pense agora como é a relação do jovem para com o pai, a mãe ou alguém a quem ama e admira profundamente. É bem diferente. É a relação de alguém que procura espelhar-se nas qualidades que admira no outro. Da mesma forma, numa relação menos infantil com Jesus, forçosamente veremos n’Ele o Mestre. E quando nos dedicamos a meditar sobre a Sua grandeza espiritual, serenidade, força, amor e sabedoria, o vínculo que criamos com Ele irá nutrir-nos com esses valores, e poderemos assimilá-los na medida em que a nossa idade sideral permitir.

Quanto à imagem que d’Ele fizeram como o mártir da cruz, quando relembrada vez por outra, de forma correta, pode ajudar na construção do nosso interior, no que diz respeito ao exemplo que nos legou de força moral, estoicismo e aceitação da vontade de Deus; do amor que demonstrou em meio aos mais horríveis sofrimentos, ao perdoar seus algozes; da fidelidade aos princípios esposados e da serenidade nos momentos mais difíceis. Mas convém atentar para o fato de que até mesmo nos piores momentos no drama da crucificação, Jesus foi acima de tudo o Mestre, porque até mesmo ali, de forma muito especial, foi o vívido ensinamento. Não tremeu ante aquele desfecho, não abjurou sua fé nem seus princípios, não se acovardou negando sua missão para livrar-se da cruz. Além de Mestre, foi exemplo vivo de tudo que ensinou.

 

Caridade

 

A aplicação da palavra caridade também precisa ser repensada porque se desgastou pelo mau uso, revestida de características humilhantes para quem é dirigida e de envaidecimento de quem a pratica, situações incompatíveis com as idéias espíritas.

Não seria bem melhor usar os termos fraternidade ou atos de amor?

É verdade que “fazer caridade” tem peso no terreno do merecimento, mas não da evolução, porque esta representa um processo contínuo de crescimento interior, que nada tem a ver com aquela prática.

A evolução, numa de suas vertentes, ocorre mediante aquisição ou desenvolvimento de um sentimento, o amor. Então haverá atos de amor e não de caridade. Praticar esta última pode preparar terreno para o amor, pela percepção do sofrimento alheio, que mobiliza e desenvolve sentimentos fraternos. Mas é importante destacar a diferença entre atos de amor e caridade, na forma como ela é compreendida.

As palavras geram idéias, com reflexos que influenciam posturas e atitudes.

Quando dizemos: “vamos usar de caridade com fulano que está em erro, e orar por ele”, já o estamos diminuindo, ou seja, estamos vendo-o como alguém abaixo de nós na escala de valores, alguém por quem “caridosamente” vamos interceder. Observe que até mesmo esse ato de orar por ele gera uma idéia por onde flui um pouco de desdém. É como se o olhássemos do alto da nossa pretensa superioridade, dispondo-nos a ajudá-lo “caridosamente”, com aquele ar displicente de quem atira, do alto da sua mesa farta, algumas migalhas da sua preciosa atenção, através de uma prece.

Mas se dissermos: “vamos orar por fulano que está em erro, pois ele precisa de ajuda”, estaremos nos aproximando dele para estender-lhe mão amiga, nas vibrações do amor. É uma situação diferente, que faz toda a diferença.

Vê como as palavras condicionam atitudes, posturas e comportamentos?

Outra idéia distorcida que pode ser observada nos meios espíritas refere-se ao calar caridosamente, quando não se concorda com algo ou quando alguém anda se conduzindo mal. Esse tipo de caridade mal compreendida tem causado o afastamento de muitos companheiros, que preferem “passar a mão no boné” e ir embora, em vez de buscarem um diálogo franco e sincero, dentro das linhas do amor. Outros se calam, mas desenvolvem cochichos, comentários dúbios, ou expressões que lançam dúvidas sobre o companheiro em erro, podendo causar muito mais dano do que uma chamada às falas a quem se deixou escorregar, podendo gerar repercussões muito mais negativas do que a mera realidade.

Talvez pelo fato de o Espiritismo nos convidar para um tipo de conduta muitíssimo difícil, cuidamos muitas vezes de exagerar na dose do que entendemos como caridade e, assim, preferimos fazer vista grossa em relação a condutas erradas que podemos observar em torno de nós, entendendo que estamos sendo caridosos.

Na verdade, uma das ações mais difíceis, que pede muita coragem e determinação, é a de conversar com um companheiro para mostrar-lhe que ele está agindo em desacordo com os postulados espíritas. Isto é até mesmo mais difícil do que um pedido de desculpas, desde que o móvel seja exclusivamente o de ajudar o outro em suas dificuldades evolutivas e não contenha qualquer vestígio de vaidade, daquela vaidade que geralmente nos move quando intentamos apontar o erro alheio.

É dificílimo chegar a um companheiro, que talvez seja alguém a quem muito estimamos, para apontar-lhe o erro. Por mais amor e tato que possamos colocar nessa ação, havemos de vê-lo humilhado, talvez revoltado conosco, magoado, ofendido... E certamente tememos ver diminuído o seu apreço, seu afeto por nós. Podemos até mesmo nos questionar se não estamos lhe causando alguma frustração, algum desencanto ou desilusão, podendo isto levá-lo a se desestimular e talvez até mesmo a afastar-se da Casa e quem sabe, do próprio Espiritismo.

Certamente, pensamentos tais podem passar pela nossa cabeça e sentimentos amargos se desenvolverem como conseqüência, levando-nos a desistir do intento ou optar por deixar que o próprio tempo tome conta do caso e leve o companheiro a perceber seus erros e a buscar corrigi-los. Mas se agirmos assim, fugindo ao que a consciência nos pede, estaremos prejudicando nosso irmão, pela nossa omissão.

Quando um companheiro de atividades espíritas passa a desenvolver vaidade, orgulho ou outro valor negativo, ou começa de alguma forma a desviar-se do bom caminho, mas olhando em torno percebe nos circunstantes apenas sorrisos, acaba acreditando que está tudo bem, ou que a sua má conduta não é tão má assim e, com isso, certamente irá caindo mais e mais fundo. Isto acontece porque, por uma idéia distorcida sobre a caridade, ninguém lhe estendeu mão salvadora, ou seja, ninguém o chamou para alertá-lo ou mesmo censurá-lo por seus atos ou atitudes. Será que aqueles companheiros que comodamente fizeram vista grossa também não são parcialmente responsáveis pelas suas quedas ou pelos seus erros?

O companheiro pode até mesmo nem ter percebido seus deslizes por estar envolvido em situações daquele tipo que nos cega, não nos permitindo ver com clareza, a não ser o que possamos entender como justificativas. Devemos nos lembrar da extraordinária força das paixões e do poder que os espíritos atrasados ou perversos exercem sobre a nossa invigilância, e entender que o seareiro em erro pode estar achando que está certo.  E essa convicção se fortalece ao observar apenas sorrisos em torno de si, em tácita aprovação.

Pense na formidável decepção que terá no dia em que lhe “cair a ficha”, mesmo que isto ocorra apenas depois do seu retorno ao mundo espiritual, ao constatar a falta de amor daqueles que o cercavam e que poderiam tê-lo ajudado a retomar o rumo certo.

Cabe lembrar o que disse o espírito S. Luiz em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo X, itens 19 e 21, que vamos transcrever, para maior facilidade de entendimento.

“Item 19. Como ninguém é perfeito, ninguém tem o direito de repreender o próximo? “Seguramente não, uma vez que cada um deve trabalhar pelo progresso de todos, sobretudo daqueles cuja tutela vos é confiada. Mas é uma razão de fazê-lo com moderação, para um fim útil, e não pelo prazer de denegrir – como se faz na maior parte do tempo. Nesse último caso a censura é uma maldade; no primeiro é um dever, que a caridade manda cumprir com toda cautela possível. Por fim, a censura que se lança a um outro deve ao mesmo tempo ser dirigida a si mesmo, perguntando-se se não a merece.

[...]

Item 21. Há casos nos quais é útil revelar o mal no outro?

Essa questão é muito delicada, e aqui é preciso fazer um chamado à caridade bem compreendida. Se as imperfeições de uma pessoa só prejudicam ela mesma, não há utilidade alguma em fazê-las conhecidas. Mas se elas podem causar prejuízo a outros, é preferível o interesse da maioria ao interesse de um só. Segundo as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode ser um dever; pois antes caia um homem que vários sejam feitos suas vítimas ou logrados por ele. Nesse caso, é preciso pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes.”

Estas explicações de S. Luiz nos levam a uma pergunta: Será que nós, espíritas, temos agido segundo essas orientações?

Certamente, é muito mais difícil, nesse tipo de situações, agir com verdadeiro amor, fazendo o que for necessário para ajudar o companheiro a reencontrar o caminho certo, mesmo que isto possa provocar a diminuição do seu afeto por nós ou desagradar a comunidade em que atuamos.

Também são inúmeros os casos em que certas ações ou determinações do presidente da instituição, da diretoria ou de algum diretor causam distúrbios e até prejuízos ao bom relacionamento ou ao andamento das atividades, levando os tarefeiros a reclamações e comentários entre si, sem coragem de adotar outras medidas, receando gerar desarmonia na casa. Nestes casos é preciso avaliar em que o prejuízo seria maior, se numa conversa franca com o autor ou autores da dificuldade ou nos murmúrios que apenas envenenam o ambiente, talvez com prejuízos ainda mais graves à instituição.

O ser humano tem necessidade de sentir-se incluído em seus grupos sociais, por isso raros companheiros têm coragem de romper com esse “status quo” e indispor-se com a direção da Casa que freqüentam ou tornar-se antipatizados ou tachados de descaridosos, por adotarem atitudes de censura ou questionarem aquilo que entendem estar errado.

Essa cultura do silêncio, que vigora em nossos meios, precisa ser repensada.

 

 

 

Idolatria

 

A humanidade compõe-se de seres com múltiplos aspectos, características, “manhas” conscientes e inconscientes, além de necessidades as mais variadas.

Em razão disso, surgem desvios como a idolatria. Através dela grande parte dos cristãos deixa de perceber a grandeza espiritual de Jesus, transformando sua luminosa figura num ídolo barato, cuja função é servir de bengala, ou melhor, de burro de carga aos interesseiros e àqueles que não querem caminhar com os próprios pés.

Por que idolatramos alguém? Porque esse alguém nos serve de algo. Se fosse apenas pelo prazer que nos dá observar sua grandeza espiritual e receber orientações para o nosso crescimento interior, certamente nossa relação sentimental e emocional com ele seria mais equilibrada, de admiração profunda, afeto e amor. Já a idolatria é diferente, pois gruda o idólatra a seu ídolo, e o primeiro fica sugando do segundo tudo o que consegue, gerando dependência.

No caso de Jesus, as religiões cristãs têm nele uma bengala, a mão forte que conduzirá seus fiéis, não apenas ao Céu, quando chegar a hora, mas principalmente à solução dos mais diversos problemas e à consecução dos mais diferentes desejos.

Em certo programa na televisão, um empresário evangélico afirmava que Jesus ia sempre à sua frente em todos os momentos e era Ele quem lhe facilitava os negócios e ajeitava as coisas quando estavam mal. Era Ele quem lhe dava riqueza material, prestígio, “status” e tudo o mais.

No meios espíritas também podemos encontrar algo de idolatria, não só com relação a Jesus mas também a espíritos como Bezerra de Menezes, André Luiz, Chico Xavier e muitos outros.

Sempre é importante ter-se em vista que a idolatria prende o idólatra à imagem que ele próprio criou visando sua defesa, prazer ou benefício, tornando-o impermeável à realidade, ao verdadeiro sentido da existência ou da missão do seu ídolo.

Por isso, nos meios espíritas, muitos dos que enxergam essa questão com maior clareza se afligem no sentido de mudar a mentalidade estagnante da idolatria e, com isso, inúmeras vezes partem para extremos, minimizando a figura do ídolo e até mesmo refutando-a. Daí nasce o confronto, em que haverá sempre mais perdedores que ganhadores.

É bastante comum nos meios espíritas intitular-se Jesus de “Meigo Nazareno”, demonstrando uma forma equivocada de se entender a grandeza de alguém. Pelo dicionário Aurélio, “meigo” significa amável, afável, bondoso, carinhoso, terno, afetuoso, doce, suave e brando.

Por que Jesus teria de ser meigo? Será que o grandioso amor do Mestre, a sua elevação espiritual, torna-o necessariamente meigo, ou seja, doce, suave e brando? De alguém assim não se esperam atitudes corajosas, viris nem educativas. Talvez esse enfoque também esteja demonstrando um equivocado resquício do Cristianismo, apresentando-O como alguém ludibriável em razão da sua doçura, suavidade e brandura, alguém sempre disposto a relevar, fazer vista grossa, em vez de conduzir e educar. Esse tipo de visão é próprio de quem está sempre querendo levar vantagens, sem assumir suas responsabilidades. No caso dessa fatia dos espíritas a que nos referimos, provavelmente essa forma de perceber Jesus representa herança reencarnatória, ou apenas o não-aprofundamento de reflexões sobre o assunto. Em muitos casos, certamente, essa imagem do “Meigo Nazareno” vem ao encontro dos seus sentimentos, do amor que sentem por Ele, e por não conseguirem vê-Lo como o Mestre, o educador, o condutor. E quando se fala naqueles episódios em que agiu com vigor, entendem que as narrativas foram meramente simbólicas.

De Kardec ninguém diz que é meigo, por ser o seu tipo essencialmente o de um educador. Assim, sendo Jesus o maior dos educadores, por que teria de ser meigo? Não entendemos que esse enfoque possa ser necessariamente prejudicial. Fazemos essas observações apenas para que possamos perceber o quanto ainda temos a refletir.

É fácil então perceber a necessidade de debates amplos e equilibrados em torno dessas e de outras questões, para que todos possam reorganizar suas idéias, já que todos nós, por mais firmes que sejam nossos conceitos, podemos, de repente, observar que algo em nossas posturas pede mudanças. Mas sempre é importante desenvolver esses debates com muita prudência, porque em embates dessa natureza, quando envolvem algo que se possa entender por “pureza doutrinária”, há tendências à radicalização. Os debates devem ser conduzidos com muito cuidado e permanecer sempre tão-somente no terreno das idéias.

 

 

 

 

 

Outro enfoque pedindo mudanças

 

Estamos habituados a entender o Espiritismo como o caminho para a evolução moral e espiritual do ser, e o sofrimento como recurso para sua redenção.

Devido à evolução do conhecimento e das muitas áreas do saber voltadas para beneficiar o ser humano, como também às mudanças solicitadas por esta época de transição, podemos começar a ver no Espiritismo não apenas um caminho religioso, visando à evolução espiritual do ser, mas todo um contexto que pode favorecê-lo com mais equilíbrio, saúde, harmonia, melhor convívio, melhor qualidade de vida e felicidade, enfim, proporcionar-lhe uma vida realmente mais plena.

 Isso pode ser percebido, quando ampliamos os antigos enfoques, acrescentando à idéia de Espiritismo como fator moral-espiritual, outras como “instrumento na busca ao homem integral, ao ser pleno, saudável, de bem com a vida”.

Também o conceito de sofrimento como caminho para a redenção da criatura, podemos passar a perceber como instrumento para o seu despertar, para alavancar seu processo de crescimento interior.

São mudanças de visão que impulsionam nossa evolução.

E há ainda a questão dos companheiros que entendem que o Espiritismo é suficiente para solucionar todos os problemas vivenciais. Ocorre que há casos em que o apoio profissional é imprescindível para minimizar ou eliminar traumas, fobias, complexos e condicionamentos, que poderão refletir-se na saúde física e no equilíbrio psíquico.

É fácil observar como no mundo moderno as dificuldades e os problemas ligados à psique vêm se multiplicando. Nos meios espíritas, em alguns centros, situações dessa natureza são tratadas como sendo tão-somente de origem espiritual, e quando um companheiro está sofrendo de depressão, ansiedade ou síndrome do pânico, muitas vezes é rotulado como obsediado. Isto reflete absoluta falta de fraternidade e de conhecimento. É preciso entender que inúmeros desses casos resultam de problemas orgânicos, bioquímicos e energéticos, embora possam ter raízes em ocorrências de vidas passadas, como também podem apresentar algum componente espiritual. Nessas situações, por receio de serem rotulados como obsediados, inúmeros seareiros preferem afastar-se dos trabalhos espíritas, a dizer que estão sofrendo de problemas dessa natureza.

Não será oportuno passarmos a valorizar também os aspectos médico e psicológico dos nossos companheiros de atividades espíritas, orientando, quando necessário, para a busca de ajuda profissional? Isto, é claro, sem criar-lhes qualquer sombra de estigma ou rótulo.

 

Como podemos facilmente perceber, é tempo de começarmos a desenvolver mais consciência crítica, mudar os enfoques que devam ser mudados e, nesse contexto, trabalhar intensamente pelo próprio crescimento interior.

 

 

 

 

Buscar o crescimento interior

 

Dizíamos no início deste capítulo que, para nos libertarmos dos condicionamentos que ainda trazemos como herança reencarnatória, seria necessário começarmos a desenvolver mais consciência crítica e mudar alguns enfoques, como acima já ficou demonstrado, além de buscar o crescimento interior.

Algumas instituições espíritas oferecem o “prato feito” para aqueles que as procuram, necessitados de ajuda, uma espécie de “pacote” de obrigações, tais como, freqüentar as palestras, colocar o nome no caderno da desobsessão, receber o passe, beber água fluidificada... e pronto, tudo resolvido. Mas a finalidade do Espiritismo não é essa dos “pacotes” de obrigações. É, acima de tudo, despertar a pessoa para novos paradigmas, para o “Levanta-te e anda”, para a importância do esforço na busca de crescimento interior, do iluminar-se com as luzes do conhecimento superior e vivenciá-las no cotidiano.

Se os espíritos informam que já estamos nos primeiros passos do início da transição de “mundo de provas e expiações” para um novo formato, o de “regeneração”, é fundamental começarmos a questionar sobre o que significa exata e profundamente essa regeneração. Será apenas no sentido moral-espiritual, ou seja, a tão propalada reforma moral, aquela troca de valores negativos por positivos?

Pelo desenvolvimento de idéias novas, novos paradigmas, nova mentalidade nos mais diversos segmentos humanos, que vem ocorrendo nos últimos anos, sem falar no que indicam o bom senso e a lógica dentro dos conceitos espíritas, é importantíssimo começarmos a perceber a infinita abrangência dessa questão.

Se essa regeneração ocorre pela evolução do ser humano, que passa a transitar em mais elevados patamares morais-espirituais, isto forçosamente deverá implicar em evolução também em todos os demais sentidos, principalmente no de seus potenciais interiores. E aí se percebe a necessidade de mudança ou de ampliação do enfoque reforma interior para crescimento interior, que é bem mais abrangente. A reforma é algo que tem começo e fim. Já o crescimento é contínuo. Poderíamos talvez dizer que o crescimento seria a continuação da reforma, servindo-lhe esta de alicerce.

Também os ensinamentos de Jesus, com todas essas mudanças nos enfoques, tomam outra cor. Deixam de representar os eternos chavões com cheiro de religião, de obrigação religiosa ou caminho para a colônia espiritual Nosso Lar, surgindo em toda a sua plenitude como verdades científicas que, obedecidas, promovem o bem-estar da criatura, assim como seu crescimento como ser cósmico e eterno.

Vejamos um exemplo.

Mediante estudos assentados na ciência, podemos entender que o nosso sistema energético é formado pela bioenergia e pela “psicoenergia” ou energia psíquica.

Sendo a bioenergia bastante conhecida, vamos falar sobre a “psicoenergia”, que é produzida pelo pensamento e pelas emoções. Ela é tão sutil que ainda não se consegue detectá-la através de aparelhos, mas sua existência tem sido cientificamente comprovada. São bastante conhecidas aquelas experiências feitas em universidades norte-americanas com plantas que receberam vibrações de amor por grupos de pessoas, e as outras que receberam vibrações de ódio; as primeiras cresceram mais belas e viçosas, enquanto as segundas murcharam e muitas morreram. Igualmente, foram bastante divulgadas aquelas outras realizadas em hospitais americanos, quando parte dos internos recebeu preces de grupos de oração, apresentando significativas melhoras, em relação ao grupo controle.

Temos, assim, comprovações científicas de que o pensamento e a emoção, direcionados (vibrações), alcançam o alvo, gerando efeitos positivos ou negativos, de acordo com o seu teor. Da mesma forma, como tem sido amplamente noticiado, estudos científicos vêm comprovando que o perdão fortalece o sistema imunológico, beneficiando a saúde. Já o Espiritismo nos ensina que, pela lei das afinidades, somos receptivos ao mesmo tipo de energia que geramos. Assim, vivenciando o perdão, a pacificação e o amor pleno, estamos nos beneficiando fisicamente. É como chegamos aos ensinamentos de Jesus através da ciência, ou podemos entender a importância científica dos Seus ensinamentos e começar a perceber, na luz que nos chega do final deste túnel, um novo conceito, o do Cristo cientista; não o de um Jesus que veio para criar uma religião e ser idolatrado, mas o do grande conhecedor das leis cósmicas, que nos ensinou como devemos viver e agir para o nosso próprio bem-estar. Assim, perdoar, amar, ser fraterno e pacífico, são mais que preceitos religiosos; agora nos são mostrados, além das suas implicações cármicas, como fatores de saúde física e psíquica. A “psicoenergia” gerada por esse tipo de emoções e atitudes é de teor positivo e vibra em elevada freqüência, beneficiando infinitamente a quem a produz. Além disso, tais ações ou atitudes são também fatores de prosperidade material, até o ponto em que a programação reencarnatória permita, porque a pessoa que se habitua a desenvolver vibrações de elevado teor apresenta uma presença agradável, que lhe abre muitas portas.

Entendendo assim os ensinamentos do Mestre pelo seu valor prático em nossa vivência, e não apenas pelo aspecto místico, o olhar que lançamos sobre a sua figura se torna mais autêntico, mais real. É quando podemos percebê-Lo, em sua verdadeira grandeza, como o cientista cósmico que veio nos ensinar a ciência do bem-viver, e não como o salvador ou um fundador de religiões.

 

Crescer interiormente equivale a:

 

a) desenvolver virtudes;

b) assimilar aprendizados diversos;

c) adquirir equilíbrio mental, psíquico e emocional;

d) conquistar bom relacionamento consigo mesmo e com os outros;

e) amadurecer;

f) desenvolver maior comando consciente de si mesmo (orgânico, mental e psíquico);

g) desenvolver contentamento;

i) liberar-se de traumas, fobias, medos, ansiedades, frustrações...

Esse crescimento pode ser natural, ocorrendo no bojo do tempo e das experiências reencarnatórias. Mas também pode ser consciente, ou seja, planejado, organizado e autocomandado.

 

Todos conhecemos as grandes dificuldades em realizar nosso crescimento interior.

Sabemos o quanto isto é necessário e prioritário, mas... como é difícil!

 

VAMOS REFLETIR?

 

Não estará a causa primordial dessa dificuldade no COMO?

Como pode isso ser realizado na prática?

Que fazer, de forma objetiva e produtiva?

Quais passos ou providências devem ser tomados e quais os detalhes do que se pode fazer na vivência do cotidiano?

Temos, girando em nossas cabeças, um universo de conceitos os mais belos, atropelando-nos através das páginas dos livros, das mensagens, das palestras e até mesmo pela Internet, em infindáveis exortações para a reforma interior, numa insistência avassaladora, saturando nosso subconsciente com teorias reformadoras. Mas com a incessante repetição dessas exortações, acabamos decorando-as, assim como o papagaio, mas para transformá-las em vivência, para integrá-las à nossa personalidade, é preciso mais que isso.

A geometria é mais fácil de aprender do que a álgebra. Não será por causa do manuseio das figuras geométricas em contraposição às meras fórmulas algébricas, muito mais difíceis de serem aprendidas? Também isto nos mostra a importância de buscarmos métodos mais eficientes, visando transformar as matérias decoradas da reforma interna em vivência.

Todos SABEMOS com exatidão o que precisamos mudar, reformar, melhorar em nós mesmos... só nos falta saber COMO. Falta-nos um esquema, um roteiro claro de procedimentos práticos para materializar passo a passo as intenções que nutrimos sobre a nossa evolução.

Em outro capítulo voltamos a esse assunto, com algumas sugestões práticas.

 

O que entendemos por fraternidade?

 

Não estará a nossa ótica um tanto quanto distorcida, ou talvez obscurecida, atenuando as cobranças que a consciência possa nos fazer, no que se refere aos “talentos” de natureza material que recebemos, ou adquirimos, ao longo da existência?

A narrativa que segue foi inspirada em fatos reais e dá clara noção do que acontece, não só nos meios espíritas, mas no seio de todas as religiões.

“Terminado o almoço de confraternização, os presentes reuniram-se no espaçoso alpendre da casa de praia de Bernardo.

As conversas giravam em torno de temas consumistas. Julio falava sobre as habilidades do arquiteto que estava redecorando sua luxuosa mansão. Marina reclamava das dificuldades para encontrar os materiais necessários aos acabamentos da residência de luxo, que estava construindo em área nobre da cidade.

Marcos, que permanecia calado, finalmente se manifestou, dizendo:

– Vejo que temos aqui sete católicos, dois espíritas, quatro evangélicos, um judeu e um budista. Pergunto: Todos vocês seguem as orientações das suas religiões?

Ante as respostas afirmativas, prosseguiu:

– Não é verdade. As suas religiões pregam a fraternidade, no entanto não vejo nenhum dos presentes praticando esse preceito.

E antes que alguém pudesse contestar, continuou:

– Eu me explico: Você, Julio, se praticasse o que manda a sua religião, em vez de morar numa luxuosa mansão e redecorá-la a cada ano, residiria numa casa mais modesta, embora com todo conforto, e a diferença nesses gastos aplicaria em alguma obra social de ajuda a pessoas necessitadas. Você, Marina, faria o mesmo. O Bernardo, em vez dos dois carros importados que possui, usaria carros nacionais mais baratos. A economia daí resultante daria para alimentar grande número de crianças famintas. E você, Augusto, que é espírita, se realmente acreditasse na reencarnação e no carma, estaria morando num apartamento simples, ao invés de residir naquela luxuosa cobertura. A economia que faria, seria suficiente para assistir grande número de menores em situação de risco. Todos vocês aplicam no consumismo o que lhes sobra, quando esse supérfluo, pelo que preceituam as suas religiões, deveria ser destinado a ajudar o próximo necessitado.

O silêncio tomou conta da sala, calando argumentos que soariam falsos. Finalmente, Luiz, com certa timidez, falou:

Eu sou espírita, como vocês sabem, e procuro cumprir com os postulados da minha doutrina. Sou dos poucos que não gasta com supérfluos. Todos sabem que vivo com muita simplicidade.

– É verdade, mas isso nada significa – replicou Marcus. – Você seria capaz de nos dizer quanto possui em aplicações financeiras?

Luiz baixou o olhar, envergonhado.

– Você tem razão – disse Bernardo, após breve reflexão. – Nós, realmente, não podemos afirmar que seguimos as diretrizes das nossas religiões.

– Mas o Marcos segue – aparteou Jonas. – Sei que ele destina grande parte do que recebe à creche que fundou numa favela.

Passada a surpresa da revelação, algumas vozes perguntaram, em coro:

– Qual é a sua religião, Marcos?

Sorrindo com certa ironia, Marcos respondeu:

– Sou ateu.”

Será que algum de nós, interrogando honestamente a si mesmo, pode afirmar que é verdadeiramente fraterno?

Será que temos nos perguntado por que colaboramos tão pouco com a instituição espírita que freqüentamos, assim como com as atividades beneficentes que ela desenvolve?

Por que será que as instituições espíritas padecem tanto de falta de recursos, encontrando, muitas vezes, dificuldades até mesmo para pagar a conta de energia elétrica?

Essas respostas devem ser sinceramente buscadas na intimidade de cada um de nós, espíritas.

 

 

 

 

 

 

Alteridade

 

Uma palavra que nestes últimos anos vem ganhando espaço em algumas áreas do pensamento humano é alteridade. É o VALOR, por excelência. É o mais importante mecanismo para o crescimento do homem como ser social, que pode levá-lo a interagir pacífica e beneficamente com tudo que o cerca. É, sem dúvida, o veículo capaz de conduzir a humanidade para a tão esperada nova era.

Na questão 621 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta onde estão escritas as leis de Deus, obtendo a seguinte resposta: “Na consciência”.

Refletindo sobre as implicações da prática da alteridade pelos seres humanos, pode-se afirmar que esse é um valor que está escrito em nossas consciências e que somente agora começa a ser descoberto, quando já se podem vislumbrar alguns tênues clarões a indicarem a aurora de um novo tempo. Seu significado reflete uma nova mentalidade, aquela que deverá vigorar na civilização que, certamente, irá transformar a Terra num mundo de regeneração porque se refere à aceitação das diferenças; também significa a não-indiferença, o amar ou ser responsável pelo outro, o aprender com os diferentes, aceitando e respeitando-os em suas diferenças. A propósito, devemos lembrar que todos os seres humanos são diferentes uns dos outros.

A postura alteritária nos leva a ver todos com bons olhos, lembrando as palavras de Jesus: “Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas.” (Mateus 6:22 e 23)

Conforme o Professor Luiz Signates, “A alteridade é uma "estratégia" fundada na ética da fraternidade e da paz; um indicativo de como agir diante dos conflitos do mundo, inclusive os nossos, a fim de que possamos construir o mundo de regeneração, por representar, em sua profundidade, as leis cósmicas de convívio entre os seres. Com relação ao Espiritismo, pode-se dizer que ela chegou como uma reflexão para mostrar um caminho maduro de relacionamento no movimento espírita”.

A pessoa que vivencia a alteridade passa a ser mais fraterna em todos os sentidos, deixando de criticar, julgar, agredir...

As atitudes de não-crítica, não-agressão e não-julgamento deixam o ser em paz consigo mesmo, com a humanidade, com a vida.

Aí você poderá contestar dizendo que atitudes assim tornam a criatura alienada. Mas há grande diferença entre analisar – com vistas ao próprio aprendizado e também no intuito de ajudar, caso seja viável – e julgar, criticar, enviar uma vibração negativa para o errado, seja ele uma pessoa, uma instituição ou uma nação, já que as instituições e as nações são formadas por pessoas.

Por exemplo, você vê alguém caminhando sobre a grama de uma praça para encurtar caminho e pensa: “Que criatura mais sem educação!”.

Nesse ato de criticar intimamente a atitude daquela pessoa, você está gerando uma vibração negativa, ou seja, “psicoenergia” pesada. Parte dela fica em você, seu gerador, e outra parte alcança a pessoa que pisou a grama para cortar caminho. Por outro lado, se apenas registrar o ato errado, mas respeitando a diferença do outro, não criticá-lo, estará fazendo um bem a si mesmo e deixando de fazer mal a outrem. Mas digamos que, agindo com alteridade, ou seja, sentindo-se também responsável por ele, você entende que deve falar-lhe, alertando-o para o erro que está cometendo, fá-lo-á afetuosamente, de forma a não humilhá-lo, encontrando a melhor maneira de ser, junto àquela pessoa, uma presença benéfica, e, caso seja inviável esse alerta, poderá emitir-lhe uma vibração fraterna junto com a idéia de que não se deve pisar a grama.

Quando nos habituamos a tudo criticar, observando os outros por uma ótica não alteritária, nosso foco fica dirigido a eles em tons negativos, vigiando a forma como se conduzem nos menores detalhes e, é claro, colocamos a nós mesmos como parâmetro nessa medição de erros, nesse julgamento contínuo que exercemos com relação a tudo e a todos. Esse fato nos leva a desenvolver de forma contínua uma vibração pesada e antagônica em relação aos outros, porque sempre iremos encontrar neles o que qualificamos como errado. Além disso, estaremos também desenvolvendo nossa vaidade ao compararmos conosco aqueles que consideramos errados, sem falar que essa “psicoenergia” negativa que geramos, alcançando o alvo, poderá induzi-lo mais ainda à prática das ações que nele condenamos. Atuará sobre ele como fator indutor.

Mas, se desenvolvemos a alteridade, respeitando completamente a maneira de ser dos outros, em seus erros, equívocos e até mesmo em suas maldades, lembrando que todos somos seres em diferentes faixas evolutivas, tornamo-nos mais leves, mais de bem com a vida, mais alegres e também mais saudáveis. E se entendermos e aplicarmos verdadeiramente a alteridade, faremos uma prece pelos que estamos observando em erro e lhes direcionaremos vibrações positivas, indutoras de ações mais corretas.

Outro exemplo que pode ser citado é o que acontece em alguns centros e grupos espíritas que aliam suas práticas ao modelo salvacionista, igrejeiro, cultuando espíritos encarnados e desencarnados, ou onde os cânticos fazem parte do que muitos companheiros jocosamente chamam de "missa espírita”. Mas, se observarmos tal fenômeno por enfoque de mais elevada compreensão, podemos entender que há infinito número de pessoas que se abrem para o conhecimento espírita, mas os seus conteúdos psicológicos reencarnatórios ainda se encontram saturados de catolicismo ou protestantismo. São pessoas que se sentem melhor nesse tipo de ligação com o alto; que conseguem maior sintonia com as forças mais elevadas pelas vias que mais fortemente lhes falam ao coração. Será que essas pessoas, aos poucos, com seu próprio amadurecimento, não acabarão migrando para um grau de entendimento mais coerente com a essência do Espiritismo? A natureza não dá saltos e precisamos respeitar essa lei, tanto para nós quanto para os outros.

Nos meios espíritas, urge adotarmos a alteridade como bandeira; aprendermos a nos posicionar sempre influenciados por seus valores e, em vez de dividirmos em nome da “pureza doutrinária”, por que não somarmos em nome do amor?

Mas há um ponto importante a ser percebido em sua totalidade e de forma não distorcida. Diz respeito à crítica. Como o ser humano, ou grande parte da humanidade, tem a tendência de pular de um extremo para o outro, é bem provável que muitos espíritas, ao abraçarem as idéias da alteridade, caiam nesses extremos e passem a adotar a omissão ou a conivência como sendo posicionamentos alteritários.

Ocorre que exercer a faculdade da crítica faz parte do crescimento do ser humano. Só que há dois tipos de crítica, uma é saudável, a outra, não.

Na crítica saudável observamos, analisamos, buscando entender os porquês, confrontando tudo com o que sabemos e o que entendemos que seja o melhor e o mais correto, sempre na intenção do aprendizado e visando roteirizar para nós próprios os melhores modelos. Podemos também realizar essas análises, visando de alguma forma colaborar para que sejam corrigidos ou minimizados quaisquer erros que vamos encontrando em nossas apreciações. Se acrescermos a esse tipo de crítica os valores da alteridade, havemos sempre de encontrar a melhor maneira de ajudar, de ser presenças benéficas onde estivermos, nem que essa ajuda se dê tão somente através de uma prece ou de uma vibração positiva. Isto equivale a uma atmosfera interna de boa vontade, de olhar tudo e a todos com bons olhos, a desenvolver uma vibração positiva. Isto é benéfico para quem age dessa forma, para os que o circundam e também interfere ou interage de forma positiva com as próprias circunstâncias.

Na crítica saudável, podemos dialogar com tranqüilidade, debater nossos pontos de vista, trocar idéias, estar abertos para aprender com os outros, enfim, participar ativamente das situações, sempre visando o bem geral. Isto nos torna seres benéficos para nós mesmos e para os outros, tanto em nosso lar, quanto no ambiente profissional, na sociedade, em nossa comunidade...

No tipo de crítica não-saudável, desenvolvemos uma ambiência interna pesada, do contra, sempre dispostos a encontrar erros em torno de nós. Posturas assim são geradoras de energismo pesado, desagregador, além de fomentar orgulho e vaidade em quem as vivencia.

Mas, se de todo não conseguimos nos conter, ao percebermos que estávamos tecendo críticas ou mesmo comentários negativos sobre alguém, podemos anular os efeitos danosos que atitudes tais podem gerar tanto no criticado quanto em nós, invertendo as ações, ou seja, passando a garimpar os valores de quem estávamos alvejando com nossos pensamentos ou palavras.

Também é digno de nota o fato de que nos meios espíritas é muito fácil desenvolvermos um estado de crítica negativa com relação às religiões e a outros saberes, tendo em vista o universo de conhecimentos transcendentais que o Espiritismo nos proporciona. Esse tipo de procedimento é também gerador de orgulho. Mas uma postura alteritária é niveladora, ajudando a eliminar o orgulho, por nos propiciar entendimentos mais amplos, pelos quais podemos perceber a importância de todos os demais saberes, filosofias e religiões na evolução da humanidade.

Na verdade, a alteridade, em sua essência, deve manifestar-se assim como uma postura ética ou um alicerce interior, sob cujas diretrizes se constrói o nosso pensamento e emoções, dentro de um entendimento mais pleno sobre o ser humano e a própria vida. Assim, lançando um olhar mais sincero e mais livre sobre os circunstantes, aqueles que por qualquer motivo consideramos inferiores a nós, podemos vê-los de forma algo semelhante a como os espíritos superiores nos vêem. Eles não se incomodam nem se surpreendem com as nossas inferioridades, posto que as nossas mazelas não mais encontram eco em seu interior. Esse tipo de percepção representa um gesto interior de luz, que abre portas para o desenvolvimento do amor pleno. É também um caminho para a verdadeira humildade.

Por estas sucintas considerações, é possível perceber a importância da alteridade nos meios espíritas como uma postura de vanguarda, sinalizando um modelo de convívio para o novo tempo, o mundo de regeneração.

Quanto à propalada unificação do pensamento e das práticas espíritas, que, por sua própria natureza, caracterizam-se por tendências libertárias, entendemos ser algo utópico. Assim, muito melhor do que brigar por questiúnculas doutrinárias ou modelos unificados de práticas é abraçarmo-nos fraternalmente, respeitando nossas diferenças, aceitando nossas divergências e juntos trabalharmos mais intensamente pela difusão dos princípios espíritas e pelo bem do ser humano.

E que viva o amor, em todas as suas manifestações.

 

 

 

 

Quando, um dia, os valores da alteridade e do amor fizerem parte da vivência das pessoas, o mundo inteiro vai perceber que a vida é bela e vale a pena viver; que o amor é alegria e vai entender que o Cristo voltou.

 

 

As diferenças

 

Nos meios espíritas, começou-se a discutir essa questão da alteridade, desde que a Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo – ABRADE, lançou a Política de Comunicação Social Espírita – PCSE, apresentando-a como um dos seus valores.

Mais recentemente, desde que essa mesma instituição deu início ao movimento pela Alteridade na Seara Espírita, os debates vêm esquentando mais e mais, principalmente através das listas ou grupos de discussão espíritas na Internet, abrangendo desde o significado dessa palavra, com mergulhos em sua etimologia, citando-se filósofos, pensadores e enciclopédias, nomes complicados e pensamentos mais complicados ainda, até a sua aplicabilidade.

Durante a elaboração da PCSE pela ABRADE, Luiz Signates (GO), com profundo conhecimento do assunto, como professor de Comunicação, explicou-nos mais ou menos o seguinte:

“A ética da alteridade é a aceitação, a convivência, o respeito e o aprendizado com a presença da diferença do outro. Mas não é a concordância, a não-conflitividade, a acriticidade em relação a essa diferença. A ética da alteridade é a introdução do conflito pacífico, e não a negação do conflito. Conflitar pacificamente é conflitar na linguagem. É jamais adotar a violência. É lançar o conflito para o reino da política, da diplomacia, da negociação, do acordo, da busca pela formação do consenso pragmático”.

Esta questão envolve muitas reflexões, tendo em vista que as idéias da alteridade vêm lentamente ganhando terreno no movimento espírita, como algo longamente esperado por muitos que vêem nelas um novo modelo para nortear seus futuros caminhos.

Nos meios espíritas, há os que se ocupam exclusivamente com as atividades desenvolvidas nos centros; outros envolvem o movimento espírita local, nacional e/ou internacional, na abrangência das suas ocupações e preocupações; outros, ainda, dedicam-se mais intensamente ao aspecto intelectual e, dentre eles, há os que pugnam pela “pureza doutrinaria”, intentando excluir os que de alguma forma divergem do que disseram Kardec e os espíritos na codificação do Espiritismo, ou, então, que adotam saberes ou práticas não contidas nessa codificação. Há também os movimentos que pretendem unificar o pensamento e as práticas espíritas.

Assim, em rápida análise do movimento espírita brasileiro, podemos observar que enquanto muitos se aliam às idéias roustainguistas, outros seguem o pensamento de Ramatis, Pietro Ubaldi, Edgard Armond e da CEPA. Outros ainda buscam a “pureza doutrinária”, que entendemos ser utópica. Há também a diversidade de práticas, tudo isso gerando controvérsia e desentendimento. Nestes aspectos a “Casa está bastante dividida” e sabemos que as divisões abrem perigosas brechas ao avanço das sombras. Por isso a idéia da alteridade se apresenta como um caminho para a união, a fraternidade e o respeito pelos demais, e não à unificação, que significa enquadrar todo o pensamento e as práticas espíritas num só modelo, algo impossível.

Muitos refutam estas idéias por entenderem que elas poderiam fomentar uma descaracterização do próprio Espiritismo. Essa preocupação, no entanto, não procede, principalmente porque essa diversidade já está profundamente enraizada no movimento espírita. Mas, se tivermos alteridade, será muito mais fácil ir ajustando os desvios doutrinários, aproximando sempre, mais e mais, do modelo central, ou seja, Allan Kardec. Isso se dá porque, enquanto estamos brigando, cada qual querendo impor a sua verdade, é impossível chegar-se ou aproximar-se de qualquer consenso. Se pararmos de brigar, se passarmos a nos ver como uma família em que todos merecem respeito, podemos nos dedicar ao debate equilibrado e saudável, sem agressões, sem ofensas, com fraternidade. Isto poderia ser realizado principalmente através de fóruns de debates sobre os temas polêmicos, com direito de voz a todos os interessados, não visando definir posições ou fechar questões, mas apenas como oportunidade de esclarecimento a todos, trocando idéias e não farpas. Assim, teríamos muito mais a ganhar. Já disse um espírito iluminado: “A verdade não é uma voz que grita, mas um poder que irradia”.

Quanto às idéias alteritárias, elas vêm surgindo, não apenas nos meios espíritas, como diretrizes para um novo tempo. Frei Betto fala sobre elas num texto que inserimos no final desta parte. Seres exponenciais, como Roberto Freire, trazem-na no bojo das suas manifestações intelectuais, sem falar em movimentos como a Educação Biocêntrica, surgida há poucos anos, mas que já mostra a força das suas idéias. Grandes pensadores, no mundo, vêm incluindo a alteridade em seus conceitos, com ou sem o uso dessa palavra.

Nos meios espíritas, observa-se que há inúmeros corações aguardando com ansiedade que algo aconteça para “mudar o curso do nosso barco”. Nas palestras e “workshops” que são realizados sobre alteridade, é possível observar-se nas expressões de grande parte dos presentes o júbilo que esse novo paradigma representa para eles, como se estivessem começando a vislumbrar luz no final do túnel. É verdade que a travessia desse túnel é trabalho de longo curso, porque se trata de mudar a mentalidade de toda uma comunidade e sabemos que rejeitar e lutar contra novas idéias é característica de grande parcela dos seres humanos. Por isso, caro leitor, se sentir que estas idéias lhe tocam a alma, levante esta bandeira, na certeza de que estará colocando mais um tijolo na construção, não apenas de um movimento espírita renovado, mas também de um mundo melhor. Mas lembre-se de que é necessário em primeiro lugar passar a vivenciar a alteridade, a fim de senti-la em si mesmo, em todos os seus potenciais, para poder difundi-la com segurança e autenticidade.

É algo maravilhoso, verdadeiramente divino, caminhar de mãos dadas, trabalhando em nome do amor, mesmo quando algumas idéias são divergentes. O amor não divide, soma; não marginaliza, convida; não expulsa, abraça.

Vamos, pois, irmãos, dar-nos as mãos e todos juntos, com o coração aberto e repleto de alegria, trabalhar pela causa do bem, e, em vez das discriminações e exclusões, por que não desenvolvermos uma campanha por vibrações fraternas para o movimento espírita? Quando de todas as partes do Brasil forem irradiadas vibrações luminosas para este movimento, ele ganhará mais harmonia, mais união e força, podendo fazer muito mais pelo ser humano.

Isto é verdadeiramente Espiritismo.

 

 

 

 

Pureza doutrinária X roustainguismo-chiquismo

 

 

Para alguns setores do movimento espírita, Francisco Cândido Xavier, em parceria com os espíritos que o assistiram, trouxe uma visão de vida que em alguns pontos apresenta características semelhantes ao roustainguismo, e entendem que esse modelo acabou criando alicerces para o igrejismo que se percebe em nossos meios, o que tem motivado algumas críticas e dissensões.

Mas, se observarmos essa questão por uma ótica alteritária, podemos começar por analisar alguns aspectos das necessidades do ser humano. Quando alguém está sofrendo muito, ou quando o sofrimento se alonga por muito tempo e a pessoa se sente impotente e já cansada, sem forças para continuar... nessas situações, a linguagem que o roustainguismo e o “chiquismo” imprimiram em grande parcela dos meios espíritas representa um bálsamo à alma sofrida, levando-lhe alento e consolação, o que representa um renovar de energias e de esperanças. Jesus lhe é mostrado como alguém que vem estender-lhe mão salvadora, ajudando-o a se levantar e continuar a caminhada. É a percepção do Espiritismo pelas vias do coração.

Quando estamos vivenciando fases mais tranqüilas em nossos percursos terrenos, embora com todos os problemas, lutas e dificuldades normais da vida humana, é mais natural vermos Jesus na feição do Mestre, aquele que veio nos ajudar a caminhar com os próprios pés. Podemos vê-lo, assim, como o cientista sideral nos ensinando a ciência do bem-viver. É a percepção do Espiritismo pelas vias do intelecto.

Da mesma forma, os diferentes tipos psicológicos, quando em contato com o Espiritismo, a depender também do momento em que se encontram, tendem a apropriar-se dos aspectos dessa doutrina, ou desses conhecimentos, naquilo que vem ao encontro de suas necessidades, aspirações e características. Muitos se sentem mais plenos estudando também Ubaldi ou Ramatis. Outros se fixam apenas em Kardec, e outros ainda, no que toca ao Evangelho, preferem valorizar tão-somente seus ensinamentos éticos sem se ocupar em exaltar a figura de Jesus. Há os que sintonizam com a linguagem de Roustaing, inclinando-se para essa vertente, enquanto muitos se contentam com as obras ditadas ao Chico Xavier. Há ainda aqueles que buscam no Espiritismo apenas os seus aspectos científico e filosófico.

Como vemos, cada tipo humano, cada tipo psicológico, encontra nessa generosa mãe que é o Espiritismo o alimento de que está necessitando ou procurando.

Todos, no entanto, assentam as suas bases nos princípios fundamentais da doutrina, ou seja, a evolução dos seres pelas vias da reencarnação e da lei de causa e efeito, a comunicabilidade dos espíritos, a pluralidade dos mundos habitados, os ensinamentos de Jesus como caminho e a sua figura como o modelo, etc. As divergências ocorrem em torno de detalhes que não prejudicam a evolução moral-espiritual dos seus seguidores, que, afinal, representa a meta primordial do próprio Espiritismo.

Os apóstolos também tiveram grandes divergências, pois, enquanto uns afirmavam que a salvação era pela graça, outros diziam que era pela fé e outros ainda, pelas obras. Se os apóstolos tivessem se dedicado a discutir questões doutrinárias tão importantes quanto estas, será que teriam conseguido difundir a “boa nova”, como o fizeram?

Num mundo tão atrasado quanto o nosso, com pessoas de todos os níveis evolutivos e de mentalidades as mais variadas, impor a “pureza doutrinária” não iria elitizar o Espiritismo, fragmentá-lo, enfraquecê-lo? Além disso, tentar isolar uma parcela do nosso movimento, como sendo os verdadeiros espíritas, demandaria uma interminável batalha de discussões, querelas, críticas, debates, marginalizações, e acabaria sem conceitos definitivos... mas certamente com pesadíssimas perdas.

Será que alguém se torna mau caráter por acreditar na virgindade de Maria ou no corpo fluídico de Jesus?

Será que alguém se torna melhor pelo fato de defender a “pureza doutrinária” ou, quem sabe, é justamente essa defesa intransigente, utilizando as armas da exclusão e da marginalização, que representa o verdadeiro perigo para o movimento espírita?

Diante desses dilemas, que fazer? Ingressar “com armas e bagagens” em algum desses segmentos e passar a hostilizar os demais? Atitudes assim só fomentam divisões e lutas pela certidão de representante único e legítimo do Espiritismo. Algo semelhante ocorre nos demais meios religiosos, onde cada uma dessas religiões arvora-se em filha única de Deus e sua legítima representante na Terra. Será que nós espíritas não conseguimos extrapolar dimensões tão mesquinhas e retrógradas, abrigando-nos fraternalmente sob a mesma bandeira, embora cada qual se posicione à sua maneira, de acordo com suas inclinações, seu psiquismo e suas necessidades?

Nessa questão das diferenças, já podemos observá-las a partir do reino animal, em suas faixas mais evoluídas, assim como nos animais domésticos, no qual cada um já apresenta um psiquismo embrionário com características de individualidade. São conquistas do espírito ao longo da sua jornada evolutiva. Não se pode, portanto, ignorar a complexidade do ser humano, querendo obrigá-lo a pensar dentro dos limites de determinado modelo. Poderão contestar dizendo que então os roustainguistas, ubaldistas, a CEPA, os ramatisistas etc., deveriam criar outras bandeiras e abrigar-se sob outras denominações que não a do Espiritismo. Mas seria isto justo? Estaria de acordo com os ensinamentos de Jesus? Seria realmente proveitoso e benéfico para o que restasse do movimento espírita?

Lembremos as palavras do Mestre quando disse que, se alguém não é contra Ele, está a seu favor. Também afirmou que seus discípulos seriam conhecidos por muito se amarem e enfatizou: “A casa dividida não permanece em pé”.

Em O Livro dos Médiuns, cap. XXVII, item 302, o Espírito Verdade diz:

“Esperando que se faça a unidade, cada qual acredita possuir a verdade e sustenta que só ele está com a verdade. Ilusão que os Espíritos mistificadores não deixam de entreter”.

“Notai que os princípios fundamentais são os mesmos por toda parte e devem vos unir num pensamento comum: o amor a Deus e à prática do bem. Seja qual for a via de progresso que se pretenda para as almas, o objetivo final é o mesmo: praticar o bem. Ora, não há duas maneiras de o fazer?

Se surgirem dissidências capitais, referentes ao próprio fundamento da doutrina, tendes uma regra segura para as apreciar. A regra é esta: a melhor doutrina é aquela que melhor satisfaz ao coração e à razão e que dispõe de mais recursos para conduzir os homens ao bem. Essa, eu vos dou a certeza, é a que prevalecerá.” (Grifos nossos)

Essas palavras do Espírito Verdade são decisivas, sem margem a interpretações. Elas induzem a sérias reflexões sobre nossa responsabilidade como espíritas e nossa atuação, dentro e fora do nosso movimento.

O conceituado escritor Orson Peter Carrara, em matéria veiculada na revista Aurora (Ano XXIV – Nº 90), diz com muita propriedade:

“As diferentes posturas de prática espírita refletem o conhecimento dos integrantes ou dirigentes dos grupos, cujo universo pode ser analisado sob qualquer ângulo que se queira. Ora, isto é absolutamente natural numa doutrina altamente democrática e respeitadora das diferenças individuais.

Os estágios destoantes, de aberrações doutrinárias, incoerentes com a genuína Doutrina Espírita, na verdade preparam futuros trabalhadores e iniciam muita gente nos conhecimentos sobre a imortalidade e comunicabilidade dos espíritos, mesmo que por agora de maneira muitas vezes até escandalosa. No futuro, serão acordes com a orientação doutrinária.

A preocupação com a defesa em favor da doutrina é desnecessária. A doutrina fala por si e se os espíritas conscientes estudarem e colocarem em prática o que o Espiritismo traz, esta semeadura fará a defesa. Claro que devemos esclarecer de maneira permanente, usando os veículos de comunicação disponíveis, mas para semear o bem, nunca atacar.

Os esforços de união dos espíritas, atendendo aos apelos da espiritualidade, devem merecer nossa melhor atenção, pois somente eles são instrumentos capazes de sanar as dificuldades trazidas pelas fraquezas humanas e pelos diferentes níveis de entendimento doutrinário.

Uma coisa é a assimilação dos ensinamentos espíritas pelos espíritas. Outra coisa é a ação que esta assimilação produz nos espíritas, já que todos provêm de formação distinta, de maturidade emocional e psicológica diferente e, claro, de entendimento intelectual também diferente.

Todo desentendimento gera atrasos no programa doutrinário, adia o planejamento estabelecido por Jesus para o progresso da humanidade e tem, portanto, caráter prejudicial para os que se intitulam cristãos e para a tão comentada e esperada era da Regeneração.”

E nós? Será que vamos continuar gerando um clima de desamor, fomentado por discussões, marginalizações e exclusões, ou vamos unir-nos sob a bandeira da alteridade, respeitando-nos mutuamente e procurando também aprender com os que pensam diferente de nós?

Reflita, pois, companheiro de ideal espírita, sobre a importância da construção da fraternidade entre nós, apesar das divergências.

E sempre é importante lembrar que as posturas NÃO ALTERITÁRIAS geram críticas, discórdia, discriminações, marginalizações, ambientes carregados, queda vibratória, afastamento de companheiros e reflexos negativos em todo o movimento espírita.

Valerá a pena arriscar o futuro do Espiritismo por causa de uma “pureza doutrinária” que iria congregar uma parcela bem menor do nosso movimento, em detrimento da maioria?

Certamente seria bem mais coerente com a ética espírita acolher todas as tendências e divergências, abrindo espaços para saudáveis debates sobre todos os pontos polêmicos. Esses debates não poderiam ser conclusivos, visando apenas esclarecer, nunca impor, muito menos com o intuito de excluir, ou mesmo minimizar o valor dos que pensam diferente. Tal abertura redundaria em incalculáveis benefícios para o próprio Espiritismo e todos os seus seguidores.

Entendemos que esta doutrina é para todos que de alguma forma possam beneficiar-se com ela e não apenas para os que se encaixem perfeitamente dentro do que se entende por sua “pureza”. Ela veio para todos que queiram apropriar-se das suas benesses, tanto em suas expressões intelectuais, quanto místicas ou emocionais.

Esse é um enfoque que pacifica o coração e faz abrir os braços para um grande e fraternal abraço, envolvendo todos que queiram beneficiar-se com essas vibrações de verdadeiro amor.

Assim, pela ótica da alteridade tudo se torna mais luminoso, nosso coração fica mais leve e os nossos olhos passam a enxergar o outro de forma mais verdadeira e fraterna. Isto é amor num dos seus inúmeros formatos, porque esse sentimento, quando verdadeiro e profundo, nos leva a aceitar naturalmente os que são diferentes e divergem de nós, respeitando suas posturas, vendo-os como sendo igualmente partícipes do nosso caminho e aos quais devemos respeito e consideração, embora possamos deles divergir em tudo.

E lembramos as palavras de Jesus quando perguntou que merecimento haveria em amar apenas os nossos amigos. Está claro que Ele quis nos ensinar a grande lição do convívio fraterno e alteritário.

Disse o espírito Bezerra de Menezes que esta terceira etapa do Espiritismo seria a da prática do amor e da alteridade, e, se refletirmos serenamente, havemos de perceber que, realmente, estes dois valores representam o caminho único para a paz e o progresso do movimento espírita.

 

 

 

Reflexões sobre Bezerra de Menezes e o roustainguismo

 

 

Como se sabe, no movimento espírita vêm acontecendo inúmeros embates em torno da questão da “pureza doutrinária”, principalmente no tocante às divergências entre a codificação kardequiana e o roustainguismo. Pensadores do porte de Nazareno Tourinho têm analisado e aprofundado essas questões, apresentando-as aos meios espíritas na forma de livros e artigos em jornais e revistas mostrando “n” pontos conflitantes entre Os Quatro Evangelhos de Jean-Baptiste Roustaing e a obra de Kardec. A de Roustaing apresenta linguagem e alguns conceitos marcadamente católicos, em oposição à codificação do Espiritismo, que trouxe uma visão realmente libertária, própria para gerir as grandes transformações da mentalidade e da conduta humanas. Diante disso, não são poucos os que criticam Bezerra de Menezes por ter sido um dos estimuladores do roustainguismo à época em que foi Presidente da Federação Espírita Brasileira no século XIX.

Assim, refletindo sobre o assunto, confesso que acabei criando certa reserva com relação a Bezerra de Menezes, perguntando-me por que teria ele agido assim, ou ainda, por que as entidades responsáveis pelo desenvolvimento do Espiritismo no Brasil permitiram que idéias incompatíveis fossem inseridas no contexto espírita.

Mas certa manhã, na tranqüilidade da caminhada em meio à natureza, foi possível “ouvir” as explicações de um benfeitor espiritual de luminosa presença, que me pacificaram o coração, deixando perceber o quanto podemos estar errados ao nos dispormos a tecer críticas, principalmente com relação a algo que pode estar extrapolando nosso estreito entendimento.

Aquela presença de grandiosa beleza espiritual explicou-me, resumidamente, o seguinte:

“Muitos percebem o Espiritismo pelo intelecto, enquanto muitos outros o percebem pelo coração, o que é perfeitamente natural, tendo em vista os diversos tipos psicológicos de que se constitui a humanidade.

Pelo intelecto nós o absorvemos na forma de conhecimento, nos amplos domínios em que a razão impera. Pelo coração nós o sentimos e as nossas emoções vibram no divino encontro com o amor.

São as duas asas da evolução.

Aqueles que percebem Espiritismo pelo intelecto encontram nele magnífico terreno para suas elucubrações, e os que o percebem pelo coração têm nele as maiores motivações para desenvolver o amor e pô-lo em ação.

Essas características estão presentes em todos os grandes vultos que marcaram a história do Espiritismo.

Vejamos, por exemplo, a atuação de Bezerra de Menezes quando se posicionou favorável ao roustainguismo, fato esse bastante criticado por uma parcela do movimento espírita atual.

No final do século XIX, quando o Espiritismo sofria fortíssima rejeição e seus profitentes eram perseguidos até mesmo pela polícia, a sabedoria dos condutores espirituais do movimento espírita colocou Bezerra de Menezes à frente da Federação Espírita Brasileira, porque o momento era mais para o coração do que para o intelecto. Era necessário angariar a simpatia do público, impor presença pelas portas do amor posto em ação.

A codificação da Doutrina Espírita caracteriza-se pela sua coerência. São conhecimentos profundos colocados ante a sede de saber do ser humano, ou melhor, daquela fatia cuja evolução intelectual já lhe faculta predisposições para o questionamento e a busca de respostas. Mas havia necessidade de chegar junto àqueles outros, imensa maioria, que vibram mais fortemente nas linhas do sentimento que da razão. Para tanto, Bezerra dispunha da obra de Roustaing, toda vazada no sentimento, ou seja, pelas vias do coração. E poderíamos também dizer que ela contém alguns erros doutrinários como já foi sobejamente detalhado por alguns pensadores espíritas, mas, em compensação, conduz seus seguidores na vibração do amor, do sentimento.

Naqueles tempos do Espiritismo primitivo no Brasil, a imensa maioria dos brasileiros era do tipo que se aproxima de qualquer idéia religiosa pelo seu lado místico e emotivo. O culto a Jesus, a Maria e aos santos fazia a vida das pessoas, em sua quase totalidade católicas. Seria praticamente impossível conseguir maiores avanços, a não ser pela vertente do coração, e foi o que fez Bezerra e outros espíritos de escol que militavam na direção do movimento, partindo para o atendimento homeopático a enfermos, a atividades assistenciais da mais variada natureza, aos sofredores de toda ordem, enfim, o Espiritismo foi chegando aos mais necessitados pelas vias do coração e pouco pelas do intelecto. É preciso concordar que o roustainguismo teve papel fundamental na condução do movimento espírita daqueles tempos, movimento esse que vem alcançando o respeito do público, principalmente em razão da proliferação das suas ações no terreno da caridade”.

Por esses esclarecimentos do benfeitor espiritual, acabei entendendo, com toda clareza, a posição adotada por Bezerra de Menezes, lembrando que ele próprio também é dos que vivem mais pelo coração, embora sem prejuízos para o intelecto. Isto é possível perceber através das suas posturas e palavras. Entendi igualmente que é preciso reconhecer-se a grande contribuição do roustainguismo no que toca ao desenvolvimento do amor nos meios espíritas, mesmo por vias que muitas vezes acabaram descambando para o igrejismo e a idolatria, e apesar de alguns desvios doutrinários que, no final, certamente representam o menor dos males.

Como experiência pessoal, devo dizer que o único roustainguista declarado que conheço mais de perto é alguém em quem gostaria de me espelhar. Sua vida, atitudes, dedicação e fraternidade que irradia são exemplares.

 

Benefícios da alteridade

 

Quando adotamos a alteridade como o princípio mais importante a nortear nossas posturas, nossa vida se torna mais leve e mais prazerosa. Nossos relacionamentos passam a ser mais duradouros e até mesmo no amor ganhamos pontos pela benevolência que desenvolvemos, deixando de esperar e de cobrar do parceiro aquilo que idealizamos e que geralmente está apenas em nossas expectativas, mas não nas reais possibilidades do outro.

Um estado interior alteritário nos pacifica com nós mesmos e com os outros, porque nos faz benevolentes, e com isso deixamos de gerar “psicoenergia” negativa. Tais estados de espírito também fortalecem nosso sistema imunológico, repercutindo positivamente em nossa saúde, sem falar nos imensos benefícios para a nossa evolução.

Nas linhas da não-alteridade, quando vemos, pensamos ou falamos de uma pessoa diferente dos nossos parâmetros, ou do que aceitamos como o modelo criado pela sociedade, o nosso “olhar” já a marginaliza, põe-na de lado, não a valoriza. É o que acontece com relação às pessoas gordas, as muito magras, altas, baixas ou consideradas feias; o mesmo com relação às que são menos cultas que nós, menos inteligentes, menos capazes ou ainda cujos conceitos de vida, religião, gostos e ações diferem dos nossos, e até mesmo com relação a outras raças que não a nossa. Nosso “olhar” já as define como diferentes e não plenamente aceitáveis em nosso grupo eletivo. Isto é fácil de observar até mesmo em alguns programas na televisão, quando o apresentador diz: “Olha só a baranga, a muquirana“ e outros epítetos semelhantes. Por que excluir quem difere do modelo ideal criado pela sociedade ou por nós? Não terão já essas pessoas uma carga suficientemente pesada de frustrações e outros sentimentos negativos gerados pela sua aparência, sua diferença, ou pela sua incapacidade?

O mesmo deve ser pensado com relação à nossa comunidade, a espírita, ou seja, a essência das nossas atenções deve estar no respeito pelos demais companheiros, assim como por suas posturas, desde, é claro, que não sejam de molde a comprometer as atividades nem a própria doutrina.

Também não devemos esquecer que, olhando a todos com alteridade, estamos gerando energia psíquica de teor positivo, benéfico, para os ambientes onde vivemos e por onde andamos.

Isto leva a uma pergunta: Que papel estamos nós, espíritas, desempenhando na nossa comunidade planetária?

Se temos conhecimentos mais avançados e sabemos que podemos colaborar mais efetivamente na transição do nosso mundo para um modelo melhor, não apenas pelas atividades comuns nos centros, mas também através da prece, das vibrações e visualizações voltadas para a humanidade, que estamos esperando para iniciar um amplo movimento nesse sentido?

Você que é dirigente, trabalhador da seara, freqüentador ou mero leitor de obras espíritas, reflita sobre a importância do momento que estamos vivendo. Lembre que a nossa responsabilidade ante a coletividade se amplia na medida em que vamos adquirindo mais conhecimentos, capacidade e aptidões. Pense o quanto pode ajudar, desenvolvendo vibrações benéficas direcionadas à comunidade espírita e, mais ainda, quando habituar-se a sempre enviar pensamentos e emoções positivos, luminosos, para nossa humanidade e nosso planeta, acrescidos de pedidos ao Pai Celestial para abençoar a nossa nave cósmica. Essas vibrações, essas energias, irão somar-se a outras de igual teor, o que irá ajudar, e muito, nesta difícil transição planetária, que já está começando a dar seus primeiros sinais.

Quando a nossa vida pessoal ou a de algum familiar está complicada, com dificuldades, que fazemos? Além das providencias cabíveis, o nosso pensamento se volta sempre para o Alto, em busca da ajuda divina; muitas vezes pedimos preces aos amigos, aos companheiros da Casa espírita, e procuramos envolver a situação numa vibração benéfica.

Se a nossa Casa planetária está complicada, em dificuldades, por que não fazermos o mesmo? Se o mundo vai mal, nós também sofremos com ele. Se a humanidade caminha à beira de um abismo, nós estamos caminhando com ela.

Reflita, pois, sobre o momento que estamos vivendo na Terra, levante esta bandeira e convide outros companheiros a fazerem o mesmo. A união faz a força.

 

Enfoques alteritários

 

Este não é um livro de contos, mas sempre é interessante passar alguma idéia nesse formato, principalmente quando retrata experiências reais, embora usando nomes fictícios.

 

“O veículo parou no sinal. Manhã de domingo, rua calma. No bar da esquina, um bêbado vomitava, encostado à parede. Gregório teve nojo, mas não conseguia desviar o olhar daquele homem. Sujo, a roupa em desalinho, escoriações aqui e ali falavam em quedas. O corpo magro, seminu, estorcia-se na aflição orgânica.

O veículo partiu, deixando aquela cena para trás, mas não o nojo e a revolta que sempre sentia diante de situações semelhantes.

O contato de uma mão, suavemente apoiada em seu ombro, tirou-o das reflexões que desenvolvia em torno das misérias humanas. Levantou o olhar, observando que se tratava de uma presença imaterial. Uma voz amiga falou em seu ouvido:

– Gregório, você está envolvendo o pobre ébrio em vibrações agressivas, como se já não bastassem as dores que carrega.

Achando muito natural aquela conversa com o invisível, respondeu mentalmente:

– Ora, garanto que ninguém obrigou aquele sujeito a beber. Ele bebe porque quer.

– Cuidado com seus julgamentos - tornou a dizer a voz. – Você é espírita, entretanto não obedece a Jesus, que disse “Não julgueis”; e também não está seguindo Seus ensinamentos porque, em vez de amar seu próximo, você o está envolvendo em vibrações agressivas.

A voz calou-se e a pressão do ombro desapareceu, mas as palavras do amigo espiritual continuavam audíveis na acústica de sua mente, levando-o a refletir, desta vez com nova postura, sobre todos os ângulos da destruição que os vícios promovem.

Lembrou-se dos milhões de homens e mulheres alcoólatras e dos viciados em drogas, cuja vontade foi dominada por esses monstros cruéis e de como é difícil levantar depois da queda. Pensou nele próprio, em sua vida equilibrada, no lar da sua infância e na orientação segura que recebera dos pais. Não quis pensar nos muitos “porquês” que podem atirar alguém no abismo do vício. Bastava entender que, sendo irmão de todos, em vez de julgar os atos alheios, importava reunir todos no abraço das melhores emoções, porque nos meandros do tempo e da dor estão as soluções para todos os problemas dessa natureza.

Já não via mais o ébrio pelo ângulo asqueroso e, em pensamento, voltou ao bar, abraçando aquela criatura sofredora com ternura, pedindo ao Pai de todos por aquele irmão que estava encontrando tantas dificuldades em sua jornada. Novos entendimentos, mais luminosos, alcançavam-lhe a mente e o coração, e começou a perceber com intensa clareza que esse deve realmente ser o papel do espírita e de todos aqueles que compreendem a importância das vibrações e das preces.

Tão entretido estava nesse novo enfoque de vida que se abria ante as suas percepções, que não observou a parada do ônibus onde deveria descer e foi fazê-lo muito adiante, tendo que voltar vários quarteirões a pé. Mas seus passos estavam leves e o coração cantava nas alegres vibrações do amor e da postura alteritária que adotara; embora nem mesmo conhecesse essa palavra, sentia sua essência benfeitora afagando-lhe a intimidade da alma.

 

 

 

Crescimento interior

 

A reforma íntima pode ser entendida como o alicerce sobre o qual podemos construir o nosso edifício evolutivo, e essa construção pode ser identificada como o crescimento interior.

Todo espírita estudioso e observador sabe que estamos vivendo um dos momentos mais importantes da história da humanidade, dos mais sérios e decisivos no que se refere às nossas responsabilidades espirituais. Percebe também que o movimento espírita poderia estar caminhando bem melhor.

O que você, caro leitor, entende ser prioritário para o nosso movimento?

Discussões em torno de aspectos doutrinários? Unirmo-nos numa organização forte? Preencher aqueles espaços que entendemos dever ocupar nas estatísticas? Provar ao mundo as nossas verdades? Sermos olhados com mais respeito, visando sairmos da longa marginalização?

Estes são indubitavelmente objetivos justos, mas, será que não estão sendo para nós um desvio das metas prioritárias, mais urgentes e reais, como a necessidade imperiosa de buscarmos meios mais efetivos para a consecução do nosso crescimento interior, que inclui também a reforma moral?

A propósito, convém lembrar a mensagem de Jesus à Igreja de Laodicéia (a última das sete igrejas) através de João, em suas visões na ilha de Patmos (Apocalipse, 3: 16, 17).

“Assim, porque és morno, e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes: Estou rico e abastado, e não preciso de cousa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.”

É claro que essa advertência foi feita às outras religiões, não a nós... Ou será que foi?

Inspirando-nos nas informações do espírito Manoel P. de Miranda, no livro Trilhas da Libertação, psicografado por Divaldo P. Franco, e, mediante outras observações, é possível fazer a seguinte narrativa:

“Logo após sua escolha como “Soberano Gênio das Trevas”, o mais poderoso dos Gênios infernais, depois de longas análises do movimento espírita e de terem sido ouvidos os maiores especialistas nas mais diversas áreas, orientou seus assessores, os Comandantes dos Setores, dizendo:

– Quero que os ataques sistemáticos contra o Espiritismo sejam muito bem organizados. Primeiro, vamos atacar com todas as possibilidades através do sexo, estimulando-o ao máximo, principalmente entre os líderes, médiuns, doutrinadores, oradores e todos os que lidam com o público. Esse é um velho sistema que tem dado certo. Além disso, já temos os nossos esquemas prontos. Basta adaptá-los e ampliá-los de acordo com as situações.

Agora, prestem bem atenção, porque vamos usar uma arma nova, infalível. É nova agora, porque já foi usada com pleno sucesso há muito tempo.

Nós vamos mudar o rumo das prioridades nos meios espíritas. Vamos estimular discussões em torno de temas como cantar ou não nos centros, orar em pé ou sentado, de olhos abertos ou fechados, fazer ou não bingos e assemelhados, enfim, tudo que possa gerar belas polêmicas, para que não sobre tempo nem energia para cuidarem da nossa maior inimiga, a...

A palavra engasgava na boca do chefão, enquanto a platéia aguardava, curiosa. Por fim desistiu de pronunciá-la, continuando:

– Quero também que estimulem o estudo da doutrina...

Essa recomendação do Soberano deixou estupefatos todos os presentes, mas ninguém teve coragem de fazer qualquer observação. Rindo desagradavelmente, aquele ser tenebroso continuou:

– Procurem acompanhar meu raciocínio. Os espíritas valorizam muito esse estudo. Então, se é impossível levá-los a abandoná-lo, que seria o ideal, vamos aproveitar essa característica para nosso benefício. Vamos estimular verdadeira febre de estudo, deixá-los com a cabeça cheia de conceitos... tão cheia que se esqueçam da nossa maior inimiga, a ...

A palavra novamente estava difícil de ser pronunciada. Todos estavam pendurados na fala do chefão, curiosíssimos para saber qual era afinal essa terrível inimiga. Fazendo grande esforço e como que cuspindo, o chefe conseguiu finalmente dizer:

– A ... a reforma... moral.

Os comandantes olharam-se, quase não acreditando em tanta astúcia na organização da maior estratégia de todos os tempos em sua luta contra a luz. Quando refeitos, todos, sem exceção, atiraram-se ao solo, genuflexos, diante do Soberano. Este mandou que se levantassem e continuou:

– Levem os espíritas a acreditarem que ela, a... a nossa inimiga, é tão difícil de ser alcançada que o Criador estabeleceu a reencarnação, como um caminho longo, interminável... para que nesse caminho a criatura tenha todo o tempo da eternidade para atingir aquela... meta.

Desta vez foram palmas estrondosas que estrugiram no ambiente. O soberano sorriu de novo, mais um esgar do que um sorriso, e continuou:

– Não se esqueçam de que foi essa a arma com que vencemos o Cristianismo nos seus primeiros séculos, transformando-o numa organização religiosa muito preocupada com tudo, menos com a vivência das “tolices” que o Cordeiro ensinou. Foi assim que conseguimos atenuar os seus efeitos, já que era impossível acabar com ele.

Lançando um olhar de aço em torno, continuou:

– É isso que vocês vão fazer... Já que é impossível acabar com o Espiritismo, vamos atenuar os seus efeitos.

O Chefão das Trevas fez uma pausa para melhor poderem assimilar aquela idéia e concluiu:

– Outra coisa. Façam os espíritas acreditarem que a tal da... a ... a reforma... moral... pode ser substituída por trabalhos de caridade... Eles vão gostar da idéia... e vão adotá-la.”

 

Assim, é fácil perceber que aquele nome tão difícil de ser pronunciado pelo Soberano Gênio das Trevas, a reforma moral, deve ser a primeira prioridade do movimento espírita; deve ser a nossa bandeira de luta, a maior de todas as batalhas que precisamos vencer.

E, por favor, não diga que esta é uma tarefa pessoal de cada um e não uma atribuição da instituição espírita. As instituições, desde os centros até as entidades federativas, estas últimas acima de todas, têm o dever de promover com todas as suas possibilidades a reforma moral, ou crescimento interior, do seu “rebanho”, já que esta é a principal finalidade do Espiritismo.

Felizmente, nos últimos anos é possível observar-se nos meios espíritas uma maior movimentação em torno dessa questão. Psicólogos, escritores e palestrantes, através dos meios de que dispõem, têm se dedicado ao assunto. Espíritos como Joana de Angelis, Hammed, Ermance Dufaux e outros vêm batendo nessas teclas ininterruptamente, apresentando excelentes obras psicografadas como poderoso auxílio para aqueles que desejam reformar o próprio interior.

Mas diante de tantas carências é pouco. Entendemos, por isso, que o movimento espírita, como um todo, está precisando mobilizar-se com urgência; ver o que há de bom nos meios leigos relacionado a cursos, técnicas, práticas, educação da mente, enfim, tudo sobre auto-ajuda, que possa ser adaptado aos fins propostos; elaborar sugestões de atividades e técnicas para os centros poderem efetivamente ajudar seus trabalhadores e demais interessados.

Neste momento é fundamental realizar-se uma grande campanha de âmbito nacional, usando todos os meios possíveis para despertar o nosso movimento, a fim de que fuja ao jogo estabelecido pelas Trevas e caminhe firmemente na direção apontada pelo Espírito Verdade.

Calcule o quanto o movimento espírita já teria ganho em qualidade se os esforços e espaços hoje ocupados com polêmicas tivessem sido usados em campanhas pela reforma e crescimento interior de seus integrantes.

Iluminar o intelecto com as claridades da Doutrina Espírita é importantíssimo, mas essas atividades iluminativas jamais deverão ocupar o lugar da prioridade maior, daquele nome tão difícil de ser pronunciado pelo representante das Trevas.

Assim, é fácil concluir que, nestes primeiros passos sobre a longa ponte que levará nossa nave planetária para a condição de mundo de regeneração, do que mais estamos precisando é desse crescimento, fazendo dessa meta a primeira e maior de todas as prioridades, buscando, inclusive, recursos que a modernidade oferece e que possam efetivamente ajudar a pessoa, tanto em sua reforma moral, quanto no seu crescimento como ser integral.

 

Mudanças no ESDE

 

 

 

 

Ouvindo trabalhadores da seara espírita dos mais diversos pontos do país, é fácil observar a similitude das queixas, sendo a principal a ausência de fraternidade entre eles. Também é comum ouvir comentários sobre a maneira um tanto desatenta e até mesmo fria com que são recebidos, em algumas instituições, os que chegam à procura de ajuda ou esclarecimentos. Isto reflete gravíssima distorção no âmbito de uma doutrina que valoriza ao máximo o amor, a fraternidade.

Outra observação preocupante está na evasão dos freqüentadores. Daqueles que vêm à procura de ajuda, uma parcela insignificante permanece na Casa.

Por quê?

Já não está na hora de começarmos a nos ocupar com estas questões? Descobrir o que está errado e procurar soluções? Ou vamos continuar escondendo a cabeça sob a areia, afirmando que tudo está bem e que estamos caminhando no rumo certo?

Mas há algumas medidas de urgência que podem ser facilmente adotadas. Uma delas refere-se a mudanças na sistemática do Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita - ESDE, ou de qualquer outro modelo de estudos doutrinários. A nosso ver, essas reuniões deveriam ser sempre intercaladas com trabalhos voltados à vivência espírita, ou seja, uma de estudo doutrinário e a outra de reforma íntima ou crescimento interior.

Por que valorizar apenas o estudo doutrinário, quando o mais importante é a sua vivência? É pela vivência do Espiritismo que vamos nos adequar a um formato mais compatível com as necessidades, tanto dos centros e dos trabalhadores, quanto daqueles que procuram a casa espírita, seja qual for a sua finalidade, sem falar nos ganhos que teremos em nossa própria evolução.

Lembremos Paulo de Tarso que tão bem compreendeu e soube apresentar essa questão, quando disse:

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.

Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé ao ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei.” (1 Coríntios 13:1 e 2).

Muitos entendem que o mero estudo doutrinário dará subsídios para a reforma interior, e que não são necessárias ações mais objetivas nesse sentido, mas esse enfoque é enganoso. Essa reforma, pelas imensas dificuldades que apresenta, requer esforços dirigidos, organizados e permanentes. Não pode ser relegada ao tempo, ao crescimento natural do ser, nem mesmo aos auxílios decorrentes do estudo doutrinário. O estudo esclarece, mas, para alavancar essa reforma, é preciso mais que esclarecimentos e conhecimentos. É preciso ação, uma ação organizada, roteirizada, priorizada.

Também não poderíamos deixar de abordar, embora superficialmente, a questão da solidariedade entre os seareiros, como elemento agregador e o mais sólido fundamento de uma instituição espírita.

Um médium contou-nos que, no grupo de que participa, uma das médiuns, de repente, passou a faltar aos trabalhos. Após três semanas de faltas retornou, desculpando-se. Disse que tem um filho com hidrocefalia, e a filha, que toma conta dele quando a médium sai, adoeceu gravemente e precisou ficar hospitalizada.

Essa revelação surpreendeu o grupo, porque ninguém sabia dos dramas daquela companheira. Todos ficaram chocados e cheios de remorsos. Ao invés de lhe terem feito uma visita para saberem o que estava acontecendo, haviam lhe dirigido censuras do tipo “um médium precisa ter mais responsabilidade com o trabalho”. Mas valeu como lição. Por decisão de todos, ficou acertado que, a partir de então, sempre que algum companheiro começasse a faltar aos trabalhos, lhe fariam uma visita solidária, para tomarem conhecimento de suas necessidades e lhe dizerem que podia contar com eles. Para tanto, arranjaram logo um caderno onde foram anotados os endereços de cada membro do grupo.

Vamos refletir sobre isso?

 

 

 

 

 

Metodologias referentes à vivência espírita

 

 

Em sua fase inicial de aprendizados, a humanidade sempre necessitou receber os ensinamentos já prontos, como um “pacote” de instruções e regras que era preciso assimilar e seguir. O próprio ensino nas escolas era realizado principalmente através da decoração dos textos, mas nas últimas décadas aconteceram mudanças radicais nessas metodologias, tanto que, hoje, o importante é que o aluno compreenda as matérias, entendendo todos os seus porquês, ao invés de simplesmente decorá-las.

Nas “escolas” onde se ensina o Evangelho, ou seja, nas religiões cristãs, podemos observar que as metodologias de ensino não progrediram. As “matérias” chegam prontas, como “pacotes de medidas” a serem decoradas e seguidas. Podemos então verificar que, em razão dessa didática improdutiva, em dois mil anos a pregação do Evangelho não conseguiu melhorar efetivamente os cristãos.

Diante disso, é importante buscarmos aprimorar nossos métodos nos esforços voltados à vivência do Evangelho.

  Todo espírita conhece bem os ensinamentos de Jesus. O Evangelho Segundo o Espiritismo é lido, relido e estudado nos centros e nos lares, mas a grande barreira, o nó, está em sua prática, em aplicá-lo nas atitudes, palavras, pensamentos e ações.

Muitos pensam: “Eu pratico esses ensinamentos”. Mas se começarem a observar suas reações mais íntimas às situações indesejadas, aos conflitos de variada natureza, a sua postura real diante de determinadas ocorrências ou fatos e até mesmo os conteúdos dos próprios pensamentos no cotidiano perceberão, na maioria dos casos, que a reforma interior ainda não alcançou as camadas mais profundas do ser.

De modo geral nós abafamos nossos impulsos, administramo-los ou dominamo-los quando estamos em público, mas eles fervem dentro de nós e acabam explodindo, se não em gestos, em enfermidades, por isso é tão importante não abafá-los, mas procurar transmutá-los.

Se refletirmos sobre a abrangência do Espiritismo, podemos percebê-lo não apenas como um caminho para as virtudes evangélicas, mas também como um processo de crescimento a contemplar outras facetas, a aprofundar outras questões vivenciais básicas do ser humano, assim como a convivência e os relacionamentos, como lidar com as frustrações, os traumas, o medo, o ciúme, a depressão... Para isso, certamente é lícito e recomendável apropriar-se de conhecimentos de outras áreas, tais como a Psicologia, além de outros saberes ligados ao bem-estar do ser humano, que contemplem a pessoa em sua totalidade, visando ajudá-la a ter mais equilíbrio, ser mais centrada e feliz.

Em meu entender (não digo “humilde entender” por se tratar de um jargão bastante usado, mas sem muita consistência e geralmente sem qualquer sinceridade), para o nosso crescimento interior é preciso muito mais do que apenas estudar o Evangelho. Esse crescimento implica na dinamização dos valores, tanto das virtudes, quanto daqueles que respaldam nosso equilíbrio psicofísico, proporcionando-nos bem-estar e positivos estados de espírito.

Para dar início a essa dinamização, um fator dos mais importantes está numa serena conscientização da nossa realidade mais íntima. Para isso é necessário arrancarmos nossas máscaras e passarmos a nos aceitar como somos, entendendo que as raízes do nosso presente estão mergulhadas em nosso psiquismo de profundidade, o inconsciente, que se encontra repleto de imagens carregadas de ódio, vaidade, angústia, frustrações, medo, rancor, enfermidades, sede de poder e tantas outras assemelhadas. Assim, torna-se fundamental iniciar um trabalho consciente de renovação dessas imagens, introjetando no inconsciente outras mais leves e luminosas, recriando o nosso ambiente íntimo.

Nesse aspecto, como em muitos outros, o médium Divaldo Franco tem trazido valiosa contribuição ao movimento espírita com seus “workshops” de meditações e visualizações de teor positivo. Exercícios dessa natureza, quando direcionados ao fim proposto, ao serem repetidos diuturnamente, ajudam a transmutar as imagens negativas do inconsciente em outras mais leves de amor, paz, confiança... tornando o ambiente íntimo mais fraterno, pacífico e jubiloso.

O simples estudo do Evangelho é importante, mas é preciso muito mais, para se conseguirem resultados em níveis mais profundos, mudanças verdadeiras que se iniciem pela renovação das imagens do inconsciente, onde está alojado aquele lixo mental e emocional que fomos acumulando ao longo das encarnações e cuja presença influencia nossa vivência.

Nossos valores negativos são condicionamentos que fomos adquirindo e cimentando no passado reencarnatório e, para corrigi-los, teremos de passar por um recondicionamento. Isto não se consegue com meras leituras, palestras e exortações. É preciso ação, um esquema, um roteiro claro de procedimentos práticos para materializar, passo a passo, as intenções que nutrimos sobre a nossa reforma ou crescimento interior; no caso de querermos avançar um pouco mais em nossa evolução, não nos acomodando ao lento progresso da própria natureza no bojo dos milênios e das reencarnações.

Dizemos “preciso modificar determinadas posturas...”, mas acabamos ficando em alguns esforços isolados aqui e ali, em simulacros de reforma, por não encontrarmos um apoio mais significativo.

Um exemplo poderoso que podemos observar está nos Alcoólicos Anônimos (AA) e em outros grupos semelhantes de pessoas que se juntam na tentativa de conseguir vencer determinados vícios e/ou dificuldades e obtêm êxito, em sua grande maioria.

Muitas das nossas imperfeições também podem ser vistas como viciações adquiridas ao longo do tempo, e da mesma forma como ocorre em relação a outros vícios, certamente conseguiremos melhores resultados com procedimentos inspirados naqueles modelos, em que os interessados se reúnem para a busca de ajuda mútua e nessa comunhão encontram as orientações e a força de que precisam para as mudanças desejadas. Num trabalho em grupo há mais estímulo, os companheiros podem trocar experiências, aprender uns com os outros, incentivar-se, buscar novas técnicas, novas dinâmicas, que possam auxiliá-los, nutrir a contínua motivação, sem a qual fica difícil prosseguir.

Nos últimos anos, grandes empresas públicas e privadas vêm se ocupando em dar a seus empregados cursos, palestras, oficinas e seminários, visando proporcionar-lhes crescimento interior, embora o foco esteja na maior produtividade. Por que, então, não pensar na possibilidade de as instituições espíritas oferecerem a seus trabalhadores – e também aos freqüentadores – recursos semelhantes, com vistas a otimizar e estimular o crescimento interior de todos, capacitando-se, inclusive, para dar melhor atendimento aos que as procuram, necessitados das mais diversas ajudas?

Cabe-nos também refletir que a evolução dos freqüentadores e trabalhadores do centro espírita é, em grande parte, responsabilidade da casa.  Assim, em vez de realizar apenas palestras ou estudos sobre o Evangelho, por que não diversificar, criando oficinas de valores humanos ou auto-ajuda, em que cada participante possa opinar, em que haja troca de idéias sobre temas ou questões escolhidas pelo próprio grupo, sempre voltados ao fim proposto?

Numa palestra, com poucas exceções, o que foi exposto vai perdendo efeito rapidamente nas mentes dos assistentes e, horas mais tarde, já caiu no esquecimento. Se perguntarem a alguém qual foi o tema da véspera, dificilmente irá lembrá-lo.

Já um trabalho em grupo é bem mais produtivo, ajudando a gerar memória.

O crescimento interior é algo individual, mas pode ser analisado, discutido, sugerido e planejado coletivamente. Crescer em grupo é muito mais fácil e agradável do que sozinho. No livro Crescimento Interior apresentamos na sua primeira parte, como sugestão, o roteiro de uma reunião que poderíamos chamar de Oficina de Auto-ajuda, e na segunda parte um manual individual, sempre sob ótica espírita. Esse livro é vendido a baixo preço para facilitar sua aquisição, e os grupos que quiserem adotá-lo poderão adquiri-lo nesta editora a preço de custo, já que cada membro do grupo deve ter o seu exemplar.

Essa oficina tem o seguinte formato, que pode ser modificado ou adaptado conforme as circunstâncias e a vontade dos seus organizadores.

a) Os participantes sentam-se em círculo, para facilitar a comunicação entre todos.

b) Os temas devem versar sobre as mais diversas dificuldades evolutivas e necessidades ou problemas ligados à vivência das pessoas, como orgulho, vaidade, medo, convívio, generosidade, grandeza de espírito, depressão, ódio, impaciência, maledicência, ciúme, família, egoísmo, discórdia, desamor, omissão, melindre, inveja, rancor, prepotência, etc..

c) A oficina começa com uma prece e um momento de silêncio para reflexão, durante o qual os presentes possam analisar a si mesmos, buscando identificar em suas atitudes do cotidiano o tema que foi escolhido.

d) Os participantes, um por um, fazem reflexões as mais variadas sobre o tema, procurando entender os seus porquês e, principalmente, buscando elaborar meios práticos para eliminar seus valores negativos, ou transmutá-los em positivos.

e) O coordenador apresenta um trecho do Evangelho relacionado com o assunto em discussão. Digamos que o tema seja o medo. Assim, o trecho do Evangelho poderia ser aquele em que Jesus diz: “Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que as vestes?” Essas palavras do Mestre viriam coroar todas as observações do grupo quanto ao que fazer ou como agir para liberar-se do medo. Dessa forma, fica mais fácil perceber como é importante cada qual fazer a sua parte por todos os meios lícitos, mas no final entregar sua vida, confiantemente, à direção maior.

É importante observar que o tema é inicialmente aprofundado no que se refere ao cotidiano das pessoas, às inúmeras dificuldades na vivência e convivência, tudo aquilo que as perturba, incomoda, angustia, aflige e machuca, para depois se chegar ao Evangelho. É uma forma de mudar o enfoque do “pacote religioso” para um modelo mais adequado, porque leva a pessoa a assumir plena responsabilidade por si mesma, incentivando-a e ajudando-a em seus processos de crescimento interior.

Em outros temas, como o perdão, o grupo pode trazer à baila o que a ciência já comprova, ou seja, que perdoar é benéfico ao equilíbrio psíquico e à saúde orgânica, para depois se chegar ao ensinamento evangélico, que não mais soará como uma obrigação religiosa, mas como orientação científica para o bem-viver.

f) O coordenador escolhe alguém do grupo para fazer as considerações finais sobre o encontro.

g) Os presentes são convidados a buscar, durante a semana, subsídios para o tema da próxima reunião. Assim eles ficam mais envolvidos, gerando “memória” sobre as questões tratadas. Observe-se que é justamente pela falta dessa “memória” que tanto erramos, porque geralmente só nos lembramos de nossas decisões em agir de determinada maneira, depois de termos agido de forma oposta. Aí, só nos restam lamentações e arrependimento. Mas se nos lembrarmos antes de agir, podemos modificar ou anular a ação.

h) O encerramento pode ser um exercício de relaxamento e induções para a vivência do valor que foi o tema da reunião, finalizando com uma prece. O relaxamento com induções é importante porque atua em níveis mais profundos do psiquismo, ajudando a transmutar “lixos do inconsciente” em valores mais nobres.

Com mudanças como esta em algumas metodologias, certamente será possível obter-se bem melhores resultados, não só na questão da vivência espírita e do crescimento interior dos participantes, mas também para tornar as reuniões muito mais interessantes e atraentes, evitando-se evasões. Igualmente, forma-se um clima de mais amizade, ou cumplicidade, entre os membros do grupo, nutrindo a fraternidade. Também é uma forma de enfocar o Evangelho não como aquele “pacote” de determinações ou imposições religiosas, mas como aprendizados importantes para o ser humano, porque Espiritismo, a nosso ver, além de desenvolver virtudes evangélicas, deve ser também o caminho para a felicidade e o bem-estar dos seus profitentes.

 

 

 

Mudanças em algumas metodologias

 

Os personagens e acontecimentos desta narrativa são reais. Os nomes são fictícios e os fatos misturam-se no tempo e no espaço, mas refletem algo do que ocorre em alguns centros espíritas. A finalidade é levar todos nós a refletirmos com maturidade sobre nossas posturas nos caminhos dos nossos ideais de evolução e sobre a importância de mudanças em algumas metodologias nas atividades espíritas.

 

“O olhar de Neide estava triste, expressando desânimo e frustração. Por sua mente passavam reflexos de idéias que não queria desenvolver, não queria tomar conhecimento nem concretizar como possibilidade. Disse para si mesma: “Eu preciso continuar... Não posso sair, abandonando o barco”.

Mas estava difícil. Cento e vinte crianças da evangelização deixariam de vir nos próximos domingos, porque havia sido suspensa. Todas elas viviam em situação de risco, assediadas por drogas, prostituição, roubo, violência...

Resolveu procurar na memória, revisar os acontecimentos, fazer uma avaliação. Talvez tivesse errado em algum ponto e fosse culpada pelo que estava acontecendo.

Procurou lembrar-se dos detalhes.

Durante quantos anos, talvez uns nove ou dez, os trabalhos do centro vinham fluindo bem, apesar das dificuldades naturais. O fundador da instituição, que também era dono do imóvel em que esta funcionava, conseguira imprimir ao longo daquele tempo um clima de harmonia e fraternidade. As equipes iam se formando dentro das necessidades de trabalho, com uma conscientização coletiva de convivência democrática e fraterna. Tudo era planejado e discutido por seus componentes e as idéias da maioria sempre prevaleciam.

Neide coordenava a evangelização infantil. Não andava satisfeita. Sentia que algo precisava ser mudado, mas não sabia exatamente o quê. Certo dia, na primeira aula de uma turma nova, observou que uma menina de aproximadamente 10 anos demonstrava um misto de revolta e angústia em suas expressões. Vez por outra uma lágrima tentava formar-se em seus olhos, mas era de logo enxugada na manga da blusa.

A lição do dia começou com a clássica explicação: ‘Deus é o nosso Pai, criador de todas as coisas’.

Um soluço formou-se na garganta da garotinha. Preocupada, Neide levou-a a outra sala e, carinhosamente, conseguiu saber a causa de tanto sofrimento. A menina havia sido estuprada pelo pai numa noite de embriaguez.

Neide sentiu uma onda gelada percorrer-lhe o corpo.

Como poderia apresentar Deus a crianças como aquela, denominando-o de pai?

Marcou uma reunião com a equipe de evangelizadores. Era preciso mudar a forma de ensinar Evangelho às crianças. Talvez fosse o caso de se fazer uma reforma geral no formato do trabalho, torná-lo mais interativo, levar as crianças a conhecerem primeiro a si mesmas, incentivando suas potencialidades; a conhecerem a natureza, as plantas e animais; a sentirem admiração pelos gestos nobres, a grandeza de espírito, a beleza das leis naturais, a alegria que em tudo está presente, para depois ir explicando que a grande presença que a tudo isto criou e comanda... é Deus, o ser Supremo.

Alguém sugeriu oficinas de arte com as crianças, nas quais elas poderiam melhor expressar o que lhes ia na alma; também seria proveitoso formar pequena horta, toda feita por elas, a partir da qual teriam oportunidade de acompanhar o grandioso trabalho da natureza. Paralelamente lhes seriam ensinados princípios éticos; tomariam conhecimento sobre a vida de Jesus, seus ensinamentos, sua bondade e grandeza de espírito...

A equipe de evangelizadores vibrou com as idéias e começou a trabalhar no projeto, que foi apresentado à diretoria, prontamente aceito e apoiado por ela.

Dois meses mais tarde, começou-se a implantá-lo para grande alegria das crianças e emocionado júbilo dos evangelizadores, que logo perceberam quanto de bom poderiam semear naqueles espíritos em reinício de caminhada, numa sementeira tão bem elaborada, observando-se todas as carências e condições para melhor aproveitamento.

Mas o centro havia crescido muito, com muitos novos trabalhadores, nem todos sintonizados com as idéias nascentes. Rosana, principalmente, era contra essas idéias. Entendia que evangelho é escola e precisa funcionar dentro das regras estabelecidas. Nada de novidades. Era do tipo que impõe suas idéias; que fala, sem dar espaço aos outros e se aborrece quando contrariada. Seu dinamismo, porém, sua dedicação à casa, acabaram conduzindo-a ao cargo de presidente. Foi aí que tudo mudou.

A nova presidente nomeou uma supervisora para a evangelização, pessoa bem preparada, que, por falta de tempo, não podia comparecer ao trabalho, nem mesmo às reuniões da equipe. Mesmo assim, qualquer passo tinha que receber sua aprovação, sem a qual nada seria feito. Até mesmo para apanhar no depósito os materiais necessários às oficinas era preciso uma ordem sua.

Ante o impasse, os componentes da equipe passaram a comprar esses materiais a fim de poder dar continuidade ao trabalho, que estava sendo altamente produtivo. Até mesmo de outros centros, companheiros vinham conhecê-lo, visando implantá-lo em suas instituições.

Um mês após a eleição da nova diretoria, Neide recebeu um telefonema informando que a evangelização infantil estava suspensa, sem maiores explicações. Foi conversar com Rosana, sem sucesso. Esta nem quis ouvir suas argumentações, informando que a decisão já estava tomada e que em breve daria as novas diretrizes para a continuidade dos trabalhos. Aliás, não tinha muita certeza se estes teriam continuidade.

Desarvorada, Neide resolveu procurar um velho amigo cujos conselhos buscava nas situações mais delicadas. Seu Silvério recebeu-a com o carinho de sempre e ouviu seus desabafos, procurando não interrompê-la e, quando a jovem ergueu o olhar esperando um conselho, disse:

– Minha amiga, saiba que em todos os meios movidos por ideais há sempre aqueles que puxam a carroça, outros que a seguem de uma forma ou de outra e outros ainda que procuram atrapalhar-lhe a marcha. Se você vem puxando essa carroça há tanto tempo e acredita que está no bom caminho, não deve abandoná-la. Mas observe que os “puxadores de carroça” precisam desenvolver com maior vigor algumas virtudes, como a humildade e a persistência.

Após meditar alguns instantes, concluiu:

– Que tal procurar a presidente da casa e conversar sério com ela, falar-lhe sobre a importância da democracia nos meios espíritas, do ouvir os outros e meditar muito, pesar os prós e os contras antes de adotar determinadas medidas? Tente lembrar-lhe a sua responsabilidade diante de Deus e da comunidade, como gestora de uma instituição, que não deve impor suas idéias, mas dividir com aqueles que já vêm trabalhando há mais tempo na seara; fazê-la ver que precisa discutir as questões mais graves com todos os interessados, ouvindo e analisando os argumentos dos demais; dizer-lhe também do mal-estar que a sua atitude gerou na instituição, o que é profundamente negativo, fator de brechas para a influenciação dos trevosos, sempre unidos e atentos contra nós.

– Mas ela não vai me dar atenção – argumentou Neide. – É do tipo de pessoa que não ouve ninguém.

– É o que você pensa. Quando alguém nos censura determinada atitude, mesmo que isto nos aborreça e nos deixe indignados, a idéia permanece a nos atormentar. Aquilo fica martelando em nossa mente, como algo que devemos avaliar. É o trabalho da consciência que foi despertada para o fato.

E olhando para a jovem carinhosamente, concluiu:

– Há, nos meios espíritas, certa tendência a se fecharem os olhos “caridosamente” aos erros dos companheiros, mesmo que venham a gerar efeitos negativos à instituição. Mas caridade vista por um ângulo mais real está principalmente em ser-se uma presença benéfica, sempre. E pode ter certeza de que há maiores benefícios em se conversar com o companheiro sobre o que entendemos estar errado em suas atitudes ou ações, quando estas trazem prejuízos a outrem, do que em permanecermos calados, censurando-o mentalmente, mas sem coragem de manifestar-lhe nosso pensamento.

Neide voltou para casa, pensando sobre a melhor maneira de conversar com Rosana, como poderia tocar-lhe o coração e o entendimento, a fim de que aquelas crianças pudessem voltar a ser assistidas pelas claridades do Evangelho.”

 

 

 

Auto-ajuda

 

Algumas revistas e jornais espíritas têm se dedicado a publicar matérias que defendem a “pureza doutrinária”, enquanto outras se mostram menos intransigentes e até abertas a novos valores e idéias, desde que não venham a ferir os princípios básicos do Espiritismo.

Dentre os primeiros, alguns chegam a extremos, condenando até mesmo a distribuição de mensagens consoladoras nos cemitérios em dias de finados, e se referem, indignados, à auto-ajuda como a coqueluche do momento, ranço da psicologia transpessoal, infiltrada no movimento espírita.

Mas será um mal distribuir mensagens consoladoras à luz do conhecimento espírita a pessoas que vão chorar os seus mortos? Se o próprio arcabouço do Espiritismo é uma ação consoladora, se Jesus foi o Amigo a consolar os aflitos de toda ordem, o Médico a curar chagas do corpo e da alma, o Mestre a ensinar conceitos mais avançados para a vida dos seres..., como é possível um espírita condenar outros espíritas por procurarem seguir os ensinamentos e os exemplos dEle?

Quanto à auto-ajuda, esta simples palavra já define avançados conceitos espíritas, representando uma meta evolutiva a ser alcançada. Aprender a ajudar a si mesmo significa crescer, começar a andar com os próprios pés, jogar fora as muitas muletas que nos têm acompanhado o crescimento espiritual. As palavras “Levanta-te e anda”, que Jesus dirigia aos enfermos, dão clara idéia de que o Mestre queria que eles se auto-ajudassem. Não era Ele quem os segurava pela mão e os auxiliava a andar. Ele ordenava e deixava o restante para a iniciativa e os esforços de quem queria curar-se.

O Espiritismo nos mostra caminhos, mas somos nós que precisamos nos levantar e sair caminhando, em busca do nosso crescimento.

André Luiz, num dos livros psicografados por Chico Xavier, narrando um episódio em que mãe, filha e filho saíam de um centro espírita, de retorno ao lar, conta como o benfeitor espiritual, aproximando-se da jovem, induziu-a a dar verdadeira aula de auto-ajuda à mãe e ao irmão, que viviam a lamuriar-se das dificuldades evolutivas que encontravam. Através da garota, ele enfatizou a necessidade de eles aprenderem a caminhar sozinhos, deixarem de estar sempre precisando da ajuda dos benfeitores espirituais.

É possível mesmo se pensar que esses companheiros que atacam a auto-ajuda não sabem exatamente do que se trata, porque não há qualquer justificativa coerente para nos fecharmos à busca de conhecimentos, práticas e ações, tão valiosos para nosso crescimento espiritual e nosso bem-estar geral. Afinal, qual é a finalidade do Espiritismo? Produzir “doutores da lei”, focados na forma, na “letra que mata”, ou ajudar seus profitentes a crescerem interiormente, a se tornarem pessoas mais centradas, mais equilibradas, mais saudáveis, mais capazes de superar as infinitas dificuldades que o mundo moderno apresenta, enfim, a serem mais felizes e menos dependentes de uma contínua ajuda dos amigos espirituais?

Se esses companheiros que tão afoitamente atacam a auto-ajuda lessem, por exemplo, Eva Pierrakos, ou assistissem a “workshops” de Divaldo Franco, certamente mudariam seus conceitos.

O mundo está mudando muito rapidamente, envolvendo o ser humano num dinamismo nunca visto, numa luta insana para garantir a manutenção própria e a da família, na preocupação de tentar livrar a si mesmo e aos seus das inúmeras surpresas, como as da violência, que podem estar se ocultando atrás de qualquer esquina, e de tantos outros temores que se escondem em seu interior. Tudo isso gera estresse, que pode abrir caminho para enfermidades as mais variadas e até mesmo para obsessões.

Por isso, a própria ciência médica já fala na importância do relaxamento para aliviar o estresse e como fator de equilíbrio psíquico e saúde física. Assim, se esse é um recurso que faz bem ao ser humano em todos os seus aspectos, por que não pode ser utilizado num centro espírita? Um rápido exercício de relaxamento antes do passe, com os que vão ministrá-lo e os que vão recebê-lo, predispõe tanto os passistas quanto os seus beneficiários a melhores resultados. O mesmo se dá com relação a várias outras atividade da casa.

Há alguns anos, quando dirigia um trabalho de desobsessão, sempre iniciava a parte prática com um rápido exercício de relaxamento e visualizações de elevado teor espiritual que culminavam numa prece, ao som de suaves melodias. Isto deixava os médiuns mais serenos, elevando seu teor vibratório, e todo o trabalho ganhava muito em equilíbrio e qualidade. Será isto um mal? Só porque Kardec e os espíritos da codificação não falaram sobre o assunto, inexistente àquela época, não significa que não possamos nos apropriar dos infinitos benefícios que o relaxamento e outras práticas de auto-ajuda podem nos oferecer.

Certamente não podemos ser diferenciados como ser humano espírita e ser humano do mundo. Nossa vida é uma contínua interação entre a mente, os corpos físico e espiritual, as emoções, os sentimentos, que a cada passo sofrem atritos internos e externos, motivados pelas situações que vamos vivenciando e, tudo isso, acrescido ainda das pressões procedentes do inconsciente, da ambiência das imagens ali arquivadas ao longo dos tempos. Somos seres complexos e como tais precisamos ser vistos e ajudados.

Também se fala muito em autoconhecimento nos meios espíritas, mas de que adianta nós nos conhecermos e não lançarmos mão dos recursos da auto-ajuda, que nos auxiliem efetivamente em nosso crescimento como seres plenos?

Se o nosso inconsciente, conforme afirmou Divaldo Franco, é um porão repleto de imagens carregadas de angústia, frustrações, mágoas e sofrimentos os mais variados, nossas chances de encontrar equilíbrio psíquico e bem-estar são bem menores, enquanto não conseguirmos realizar uma transmutação, ao menos de parte dessas imagens, desse energismo pesado. E um recurso dos mais poderosos para essa transmutação está nas visualizações de teor positivo. Com elas, ou através delas, também podemos re-condicionar nosso inconsciente e/ou subconsciente a posturas mais benéficas, num trabalho interior que vai às raízes do problema.

Há infinitas formas de auto-ajuda. Uma delas está em algumas palavras e frases que condicionam comportamentos, como “Eu sou luz, sou poder, sou amor, sou alegria”. Fazendo esta seqüência de afirmativas a nós mesmos, procurando imprimir em nosso EU a vibração que estas idéias representam, estamos condicionando nossos estados de espírito de forma positiva. Imprimindo em nosso interior esta idéia “Eu sou luz”, estamos buscando desenvolver nossa conexão com o Criador. “Sou poder” nos favorece equilíbrio, força interior e nos ajuda a superar nossos medos. Alguém poderia dizer que isso gera orgulho, vaidade, mas quando em seguida afirmamos “Eu sou amor”, a própria idéia de “poder” toma nova conotação, deixando-nos perceber as infinitas possibilidades que ele nos oferece, como força propulsora da nossa evolução e como recurso divino do qual podemos lançar mão para auxiliar a nós mesmos e ao nosso próximo, das mais variadas maneiras. E aí cabe lembrar que Jesus disse “Sois deuses”, deixando entrever as formidáveis potencialidades do ser humano em ajudar-se e ao próximo.

Outra formidável ajuda para alguém que encontra dificuldades para desenvolver afeto, caminho para o amor (o maior dos valores e o mais importante dos mandamentos), está na seguinte prática: sempre que lembrar, dirigir mentalmente uma vibração afetuosa para os circunstantes. Ao olhar para qualquer pessoa, ou mesmo pensar em alguém, dizer mentalmente, procurando fazê-lo com afeto: “Que você esteja bem, com saúde, paz, equilíbrio... Que Deus te abençoe e te faça feliz!”. Com esse tipo de procedimento, certamente estará desenvolvendo o mais divino de todos os sentimentos, e de forma absolutamente desinteressada.

Como vemos, no âmbito da auto-ajuda há uma infinidade desses instrumentos extraordinários que podem alavancar nossa evolução. Por que não usá-los?

Dirigentes de instituições espíritas de mente aberta podem encontrar inúmeras maneiras de melhor conduzir as entidades que dirigem, como também ajudar os seareiros em suas dificuldades evolutivas. Há muitas práticas que podem ser implementadas visando fins os mais diversos. Num encontro de trabalhadores, por exemplo, pode-se realizar vez por outra a seguinte dinâmica: entregar a cada um uma folha de papel, onde deverão enumerar as qualidades daqueles companheiros que lhes são desagradáveis, a quem de alguma forma antipatizam, sem citar-lhes os nomes. Desafiá-los para ver quem conseguirá garimpar o maior número de valores. Isto leva todos a procurarem no outro o que tem de bom, em vez de apenas observarem o que não é bom.

Assim, é fácil perceber que através dos inúmeros recursos que a auto-ajuda nos oferece, podemos desenvolver condições internas mais amenas, mais fraternas, mais serenas e benevolentes; podemos aprender a criar nossos estados de espírito, a cultivar sentimentos de amor e de alteridade. São condições que favorecem o desenvolvimento das virtudes evangélicas, porque, quando alguém se encontra num estado de espírito benevolente, não se magoa ou se aborrece facilmente, conseguindo praticar a mansuetude e a humildade com menos dificuldade, e assim por diante.

Quanto a criar estados de espírito favoráveis ao equilíbrio e bem-estar, lembramos o quanto eles também são fundamentais para a saúde. No início de setembro de 2003, os jornais noticiaram o resultado de uma pesquisa científica realizada na universidade de Wisconsin, Estados Unidos, comprovando que os pensamentos negativos enfraquecem o sistema imunológico, enquanto os positivos o fortalecem.

Atividades de auto-ajuda, ou valores humanos, como prefiram chamá-las, quando bem orientadas, valorizam infinitamente essa questão dos pensamentos, desde o momento em que começam a formar-se na intimidade da alma. Também ajudam a desenvolver um censor interno que alerte sempre que os pensamentos estejam a caminho de desviar-se para rumos incompatíveis com o bem próprio e geral. Pense em como seria proveitoso os centros espíritas criarem reuniões dessa natureza para seus trabalhadores e para o público externo, sob as luzes do conhecimento espírita e também dos saberes que o mundo moderno proporciona.

 

 

O livro de nossa autoria Práticas para o bem-viver contém inúmeros exercícios simples e práticos, que ajudam a relaxar e a desenvolver estados de espírito positivos, fraternos, pacíficos e confiantes. Os exercícios do CD que o acompanha foram todos elaborados visando esses mesmos fins.

A auto-ajuda apresenta inúmeras facetas, desde aquelas que ajudam as pessoas a pensar positivamente e a trabalhar suas emoções de forma saudável, até aquelas outras que atuam em nível físico. É poderoso recurso em nossa reforma moral e crescimento interior.

Para ilustrar como ela pode ser bem utilizada, quando nos propomos a tanto, vamos contar o que aconteceu com Romano. A narrativa é verdadeira, embora o nome seja fictício.

“Romano decidiu-se: iria iniciar, de fato, a reforma interior”.

Vinha pensando nela desde que se tornara espírita, há mais de quinze anos. Lembrava-se dela sempre que ouvia alguma palestra ou lia algo sobre o assunto e dizia a si mesmo: ‘Eu preciso realmente me corrigir em muitas coisas, principalmente no que diz respeito à prepotência, que é o meu pior defeito’.

Mas os turbilhões da vida envolviam essas decisões nas brumas do esquecimento e, somente depois de novos atos ou atitudes marcadamente prepotentes, Romano se dava conta de que continuava o mesmo.

O sonho que tivera naquela noite, porém, fora decisivo. Via-se perambulando pelo Umbral, em ambientes horríveis, assustadores, e trazia no pulso um estranho bracelete com uma plaqueta de identificação, na qual estava escrito: “Vale dos Prepotentes”. A angústia que sentia era medonha, e o medo terrível que o dominava deixava-o inerte diante dos monstros que o cercavam, numa clara demonstração de que queriam levá-lo ainda mais para baixo, para zonas ainda mais tenebrosas. Despertou todo trêmulo, suando frio, e custou-lhe bastante entender que se tratara de um sonho.

Não. Decididamente, não iria parar naquele horrendo lugar depois que desencarnasse. Cuidaria de corrigir-se quanto à prepotência, a partir daquele momento. Seria a sua prioridade absoluta.

Passou então a pensar no assunto, meditar nele, analisá-lo, até concluir que o problema, a dificuldade, estava na memória... ou na falta dela. Era preciso algo que pudesse lembrar-lhe continuamente a sua decisão, sempre antes de praticar a prepotência, a fim de poder frear-se a tempo porque, depois de vivida, só lhe restaria o arrependimento e novas promessas a si mesmo, novamente descumpridas.

À sua mente voltou com insistência a cena do sonho e, particularmente, aquele estranho bracelete de identificação, como se ali estivesse a chave da questão.

Quase deu um pulo quando uma idéia surgiu em seu pensamento. Saiu correndo e foi a uma loja de bijuterias onde comprou um bracelete, desses que têm uma plaqueta para gravar o nome. Pensou em mandar gravar os dizeres Vale dos Prepotentes, mas desistiu de imediato, pois o que mais queria era permanecer o mais longe possível daquele lugar, e resolveu deixar o bracelete sem qualquer inscrição. Não seria necessária.

Na rua, achou-se um tanto esquisito e mesmo ridículo com aquele objeto no pulso, mas lembrou que qualquer sacrifício seria válido para escapar ao tenebroso Vale.

Na manhã seguinte, ao sair para o trabalho, teve de correr quase dois quarteirões para apanhar o ônibus, que cortara caminho.

Indignado, ao pagar a passagem, dirigiu-se ao cobrador com aquele ar de superioridade que tão bem sabia ostentar:

– Por que vocês resolveram cortar caminho, passando longe do ponto?

Ia dizer mais algumas “verdades”, mas, ao levantar a mão para segurar-se, sentiu o bracelete e lembrou-se de seu propósito, da sua prioridade, escapar ao Vale dos Prepotentes.

Enquanto isso, o cobrador respondia que o caso era com o motorista, cujos cabelos grisalhos podia ver do local em que se encontrava.

Para amenizar, comentou, procurando levar na brincadeira:

– É... vai ver ele está tão velho e cansado que resolveu encurtar a viagem.

Encontrou um assento vago, próximo ao motorista. Sentia-se indignado. Aquele homem não tinha o direito de cortar caminho e deixar pessoas esperando no ponto ou saírem a correr atrás do coletivo.

Mas o contato da pulseira com a pele do braço formava uma espécie de elo psicológico com o propósito que fizera. Amansou o tom de voz e procurou fazer a pergunta com o máximo de gentileza:

– Que foi que houve para o senhor cortar caminho?

Já era um grande avanço porque, antes, teria logo começado a vituperá-lo pela falta de consideração para com os usuários.

O interpelado olhou para ele, sorriu com simpatia e respondeu:

- É que tem uma carreta atravessada na rua de cima e não está dando para passar por lá.

Romano sentiu-se envergonhado... muito envergonhado. Julgara o motorista, considerando-o displicente e irresponsável. Era, aliás, a idéia que fazia deles. E aquele homem de cabelos grisalhos, sob o peso dos anos, precisando ainda trabalhar, sorrira-lhe com ar sincero e fraterno, dando a explicação.

– Que diferença entre nós dois – pensou. –Eu, todo prepotente, achando-me cheio de direitos e ele, apesar da idade e dos desgastes naturais, dando-me explicações com amabilidade.

Pensou nas vibrações pesadas que certamente enviara àquele homem através do pensamento e dos sentimentos antifraternos. Rapidamente modificou seu estado de espírito e passou a enviar-lhe vibrações positivas, benéficas, desejando-lhe sinceramente saúde, prosperidade, bem-estar...

Romano passou o restante do trajeto a meditar no ocorrido, analisando a si mesmo, as suas posturas, de forma tão sincera e profunda como jamais fizera. Percebia com extrema clareza que a reforma íntima precisa estar entre as principais prioridades de quem realmente deseja realizá-la; que é necessário pensar nela continuamente, da mesma forma como costumamos pensar em algo que estamos planejando executar. Isto deve gerar memória e, com ela, aquele “censor interno” que nos alerte sempre que estejamos a ponto de cometer o indevido. Essa censura antecipada é justamente o mecanismo de que precisamos a fim de podermos sustar nossas disposições negativas, antes que aconteçam.

Num impulso incontido, beijou o bracelete, sentindo-o, não como um amuleto, mas como o lembrete que iria ajudá-lo a se corrigir ou pelo menos atenuar significativamente a sua prepotência.

Sentiu-se feliz. Havia encontrado um roteiro e estabelecido um programa que, por certo, iria livrá-lo de um estágio no Vale dos Prepotentes, depois que desencarnasse.”

Abençoados caminhos da auto-ajuda.

 

Uma receita simples e prática

Quando nos empenhamos verdadeiramente em nossa reforma íntima, ou crescimento interior, começamos logo a encontrar vários recursos que podem alavancar esse crescimento, e percebemos também quanto é importante buscarmos simplificar essa tarefa.

No livrinho que deu motivação a este, NOSSO ENDEREÇO DE LUZ pede mudanças, apresentamos um desses recursos, que se resume em imprimir sempre em todo o ser um sentimento de fraternidade ou de amor pleno, dentro de um enfoque alteritário.

O amor, quando vivenciado junto com a alteridade, representa um extraordinário empuxo evolutivo.

No amor estão embutidas todas as demais virtudes, e na alteridade encontramos o melhor instrumento para uma convivência fraterna e harmoniosa.

O amor inclui a solidariedade, a compreensão, o perdão, a ajuda mútua, a humildade...

O amor exclui o despeito, a maledicência, os melindres, as fofocas, as críticas negativas, as malquerenças, o orgulho, a vaidade, o despeito, a ambição...

Imagine-se a seguinte situação:

“Alguém faz uma auto-avaliação e conclui que está precisando corrigir-se do melindre, da vaidade, do egoísmo, da prepotência e do rancor, entendendo que deve priorizar o combate ao egoísmo, seu valor negativo mais forte, para depois passar para os demais, cinco ao todo”.

Mesmo que fique ligado, tempo integral, na determinação de liberar-se do egoísmo, quanto tempo levará para consegui-lo?

E os outros quatro valores negativos restantes?

Mas, se essa pessoa se fixa em apenas uma ação constante, a de imprimir em seus sentimentos o amor pleno, com essa única ação estará transmutando aqueles cinco valores negativos em positivos.

Se acrescentar a esse foco a alteridade, com essa ação dupla – imprimir em todo o ser o amor e a alteridade –, estará trabalhando intensa e plenamente pelo ganho de valores morais e espirituais, ou seja, pela sua reforma íntima.

Os sentimentos de amor e fraternidade no âmbito físico têm o poder de relaxar, eliminar estresse e possibilitar melhor circulação de energias no organismo, além de fortalecer o sistema imunológico. Equivale a saúde e bem-estar.

No âmbito espiritual são o melhor antídoto para o orgulho, o egoísmo, a ambição, a ganância, a agressividade e tantos outros valores negativos. Predispõem à paz, brandura, bom relacionamento, compreensão, tolerância, equilíbrio e diversos outros valores positivos, abrindo caminhos para a sabedoria.

O amor é um estado de espírito. A alteridade representa um elevado nível de compreensão.

Os sentimentos fraternos e alteritários, envoltos em júbilo, refletem o esplendor das leis de Deus. Imprimi-los continuamente nas próprias emoções é caminhar nessa luz.

Esta é uma das maneiras mais fáceis de crescer interiormente. Basta querer.

 

Disputas pelo poder

 

Será que os modelos de organização administrativa mais utilizados nas instituições espíritas não estarão favorecendo disputas pelo poder?

Se a direção da casa é constituída pelo presidente, secretário e tesoureiro, com seus respectivos vices, ou seja, por número mínimo de responsáveis, e é mudada a cada dois ou três anos, como ocorre nos formatos habituais, isto certamente gera disputa eleitoreira, principalmente nas instituições de grande porte.

No país, em ano de eleição, modifica-se o próprio ritmo de vida. Os poderes executivo e legislativo envolvem-se tão intensamente nas disputas pelo voto, ou seja, pelo poder, que acabam desenvolvendo ações ou omissões visando seus próprios interesses, em prejuízo da comunidade que administram, e quando acontece a mudança na direção, vem com ela a “farra do bolo”, cada qual querendo abocanhar os melhore pedaços, e muitos cargos são preenchidos com pessoas incompetentes, só porque fazem parte da “panelinha’. Isto é o que normalmente acontece, não só Brasil, mas em toda parte.

Também em muitas instituições espíritas ocorrem essas disputas pelo poder, em maiores ou menores proporções. Tais disputas são péssimas. Desarmonizam o ambiente e prejudicam o bom convívio, gerando animosidades, queixas, mágoas, críticas, ciumeira, rancores e até mesmo exclusões e discriminação, com prejuízos em todas as atividades da casa.

Conheci recentemente um centro espírita de porte médio, onde são realizados trabalhos de cura. Já tinha ouvido falar sobre essa casa e muito do que ouvia vinha carregado com tons de censura e crítica, pelo entendimento de que não se pratica ali o “puro Espiritismo”, já que as sessões de desobsessão são abertas ao público e há nas paredes retratos de Bezerra de Menezes e do Padre Cícero; durante a aplicação dos passes, é possível sentir-se um cheirinho de incenso espalhando-se no ar, e como se não fosse o bastante, uma lojinha nos fundos do grande salão vende, além de livros espíritas, coisas tais como anjos, mantras e outros objetos da linha esotérica.

Mas, quando entrei naquele centro todas as minhas defesas, criadas pelos comentários que ouvira, vieram abaixo. Ali se respirava o mais puro amor, e pude perceber a presença de espíritos de elevada condição pela intensa emoção que tomou conta de mim, de tal sorte que mal conseguia segurar as lágrimas.

Mais tarde, conversando com uma trabalhadora da casa, soube que ali há apenas três regras: amor, dedicação e caridade. Perguntei quem era o dirigente.

– Não sei... acho que é Fulano – respondeu -, aquele médium que é responsável pelas curas, mas também tem Sicrano e Beltrano e outros que são responsáveis pelos passes, as palestras e o estudo do Evangelho.

– E o prédio... é de quem? – Perguntei.

– Acho que é de Fulano, pois foi ele quem o construiu, há mais de 10 anos.

Estava impressionada. Como podia uma instituição como aquela, que atendia grande número de necessitados de toda ordem, não ter uma diretoria nitidamente constituída? Ou, quem sabe, era justamente esse fato que permitia a todos trabalharem sob uma única diretriz, a do amor?

Ante a minha perplexidade, a companheira explicou:

– Aqui não temos necessidade de eleições, nem mesmo de uma diretoria. Todos trabalhamos em harmonia, cada qual na sua função e ajudando os demais sempre que possível. Os dirigentes estão sempre nos incentivando a vivenciar os ensinamentos de Jesus e nos recomendam com muita insistência que devemos receber os que chegam a esta casa com muita amabilidade, com muita atenção e amor. A lei aqui é o amor, acima de tudo.

Saí, refletindo que, certamente, é esse amor que possibilita a ocorrência de tantas curas que ali vêm sendo registradas ao longo dos anos.

Será que aquela instituição teria conseguido criar e manter tal ambiente, se ali ocorressem eleições a cada dois anos, com mudanças de diretoria, diretrizes, cargos e funções?

Há alguns anos, conheci um centro espírita de grande porte, onde o presidente só o era no papel e na representação oficial da casa, mas esta era dirigida por um conselho, formado por todos os responsáveis pelas mais diversas atividades, desde a tesouraria até os serviços de limpeza, e qualquer trabalhador tinha o direito de participar das suas reuniões. Ali não havia uma diretoria, mas uma equipe trabalhando pelo bem da instituição e, principalmente, daqueles que a procuravam, necessitados de ajuda ou desejosos de conhecer o Espiritismo. Os responsáveis pelas mais diversas atividades do centro eram escolhidos, quando necessário, pelos conselheiros que ouviam os demais trabalhadores da instituição antes das escolhas. Assim, os mandatos não eram coincidentes, o que não gerava solução de continuidade.

Mas há também no universo espírita instituições que nunca mudam a direção e, quando acontece de esta ser formada por pessoas realmente competentes e voltadas exclusivamente para o bem da casa, tudo corre bem, mas quando esse ou esses dirigentes são pessoas incompetentes, personalistas, de natureza ditadora, fechadas para sugestões e críticas, nada vai como deveria ir num ambiente orientado pelas diretrizes de uma doutrina aberta e libertária como é a espírita.

Diante de tantos conflitos, problemas e indagações, não seria o caso de iniciar-se um amplo questionamento a respeito, visando encontrar melhores e mais adequados formatos administrativos para as instituições espíritas?

Mudanças nesses formatos certamente representariam imensos ganhos para os centros e para o próprio movimento.

 

Frei Betto

 

Falamos muito sobre alteridade, na parte que nos cabe neste livro. Para encerrá-la, nada melhor que pinçar alguns trechos de um artigo que circulou na Internet de Frei Betto sobre esse tema.

“O que é alteridade? É ser capaz de apreender o outro na plenitude da sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença. Quanto menos alteridade existe nas relações pessoais e sociais, mais conflitos ocorrem.

A nossa tendência é colonizar o outro, ou partir do princípio de que eu sei e ensino para ele. Ele não sabe. Eu sei melhor e sei mais do que ele. Toda a estrutura do ensino no Brasil, criticada pelo professor Paulo Freire, é fundada nessa concepção. O professor ensina e o aluno aprende. É evidente que nós sabemos algumas coisas e aqueles que não foram à escola sabem outras tantas, e graças a essa complementação vivemos em sociedade. Como disse um operário num curso de educação popular: "Sei que, como todo mundo, não sei muitas coisas”.

Numa sociedade como a brasileira, em que o apartheid é tão arraigado, predomina a concepção de que aqueles que fazem serviço braçal não sabem, no entanto, nós que fomos formados como anjos barrocos da Bahia e de Minas, que só têm cabeça e não têm corpo, não sabemos o que fazer das mãos. Passamos anos na escola, saímos com Ph.D., porém não sabemos cozinhar, costurar, trocar uma tomada ou um interruptor, identificar o defeito do automóvel... e nos consideramos eruditos. E o que é pior, não temos equilíbrio emocional para lidar com as relações de alteridade.

Por isso, agora, substituíram o Q.I. pelo Q.E., o Quociente Intelectual pelo Quociente Emocional. Por quê? Porque as empresas estão constatando que há, entre seus altos funcionários, uns meninões infantilizados, que não conseguem lidar com o conflito, discutir com o colega de trabalho, receber uma advertência do chefe e, muito menos, fazer uma crítica ao chefe.

 Aqui entra a perspectiva da generosidade. Só existe generosidade na medida em que percebo o outro como outro e a diferença do outro em relação a mim. Então sou capaz de entrar em relação com ele pela única via possível, a via do amor, se quisermos usar uma expressão evangélica; a via do respeito, se quisermos usar uma expressão ética; a via do reconhecimento dos seus direitos, se quisermos usar uma expressão jurídica; a via do resgate do realce da sua dignidade como ser humano, se quisermos usar uma expressão moral. Isso supõe a via mais curta da comunicação humana, que é o diálogo e a capacidade de entender o outro a partir da sua experiência de vida e da sua interioridade.”

 

 

Segunda parte

Simone Ivo Sousa

 

A necessidade das relações sociais e a alteridade

 

 

“A perfeição, como asseverou Jesus, encontra-se inteiramente na prática da caridade sem limites, pois os deveres da caridade abrangem todas as posições sociais, desde a mais ínfima até a mais elevada. Nenhuma caridade teria a praticar o homem que vivesse isolado. Somente no contato com semelhantes, nas lutas mais penosas, ele encontra a ocasião de praticá-la. Aquele que se isola, portanto, afasta de si, voluntariamente, o mais poderoso meio de perfeição: só tendo de pensar em si, sua vida assemelha-se à de um egoísta”.

(O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVII - item 10)

 

Utilizando-nos dessa afirmativa contida em O Evangelho Segundo o, iniciaremos nossas reflexões acerca da necessidade do convívio social para os homens e de um constante melhoramento desse convívio na busca do aprimoramento do espírito. Ele deixa claro que somente através do contato com as diferenças e nos embates de aceitação do outro é que vamos desenvolvendo amor, em busca da perfeição.

Em tudo podemos observar como a administração divina nos agrupa, a fim de adquirirmos, nas experiências em comum, o conhecimento e a sociabilidade e, através do convívio, termos a oportunidade de aprender a dialogar, em permanente troca de experiências.

A não aceitação das diferenças tem sido, desde priscas eras, a fonte geradora de inúmeros conflitos humanos. Cultivamos toda sorte de discriminação em face das divergências e diferenciais que nos caracterizam. Exclui-se, mata-se, escraviza-se por causa da diferença de crença, de cor de pele, de origem, de condição financeira, etc.

Caminhando pela trilha da intolerância, vamos observar muitos outros episódios lamentáveis, cujo rastro de sangue macula a história da trajetória humana sobre a Terra, por causa das diferenças, especialmente no campo religioso. Também no racial isto ficou patente na última guerra mundial, com a dizimação de milhares de judeus pelos nazistas. Alegando a importância da criação e manutenção de uma raça pura, foram condenados à morte os débeis, os deficientes, enfim, os diferentes de tudo o que não representasse uma raça ariana.

No Oriente Médio, as constantes guerras têm sido em nome da crença que possuem seus adeptos. Revestindo-se de verdadeiros representantes de Deus na Terra, matam, mutilam, julgam aqueles que são considerados infiéis.

Em tudo podemos observar a percepção equivocada que o homem teve (e em muitos casos ainda tem) de Deus, numa concepção antropomórfica, que faz a distinção entre bons e maus, certo e errado, de acordo com os conceitos humanos, ou seja, um Deus que julga, condena, infringe as leis naturais, comete arbitrariedades, etc. Instituiu-se dessa forma normas humanas que legalizam a violência e a brutalidade, a intolerância e a desigualdade, disfarçadas de “vontade divina”.

Valorizam-se tanto as diferenças que não se observa que somente a solidariedade conduz à plenificação do amor em nós, e nos aproxima da proposta do Cristo de amarmo-nos uns aos outros.

Escusarmo-nos de priorizar a reforma moral, especialmente nos meios espíritas, é continuar na maior miséria que o ser humano pode sofrer, que não é a do bolso mas a da alma.

Num movimento em favor da paz em todos os âmbitos, Mahatma (significa grande alma) Gandhi afirmava que a "Violência é criada pela desigualdade, a não violência pela igualdade". Em sua luta por essa igualdade de direitos do povo hindu em relação ao povo inglês, ele utilizou-se do chamado “ódio de preceito”, em que o abominável era o pecado e não o pecador e nessa linha de conduta e raciocínio apontava que desde que se vivia espiritualmente, “ferir ou atacar outra pessoa é atacar a si mesmo” . Ou melhor: na proposta da não-violência ou desobediência civil, podemos atacar um sistema injusto, mas sempre devemos amar e respeitar as pessoas envolvidas.

Observamos toda a coerência da sua luta e do seu pensamento, quando viveu tudo o que pregou, ainda que seu desencarne tenha sido através de um ato violento. Semelhantemente ao Cristo, Gandhi também nos últimos suspiros perdoou o seu algoz, deixando na história seu exemplo luminiscente que lhe justifica o título de grande alma.

Muito embora possamos elaborar um verdadeiro tratado de fatos históricos que retratam a intolerância às diferenças e observar em que eles culminaram, com o estabelecimento de atrasos e preconceitos de todo jaez, ainda assim, vemos que através deles o homem conseguiu crescer; as sociedades tiveram a oportunidade de refletir, rever conceitos e estar hoje caminhando de maneira um pouco mais harmônica na jornada em busca do estabelecimento da tolerância e da paz.

Dentro dessa proposta, de manutenção do respeito a todas as criaturas e ao desenvolvimento harmônico das relações, temos uma grande aliada, que é o estabelecimento de uma cultura alteritária, encetada pela ABRADE .

Voltamos a nos reportar à citação no topo deste capítulo, que nos concita a refletirmos que sozinhos não podemos crescer, muito menos evoluir.

O contato com o outro abre-nos um leque de possibilidades de exercício de vários valores e atributos que nos conduzem à perfeição, pois a aplicação da caridade nas relações interpessoais implica no respeito, na aceitação, na compreensão, na tolerância e, impreterivelmente, no exercício do amor, que é ao final um objetivo da alteridade.

A sua aplicação melhora as relações sociais, não somente no lar – que consideramos nossa melhor oficina de trabalho para crescimento interior – mas também no convívio, no ambiente profissional, na instituição religiosa a que estamos vinculados, nas relações sociais enfim.

A compreensão da nossa singularidade como indivíduos e das infinitas diferenças que nos caracterizam é o primeiro passo para a instalação de uma cultura alteritária, o que não implica em conivência ou omissão em determinadas situações. A partir desse pressuposto, passamos a estabelecer dentro de nós a idéia de que a ninguém cabe o direito de julgar os valores do outro e começamos a nos perceber como irmãos, que, estando imperfeitos, fazem suas escolhas individualmente e aceitam que o outro – assim como nós –, por possuir seus valores e ideais, muitas vezes se distancie do protótipo que criamos de irmão.

Importa nesse processo passarmos a perceber que o que nos separa não deve destruir o que nos une e que o outro, muito embora por caminhos diversos dos nossos, assim  como nós, também está buscando o seu roteiro de conduta; o que ao nosso ver pode parecer uma escolha equivocada, para o outro pode ser o seu melhor modo de conduzir-se.

Observemos a conduta de Jesus. Ele sempre expôs suas idéias e propostas de melhoramento da criatura, conduzindo o homem a tirar suas conclusões e fazer suas próprias opções, jamais impondo a quem quer que fosse seus valores e conceitos, dando-nos a lição imorredoura do respeito ao livre-arbítrio alheio.

Indo de encontro a tudo o que era estabelecido de aceitável no campo do convívio social, Jesus rompeu todas as fronteiras do preconceito e do que era instituído como “normal”, acolhendo leprosos, indo ter com cobradores de impostos, compreendendo prostitutas, respeitando os que pensavam diferentemente dele e permanecendo amoroso com o seu traidor, indo buscá-lo nos precipícios umbralinos após seu desencarne.

Definitivamente, Jesus é o modelo e guia da humanidade, bem como um ser alteritário por excelência e seu rastro de luz ainda permanece incandescente, mostrando-nos a imutável realidade de que Ele é de fato “o Caminho, a Verdade e a Vida”.

 

 

 

Aplicando a alteridade no convívio familiar

 

“(...) A semelhança de gostos, a identidade de progresso moral e afeição levam os Espíritos a se reunirem, formando famílias. (...) Mas como não devem trabalhar somente para si, Deus permite que Espíritos menos avançados venham encarnar-se entre eles, para aí buscarem os conselhos e bons exemplos que interessam ao seu adiantamento. Por vezes causam perturbações, mas nisso está a prova, e nisso está a tarefa.”

(Santo Agostinho – O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XIV - item 9)

 

A composição familiar em um mundo de provas e expiações nem sempre é feita por espíritos afins, mas por necessidades de reajuste em conjunto, tal qual uma oficina de crescimento mútuo em que todos temos ocasião de trabalhar. É nela que encontramos as oportunidades de burilamento e de aprendizado, que são, muitas vezes, as mais difíceis da jornada terrena.

Em contrapartida, é onde podemos também conviver com espíritos simpáticos, companheiros de outras romagens, em aprendizados de amor, que nos ofertam grandes emoções e alegrias partilhadas.

As experiências que nos são ofertadas no convívio familiar representam benditas oportunidades de evoluir, mas raramente acatamos esses convites, em razão do orgulho e do egoísmo que ainda residem nós.

No convívio familiar, podemos observar que existem aqueles que se escudam na proposta de “querer o melhor” para o outro, por isso impõe-lhe o que consideram como esse melhor, manipulando para que o outro faça o que eles querem, alegando que é por amor, por não quererem que o outro sofra, e assim por diante.

Manipular, impor, induzir o outro a agir de maneira a nos satisfazer os caprichos, não é amar, mas a expressão tácita do egoísmo que ainda existe em nós.

Através da aplicação da alteridade na rotina do convívio familiar, é-nos facultada a possibilidade de, em se respeitando as diferenças, estabelecermos o respeito mútuo, procurando não violentar o outro com as nossas expectativas do que consideramos ser o certo, o mais adequado e jamais impondo-lhe algo, visando a nossa necessidade de satisfação. Respeitar, a nosso ver, é um dos melhores meios de vivenciar o amor. O mesmo se dá com relação a fazer uso da cordialidade e da delicadeza, que, muitas vezes, passa a inexistir no convívio familiar, por considerarmos dispensável um pedido de  desculpas, quando estamos equivocados em determinadas situações.

É no ambiente familiar que somos fundamentalmente nós mesmos, sem artifícios, sem máscaras, sem disfarces. Atropelam-se tanto as regras das convenções sociais que atitudes simples como o uso das frases “me desculpe” e “me perdoe”, quando estão para ser ditas, dão a sensação de que entalaram na garganta e não conseguem ser verbalizadas ou pronunciadas. Por essa dificuldade de expressarmos o mínimo de humildade, passamos o recibo de que isso não é necessário, que é dispensável, pois o outro entendeu que não queríamos magoar, e assim perdemos a oportunidade de exercitar tanto a humildade quanto o amor.

Certa vez, uma pessoa muito amada nos falou que era bem mais fácil magoarmos alguém que sabíamos que nos amava, que magoarmos a um estranho, por intuirmos que o estranho provavelmente revidaria no ato, o que é sempre uma possibilidade.

Especialmente em família, acreditamos que o outro sempre estará disponível a nos compreender, muito embora a recíproca não seja verdadeira, e vamos levando a relação “com a barriga”, deixando para amanhã o amor que podemos aprender no hoje, esperando sempre que a iniciativa seja do outro e não nossa. Ou então, caímos na tentação de desistir do outro, simplesmente por não ser fácil encontrar as semelhanças que conduzam a um diálogo sereno e fraterno, afirmando de chofre que o outro não tem jeito. Façamos uma reflexão: já imaginou como seria se Deus pensasse assim de nós?!

Assim, estamos sempre esperando receber o que muitas vezes não concedemos, agindo com o outro diversamente do que gostaríamos que fosse feito a nós, esquivando-nos da tarefa que somente a nós cabe, de trabalharmos nossas imperfeições, transferindo essa responsabilidade ao outro ou a algo externo a nós, expressando mais uma vez o nosso egoísmo e tornando-nos fundamentalmente infelizes e insatisfeitos com os nossos semelhantes.

 Nesse torvelinho de transferências, passamos a esquecer que estamos no lugar que necessitamos estar, convivendo com quem necessitamos conviver e tendo a oportunidade de ouro que pedimos a Deus de reajuste e reparação, que seria a porta da felicidade que poderíamos ter no agora, optando pela alteridade que conduz ao amor.

 

 

 

É possível aplicar a alteridade no ambiente profissional?

 

 

No contato laborial, em que nos encontramos com criaturas também diferentes, em circunstâncias diversas da familiar, em que a hierarquia se manifesta mais claramente e em que necessitamos fazer o uso das máscaras que escondem o nosso verdadeiro eu – também nos deparamos com situações nas quais o uso da alteridade melhoraria substancialmente o convívio, especialmente na compreensão de que estamos lidando com um outro ser humano, também espírito imortal, que igualmente como nós anseia por paz e equilíbrio. Por um enfoque alteritário, cai por terra a idéia de que estamos lidando com um algoz e passamos a compreendê-lo como um irmão de jornada, com o qual temos que conviver bem mais que com um familiar, pois, em razão da jornada de trabalho, passamos mais tempo no emprego que no lar.

Certamente, o ambiente profissional muitas vezes não propicia oportunidades de reflexão ou de estabelecimento de uma cultura humanitária, por causa dos compromissos, prazos e metas a cumprir, da concorrência interna, etc. Mas uma postura alteritária sempre representa um poderoso instrumento para o melhoramento das relações interpessoais. Algumas empresas já compreenderam que a produtividade é bem maior quando há funcionários menos estressados, de bem consigo mesmos e com os companheiros de trabalho. É uma tendência dos tempos modernos, embora muitas ainda permaneçam desconhecendo essa tendência e sufocando ideais tão nobres.

Mas ainda que você esteja vinculado a uma empresa que seja meio termo ou um dos extremos citados, antes de explodir internamente, com o colega mais próximo, ou com o cliente do outro lado da linha, permita-se respirar profundamente e pensar no que você queria para si, se estivesse na condição do outro. Refresque a  mente por segundos, pensando que tudo é passageiro e que você tem o que muitos queriam e não têm; que todos somos dignos de uma oportunidade, somos filhos de um mesmo pai; que estamos todos caminhando numa mesma estrada, pela qual inevitavelmente passaremos várias vezes e que é melhor tapar os buracos, tirar as pedras do caminho, jogar boas sementes para que elas germinem e embelezem suas margens, do que fazer buracos, pôr obstáculos e enfeiar o percurso que certamente haveremos de fazer de volta.

Pensar no melhor, fazer o melhor, querer o melhor sempre tendo o outro como ponto de partida, é iniciar um processo de crescimento interior que nos conduzirá inevitavelmente à extinção do nosso egoísmo de maneira paulatina e constante.

Ah, mas existe sempre aquele irmãozinho que é o nosso calcanhar de Aquiles, o teste constante à nossa paciência e tolerância, aquela criaturinha que nunca está como esperamos que esteja. E aí, como ser espírita e alteritário, sem deixar-se envolver pelas sombras e pelos sentimentos infelizes, desperdiçando a oportunidade de crescer?

Para tanto, é necessário começarmos por compreender que ninguém é feliz por ser desagradável. Na vida todos atravessamos circunstâncias que nos aborrecem e nos conduzem à tristeza, à frustração, à raiva e a emoções diversas que consideramos difíceis. Isso pode complicar ou atrapalhar nossas melhores intenções de aplicar a alteridade no ambiente profissional. Assim, o melhor é sempre optar pelo amor e pela compreensão; aplicar a política da indulgência, abonando o companheiro que está atravessando um período difícil e observando que aquela postura que muitas vezes parece empáfia ou superioridade pode estar mascarando um pedido de socorro. Lembremos sempre: somos todos criaturas em processo de aprendizado, não somos perfeitos, mas caminhamos para a perfeição.

Percebemos agora que temos duas opções básicas nas relações laboriais conflituosas: continuarmos nos desgastando dia após dia, adoecendo, aborrecendo-nos mutuamente; ou, ao contrário, buscarmos, através da tolerância que nos conduz à alteridade, observar o que podemos extrair de positivo desse convívio inevitável, respeitando e procurando no outro o que nele há de admirável e reconhecendo, ao mesmo tempo, as nossas próprias limitações e imperfeições. Também é importante buscar caminhos alternativos para um convívio mais saudável, encontrando o caminho do meio – como diria Buda – para a aceitação do outro não apenas como um “colega de trabalho”, mas como um irmão que, assim como nós, está nesse mundo de provas e expiações para crescer e aprender.

Essa aceitação vem para nós como um refrigério para a alma; muito embora isso represente um esforço constante até o alcançar de um clima fraterno, extensivo a todos no ambiente profissional, a nossa constância na manutenção da alteridade servirá também como um exemplo para o outro.

A diretriz primordial para a consecução do objetivo do ser alteritário em todos os momentos é a boa vontade e o querer ser, consorciado com a perseverança. Não há nada que se consiga sem o esforço, pois o Cristo já nos advertia: “Batei, batei e abrir-se-vos-á”. De nada adianta querer que as coisas mudem, se a mudança não começa em nós e por nós. Muitas vezes, vemos em reflexo no outro, aquilo que reside em nós, especialmente no que tange aos defeitos e imperfeições. Outras vezes, por exacerbação do nosso orgulho, cremos que devemos exaltar a nossa verdade em detrimento da verdade do outro e gritamos aos quatro cantos do mundo a nossa razão, quando na maioria das vezes importa saber calar. Esse é um dos mais óbvios sinais de poder sobre si próprio. Calar-se nos momentos críticos para não ajuizar sobre o que não se tem condições no momento, é também ser alteritário.

Xenocrates, há mais de trezentos anos antes de Cristo, afirmou: "me arrependo de coisas que disse, mas jamais de meu silêncio". Essa mensagem nos faz refletir sobre a importância do uso da razão e do silêncio nas situações difíceis que atravessamos, no convívio com os nossos semelhantes.

O silêncio nos faculta o tão importante tempo de que necessitamos para refletir sobre as soluções e opções que podemos ter, antes de proferirmos nosso veredicto. Isto, no entanto, não deve nos conduzir ao pieguismo, à covardia ou à omissão.

Trocar a discussão improfícua, o discurso inflamado, pelo silêncio ou por um sorriso fraterno pode fazer toda a diferença do mundo no final das contas. E se, aliado a isso, sobrar equilíbrio para proferir mentalmente uma prece e dirigir um pensamento de paz para o outro, com certeza, já se terá trilhado, no mínimo, um bom trecho no caminho da compreensão.

Essa é também uma ferramenta útil no âmbito do convívio na instituição espírita.

 

 

 

O melhoramento nas relações interpessoais na casa espírita e a alteridade

 

“Felizes serão os que disseram a seus irmãos: ‘Irmãos, trabalhemos juntos e unamos nossos esforços a fim de que o Senhor, ao chegar, encontre o trabalho acabado’. (...) Mas infeliz daqueles que, por suas dissensões, retardarem a hora da colheita”.

(“O Espírito de Verdade”, cap. XX - item 5)

 

 

Especialmente para nós que estamos, por escolha, diante de qualquer tarefa espírita, urge a necessidade de passarmos a introjetar nos nossos psiquismos os conceitos que mui facilmente distribuímos nos contatos com o público em geral, quer seja em palestras ou preleções, nos comentários do Evangelho, no atendimento fraterno, nas atividades mediúnicas ou como doutrinadores. Esses conceitos, que tão fartamente sabemos distribuir, devem ser intensamente vivenciados por nós mesmos no contato com os confrades que conosco dividem o espaço físico da casa espírita, na condição de colaboradores voluntários.

O que se distribui de conceito para o outro deve, antes de mais nada, atingir o nosso coração, espalhar-se por dentro de nós e refletir-se na nossa conduta. Essa nada mais é que a proposta da reforma íntima que devemos nos impor quando abraçamos a Doutrina Espírita, caminho da nossa evolução.

Para corroborar com essas ponderações, utilizamo-nos de uma frase de Francisco de Assis, que muito apropriadamente assevera: “é inútil caminhar para qualquer lugar a fim de pregar, a não ser que a nossa caminhada seja nossa pregação”.

Devemos reconhecer que, pelo fato de estarmos adeptos da Doutrina Clarificadora, buscando seguir os seus postulados, não significa dizer que somos criaturas melhores que as outras que buscam seu equilíbrio em outras filosofias de vida ou religiões. Daí concluirmos que os que fazemos as instituições espíritas estamos nela com nossas qualidades e imperfeições, buscando a cada dia aprimorar o que é bom e transmutar em valores positivos o que ainda há a ser melhorado nos nossos psiquismos.

Muito embora nem todos os confrades estejam conscientes dessa proposta, fazendo a parte que lhes cabe para a melhoria íntima, em boa parte, encontramos no movimento espírita em geral criaturas que já se predispuseram a esposar as lições luminosas da codificação, fazendo de suas vidas exemplos para muitos de nós.

Nazareno Tourinho, no livro Relações Humanas nos Centros Espíritas, traça um perfil dos irmãos com os quais podemos nos deparar na casa espírita e que podem vir a causar-nos embaraços no convívio diário. Segundo ele, estão assim catalogados: os amargurados, os maledicentes, os complexados, os presunçosos, os levianos, os neurastênicos, os pessimistas, os arredios, os fantasistas e os atormentados. Para cada um dos tipos, ele tece considerações diversas das razões que assim os qualificam e de como auxiliá-los através da tolerância, da compreensão e da caridade – atributos da conduta alteritária.

A nosso ver, um tipo em especial, o maledicente, pode ser melhor tratado com o antídoto indicado pelo autor e que também é o conselho multimilenar do Cristo, do  : vigiai e orai”, compreendendo que esse é um estado transitório pelo qual, se não mais estamos, por certo, já passamos.

Perder-se na crítica pura e simples, ou nos apontamentos das imperfeições alheias, em nada contribui para o melhoramento das relações interpessoais dentro da instituição espírita. Ao contrário, denota simplesmente o descuido que se tem para com o todo, pois, quando condenamos à fogueira um confrade, estamos nos condenando também. Cabe a todos nós a busca das soluções que irão nos clarear a jornada, melhorando o caminho do viandante com quem caminhamos.

No que se refere ao uso equivocado que muitos ainda fazem do conhecimento que adquiriram na seara espírita e que nela labutam na condição de voluntários, podemos nos utilizar da sabedoria do espírito de Manoel P. de Miranda, que tanto auxiliou no trato das obsessões, quando encarnado, e que hoje, na pátria espiritual, nos traz à luz verdades imutáveis da continuidade da vida além-túmulo e das vissicitudes a que estamos sujeitos pela inobservância aos compromissos assumidos antes da nossa vinda ao plano físico.

Ele nos explica que aqueles que, em conhecendo os postulados da codificação e da Doutrina Consoladora e não fazem o uso correto do conhecimento adquirido, optando por uma postura não condizente com a do bom aprendiz, tem sua razão de ser em face “das heranças ancestrais negativas e das múltiplas vinculações com o vício, cujos resíduos permanecem por longo período impregnando o perispírito, nem sempre o candidato à edificação de si mesmo consegue o objetivo a que se propõe. Para que isso aconteça, torna-se imprescindível todo o empenho e sacrifício pessoal, renunciando às fortes tendências perturbadoras, a fim de realizar a transformação moral imprescindível à felicidade”. Essa citação está contida na obra Tormentos da Obsessão, psicografada por Divaldo P. Franco, página 131. Por sinal, é uma obra ímpar, de leitura recomendável e obrigatória a todos nós, os espíritas.

Podemos assim observar que não temos como exigir perfeição, pois estamos todos na condição de aprendizes, reconhecendo, entretanto, que somente o conhecimento das verdades não é suficiente para a manutenção da proposta de melhoria íntima, sendo imprescindível a vivência dos postulados, o sacrifício pessoal e a renúncia ao que muitas vezes arrebatadoramente nos atrai. E a melhor forma de vivenciar os postulados é no contato com o outro, ainda que seja difícil ou complicado em algumas circunstâncias.

Aproveitando o ensejo da citação da obra supra, reproduzimos o que se segue sobre o conhecimento intelectual, que nos leva também a reflexões acerca do saber, que tantas vezes tem gerado distanciamento entre uns e outros confrades. Isto ocorre por causa das diferenças culturais e/ou de conhecimento doutrinário, quando os mais dotados desses conhecimentos, em alguns casos, consideram-se ou são considerados distintos dos demais e até mesmo intitulados de defensores da pureza doutrinária, assemelhando-se àqueles doutores da lei, cuja conduta Jesus repudiava:

“O conhecimento intelectual nem sempre oferece discernimento emocional e não são poucos aqueles que, possuidores de grande cultura, falham em questões pertinentes ao sentimento, ensoberbando-se e mantendo distância mental das pessoas que consideram inferiores. Infelizmente os preconceitos de toda ordem sempre surge na utópica superioridade daqueles que se atribuem valores que realmente não possuem. (...) Deus pôs o conhecimento na cabeça, para bem conduzir o indivíduo através da razão, porém, o sentimento foi colocado no coração para que a ardência das emoções possa derreter o gelo da inteligência” (idem op. cit., pag, 114)

A tendência dos senhores da verdade é ficarem sozinhos, lamentavelmente, pois ninguém gosta de estar ao lado de quem sempre sabe de tudo, negando ao outro a oportunidade de dar sua opinião ou tirar as suas próprias conclusões, esquecendo-se de que o conhecimento é tão abrangente que não cabe numa só cabeça, o que levou o filósofo grego Sócrates a afirmar com extrema lucidez: “Só sei que nada sei”.

Aplicando o princípio da alteridade no convívio na casa espírita e fazendo a opção pelo caminho mais fácil, que é o do respeito aos valores individuais, consorciado com a compreensão de que estamos todos imperfeitos, a dificuldade de aceitação começa a ruir, dando espaço a um ambiente mais fraternal e bem mais condizente com a propositura de Kardec, cujo lema é “Trabalho, Solidariedade e Tolerância”.

Habituamo-nos tanto às sombras, que temos a tendência de sempre complicar o simples. Respeitar as escolhas e as limitações alheias é fácil, se assim quisermos que seja. Uma construção mental possui a dimensão que o seu projetor quer que possua. A partir do momento em que nos predispomos a enxergar tudo com a luz clarificadora da compreensão e do respeito, tudo fica mais simples, mais fácil, mais acessível. E não se trata aqui de querermos ser simplistas ao ponto de fazer vista grossa para graves problemas de convívio. Trata-se tão somente de tentarmos fazer a nossa parte pela compreensão que a Doutrina Espírita nos fornece: de que fundamentalmente estamos em níveis diferentes de evolução, e por essa razão, também possuímos diferentes níveis de compreensão e de aplicação dos postulados espíritas em nosso viver e em nosso proceder.

Numa determinada ocasião, quando expúnhamos as idéias que hoje tomam corpo neste livro, de buscarmos um consenso para viver melhor dentro da casa espírita, uma amiga muito cara ao coração nos disse que tudo aquilo que falávamos era muito bonito de se ouvir, mas que era impraticável, uma utopia, e  que jamais deixariam de ocorrer certos deslizes de conduta que observamos por aí. Naquele instante, sentimos uma ponta de frustração por perceber que quem estava mais próximo de nós ainda não sonhava junto conosco. Coube-nos, naquele momento, somente uma resposta: temos que sonhar para que se torne real, porque a soma dos desejos calcados no Bem encontra eco em sentimentos semelhantes que pululam no Cosmos e se concretizam. Essa certeza é que nos anima e fortalece a cada dia, na busca de soluções.

Observamos que é muito comum ouvir-se o lamento de companheiros de jornada do quanto tem sido complicado conviver com x ou y na instituição espírita a que está vinculado e compreendemos que, de fato, existem ocasiões em que um companheiro põe o outro em situações delicadas... Mas atribuir a responsabilidade da reversão do quadro a um único elemento é não querer enxergar que a solução repousa sobre os ombros de ambos, pois somos todos responsáveis uns pelos outros.

Também se ouvem comentários quanto à formação de “panelinhas” ou grupos apartados do todo da casa, o que causa constrangimento e dá vazão à maledicência e a condutas reprocháveis, impróprias a um trabalhador da causa do Cristo. Situações assim têm levado alguns companheiros a optarem por sair da instituição, isto quando não são gentilmente convidados a retirarem-se.

Para melhor compreendermos esse tipo de associação humana, vamos nos valer das explicações dadas por Alberto Almeida, eminente expositor espírita paraense, num debate ocorrido no "I Encontro Estadual Espírita do Interior do Paraná", realizado na cidade de Foz do Iguaçu, em 1998.

Em seu entender, na medida em que essas "panelinhas" formam facções dentro da entidade espírita, em que nós compomos determinadas ações que estão apartadas do conjunto, não somos uma equipe de trabalho que faz parte desse conjunto, seremos um grupo de companheiros que está atuando dentro do movimento, rompido com a unidade da casa. Então, esse movimento, nessa circunstância, causa um descompasso, ele é perverso para a instituição e também para a "panelinha", comprometendo o conjunto inteiro. Dessa forma, é preciso reconhecer a diferença. Enquanto nos identificamos com alguns companheiros, formamos uma equipe de trabalho, mas quando dela nos isolamos, achamos que só nós fazemos o certo e que os outros fazem o errado e vice-versa. Com isso criamos “vários centros dentro de um centro espírita.”

 Observamos que esse tipo de aglutinação tanto pode ser positiva quanto negativa, a partir do sentimento que a anime, bem como é natural compreendermos que as pessoas se consorciem pela força da afinidade. Cabe-nos lembrar entretanto, a seguinte assertiva encontrada na resposta dada a Kardec à questão nº 298 de O Livro dos Espíritos: “Da discórdia nascem todos os males humanos; da concórdia resulta a felicidade completa”.

A utilização da alteridade irá nos ajudar a compreender e a trabalhar melhor a questão das diferenças comportamentais de todos os que nos propomos a ser trabalhadores voluntários na casa espírita.

O que se torna imprescindível de ser compreendido, antes de mais nada, é que todos são úteis e necessários dentro da casa espírita, muito embora não haja a simpatia perfeita a que se refere o Espírito Verdade, reportando-se à semelhança dos pensamentos e sentimentos na questão 302, de O Livro dos Espíritos.

No desenrolar do convívio dentro da casa espírita, não há o melhor ou o insubstituível, apesar de encontrarmos quem assim equivocadamente se intitule ou seja por outrem “eleito”. Todos somos necessários e úteis, com as nossas diferenças comportamentais e idiossincracias – aceitas ou não.

O que observamos nesses anos em que temos tido a honra de ser servidora do Cristo, dentro da proposta espírita em algumas casas, é que existem confrades que criam uma espécie de idolatria por uma determinada pessoa, tecendo comentários que podem vir a gerar vaidade naquele(a) de que é alvo, diferenciando-o dos demais, pelas verdadeiras ou pseudo virtudes que aquela determinada criatura possui, criando um diferencial entre este ou aquele servidor e que denota uma postura nada fraternal para com o elogiado e para com os que compõem aquele agrupamento, sendo fonte também geradora de conflitos.

Como dissemos anteriormente, todos somos necessários, muito embora em condições evolutivas diferentes. Essa consciência deveria ser o suficiente para não gerarmos esse tipo de diferencial comparativo de um ou outro servidor do Cristo na seara espírita, mas ainda existe quem assim proceda, conscientemente ou não, e que se torna responsável pela manutenção de um clima de divergência e anti-alteritário nas nossas instituições.

Pelas diferenças comportamentais que nos caracterizam, como poderemos, então, melhor aceitá-las e usá-las de maneira positiva para a instalação do alteritarismo no convívio comum, em nossas casas, não excluindo esse ou aquele companheiro?

Mais uma vez vamos nos utilizar dos sábios conselhos do confrade Alberto Almeida, quando diz que na casa espírita vamos encontrar os mais variados tipos humanos:

a) Os que são vinculados à prática, que só querem saber de fazer, fazer, fazer. São companheiros que podem ser aproveitados em diversas atividades, que estão sempre disponíveis para ajudar.

b) Os que gostam mais de ficar idealizando, sonhando, arquitetando. São excelentes para montar um planejamento, fazer avaliações de mudanças de estrutura da casa, e reavaliar a dinâmica de um grupo de trabalho.

c) Os que são extremamente racionais. Tudo têm que medir, codificar. Para esses, tudo precisa estar no quadro, numericamente. São companheiros extraordinários, que vão ocupar um bom espaço de trabalho no centro. Poderão ser excelentes diretores de finanças, fazendo as contas, a distribuição. Serão, na casa, a lógica funcionando.

d) Os que são mais emocionais, mais afetivos, que têm um temperamento mais ardoroso, mais sensível. Sintonizam muito bem com o sentimento, combinam com o afeto, com o amor; são companheiros que têm uma grande habilidade para lidar com situações de conflito, quando há uma dificuldade ou alguma resistência. Eles chegam com a sua afetividade e têm o condão de pacificar, desfazer animosidades e conseguir cooperação.

e) Há também aqueles que são mais introspectivos, que não gostam de falar. Esses certamente não irão desempenhar a exposição na casa espírita. Mas serão excelentes entrevistadores, assim como poderão atuar na área mediúnica, se for esse o caso.

f) E há ainda aqueles que estão mais afeitos à dinâmica do livro; esses são talhados para a livraria e para a biblioteca.

Assim, vão se juntando as diferenças e assegurando a unanimidade.

E continua Alberto Almeida, dizendo que cabe à liderança estabelecer um processo de pacificação, porque dentro das diferenças há os entrechoques; enquanto alguns reivindicam estar com a verdade, outros possuem temperamento mais ardoroso, além dos afoitos e dos que não falam, mas se magoam e se melindram. Por isso é necessário administrar o conflito, para que o melindre não se estabeleça, solapando a base das relações, porque a base do centro espírita não é o chão, mas as relações que se estabelecem.

Entende ainda que cabe à liderança do centro administrar esses conflitos de relacionamento humano, procurando naturalmente assumir, não uma posição de juiz, apontando quem está certo ou errado, nem a de promotor, acusando, ou a de advogado de defesa, mas a de ser apenas o que Jesus propôs a Simão Pedro: "Se tu me amas, apascenta as minhas ovelhas". E apascentar não significa esconder as verdades, mas ser fraterno, amigo, medir as relações, aproximar os trabalhadores, enfim, estabelecer um diálogo fraterno.

Observamos, assim, que cabe à liderança espírita estar presente, buscando atenuar conflitos, vislumbrando sempre a fraternidade e a manutenção dos confrades dentro da casa e da causa espírita, mediando, instruindo, envolvendo-se com o outro, sem partidarizar-se e sem ser parcial. Isso deve se dar em todos os momentos, objetivando não excluir nem criar animosidades dentro da casa espírita e percebendo que todas as diferenças comportamentais podem ser utilizadas de maneira positiva para a manutenção e o bom andamento das atividades da seara espírita.

Uma outra ferramenta fundamental para a manutenção de um clima harmônico, mas pouco explorada dentro do convívio na seara, é o da avaliação constante das atividades desenvolvidas, eximidas do partirdarismo e do personalismo.

Resolvendo-se os conflitos que surgem, um a um, avaliando-se o que está bom e o que deve ser melhorado, o que está ruim e o que não deve existir, de maneira constante, pacífica, ordeira, mas firme, não sobra espaço para a instalação das discussões improfícuas, geradoras de conflitos e de melindres, facilitando a instalação de uma cultura alteritária. Mas tudo isso deve ser calcado no respeito e no amor. Sem esses dois sentimentos, o formalismo toma de conta e resta somente um aparente profissionalismo que não deve existir em nenhuma proposta religiosa, que tenha por base a Lei de Amor.

Em tudo, podemos observar a responsabilidade que repousa nos ombros dos que estão na condição de dirigentes espíritas, que devem possuir habilidades que os credenciem como capazes de dirimir conflitos e que, cônscios dos seus deveres para com o todo e para com a doutrina, saibam administrar as diferenças, em tudo enxergando a manutenção da harmonia, da paz e da vivência dos postulados espíritas, visando manter um grupo coeso e fraterno, integrante de uma mesma família.

 

 

Da idéia à formulação do Fórum de Debates

 

“(...) se tiverdes a fé do tamanho de um grão de mostarda, direis a esta montanha: Transporta-te daqui para lá, e ela se transportará, e nada vos será impossível”. (Mateus, cap. XVII, v. 19)

 

 

No final da exposição de Saara Nousiainen, no 3º Seminário para Trabalhadores Espíritas Auta de Souza, que aconteceu no C.E. Fcº de Assis em maio de 2003, conversávamos sobre a importância do tema exposto por ela, que foi “Humanização da Seara Espírita”. Conjugando sonhos e pensamentos, definimos por elaborar um fórum de debates em que pudesse ser esmiuçado o tema tão importante do melhoramento do convívio na instituição espírita e a importância da alteridade em todos os relacionamentos, evento esse que veio a acontecer quatro meses mais tarde.

Foi uma experiência tão rica que vamos repassá-la como sugestão para outros grupos espíritas que queiram utilizar-se dessa metodologia para elaborar fóruns semelhantes.

Nas reuniões da Associação de Divulgadores do Espiritismo do Ceará - ADE-CE, expondo a idéia, surgiu a proposta de fazermos a divulgação do fórum de uma maneira que abrangesse muitas instituições, tendo em vista a fundamental importância dessa temática para o movimento espírita.

Decidiu-se então a realização da I JORNADE, que levaria a divulgação do fórum aos diversos centros espíritas, através de expositores adesos à proposta, que fariam as palestras exatamente sobre o tema do fórum, As dificuldades de convívio na Casa Espírita e o desafio da alteridade. Assim, além de já começarem a plantar as sementes do evento, visando melhor instrumentalizar os companheiros para os debates, também cuidavam da divulgação através de cartazes e “folders”, das fichas de inscrição, tudo isto levado pelos próprios expositores. Fizemos ainda divulgação nos programas de rádio e jornais espíritas locais.

Dessa forma, mesmo aqueles que não puderam participar já começavam a entender a importância da alteridade, não apenas no centro espírita, mas em todos os embates ligados ao convívio.

Ao evento compareceram mais de 140 pessoas, entre trabalhadores e dirigentes de cerca de 30 instituições espíritas do Ceará e do Rio Grande do Norte.

No início das atividades, foi explicado aos presentes que seriam divididos em várias equipes de aproximadamente 10 a 15 pessoas cada, e que poderiam optar pelos grupos A ou B.

As equipes do Grupo A discutiriam três questões, previamente elaboradas, ligadas ao convívio, e as do Grupo B debateriam outras tantas questões, também previamente elaboradas, relacionadas às atividades nos centros espíritas. Cada equipe deveria escolher um coordenador e um relator. Caberia ao coordenador dirigir os trabalhos, incentivando todos a falarem e cuidando para que ninguém fugisse do assunto, nem demorasse demais em sua participação para não tomar o tempo dos demais. O relator iria sintetizar as respostas e lê-las durante a plenária que aconteceria após o intervalo. Assim, todos tomariam conhecimento do resultado dos debates das demais equipes.

 

As equipes do Grupo A receberam o seguinte questionário:

 

QUESTÃO 1

Na instituição espírita que você freqüenta o convívio é satisfatório?

Foi pedido aos que responderam SIM que explicassem o que vem motivando um bom convívio, obtendo-se como resposta a essa questão que os participantes que consideravam o convívio bom pertenciam a casas espíritas com poucos trabalhadores, mas que faziam uso do bom senso e da democracia.

Aos que responderam REGULAR e NÃO foi pedido que explicassem:

a) O que vem motivando esse convívio não satisfatório?

Respostas:

1 - Uso de indiferença e de exclusão, tendo como causa o conhecimento a mais que algumas pessoas possuem e que faz com que olhem para os que sabem menos com desdém e indiferença.

2 - Dificuldades nos relacionamentos causadas por melindres, ciumeiras e vaidades, pela existência de “panelinhas” e “donos” de determinados setores/atividades.

b) Se você fosse o dirigente do centro, que faria para melhorar o ambiente da Casa?

Respostas:

1 – Buscaria incentivar a fraternidade, organizar reciclagens e avaliações periódicas dos trabalhadores, disciplinar horários e procurar pessoas especializadas que pudessem colaborar para o melhoramento do convívio; cuidaria de dar melhor qualidade ao atendimento fraterno; promoveria palestras direcionadas aos trabalhadores da casa, assim como vivências e dinâmicas de grupo; providenciaria um maior rodízio na diretoria da casa e desenvolveria tarefas a partir de planejamento em grupo.

 

QUESTÃO 2

 

a) Você que trabalha num centro espírita entende que a qualidade do ambiente da casa também é responsabilidade sua?

A essa questão, todos responderam que SIM.

b) O que VOCÊ poderia fazer para melhorar esse convívio?

Respostas:

Estar atento a serviço da harmonia e da afetividade com todos; exercer a amizade e a compreensão; dar oportunidade de serviço a quem se mostre voluntário; exigir mais de mim que do outro; usar de consciência doutrinária; libertar-me dos melindres; aprender a lidar com as diferenças do outro; fazer sempre uso do bom senso e da compreensão.

 

QUESTÃO 3

 

a) Que benefícios entende que podem ser obtidos numa instituição espírita com a prática da Alteridade?

Respostas:

Harmonia, tranqüilidade, crescimento interior, união, mais produtividade, respeito pelo próximo, desapego, entendimento, exercício do amor, melhor qualidade nas relações e maior participação nas atividades.

b) Que metodologias você pode sugerir para otimizar e tornar mais produtivas as atividades espíritas?

Respostas:

Dinâmicas de grupo, estudos de casos, intercâmbio com outras casas, criação de grupos de jovens com metodologias atraentes e convenientes à juventude, criação de um estudo preparatório para o ESDE e descentralização das atividades, com trabalhos em grupos pequenos.

 

No grupo B, sobre as atividades desenvolvidas na casa espírita, foram propostas as seguintes questões:

 

QUESTÃO 1

 

Que mudanças podem ser observadas nos processos ligados ao aprendizado (nos meios estudantis, empresariais, profissionais, etc.) nas últimas décadas?

Respostas:

Avanço tecnológico e de aprendizado oportunizado pela internet; criação de ONGs; valorização pelas empresas do envolvimento do funcionário com atividades assistenciais e voluntariais; nas escolas o envolvimento das famílias com o aprendizado dos filhos.

 

QUESTÃO 2

 

As mudanças ocorridas nos formatos das atividades espíritas vêm acompanhando plenamente as necessidades da época?

Aos que responderam NÃO ou MAIS OU MENOS foi perguntado o que pode ser feito para que as atividades espíritas possam adequar-se plenamente às necessidades da época, ao que foram dadas as seguintes respostas:

Dinamizar e reavaliar o formato do Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita - ESDE, pois desde que foi criado não houve nenhuma avaliação da sua produtividade; melhorar a divulgação das atividades da casa; criar um núcleo de metodologia; promover oficinas de autoconhecimento; criar de grupos de SOS espiritual ininterrupto; incentivar a prática das atividades assistenciais fora da casa espírita.

 

QUESTÃO 3

 

a) Que metodologias você pode sugerir para otimizar e tornar mais produtivas as atividades espíritas?

Respostas:

Mais trabalhos com os novos valores, observando a potencialidade de cada um; atualização dos métodos administrativos; criação de cursos de aprimoramento das atividades com reciclagens; encontros de confraternização entre os trabalhadores.

 

b) O que você sugere para melhorar o convívio na casa espírita?

Respostas:

Cursos de reforma íntima; encontro de trabalhadores; promoção de novos encontros como este fórum; oficinas de autoconhecimento; encontros periódicos e jantares beneficentes entre os trabalhadores; implantação de cursos de meditação no enfoque espírita; uso da psicologia através da terapêutica, abordado sob a ótica espírita.

Após a plenária em que os relatores leram as respostas das equipes, com os devidos comentários, todos foram novamente distribuídos em vários grupos, as oficinas, cuja temática foi o perdão. O modelo dessas oficinas está detalhadamente descrito no livro Crescimento Interior de Saara Nousiainen, também, em forma resumida, na primeira parte deste livro.

Ao final das atividades, havia consenso sobre a importância de os meios espíritas adotarem a sistematização de eventos dessa natureza, por permitirem a participação ativa de todos os seareiros, desde os mais humildes e simples, até os mais importantes dirigentes.

É numa atividade como essa que todos podem ficar frente a frente, de igual para igual, com direito a questionar, dar e ouvir sugestões e críticas, sentindo-se também responsáveis pela instituição que freqüentam e até mesmo pelo próprio movimento espírita local. Ali, vivencia-se a verdadeira democracia, aprende-se a debater sem agredir e a respeitar as diferenças e o pensamento dos outros. Além disso, aquelas pessoas mais tímidas, não afeitas ao diálogo, começam a perceber que a sua participação ativa também pode ser importante para o todo.

Decidiu-se, finalmente, pela realização semestral de fóruns de debates, cujos temas serão escolhidos pelo próprio movimento espírita local.

 

 

Considerações gerais sobre o Fórum de Debates

 

 

Inegável foi a presidência espiritual do evento, que transcorreu com a mais plena harmonia e disciplina, na observância dos horários estipulados para os debates e a plenária, bem como das oficinas de crescimento interior, nas quais foi trabalhado o perdão. Pudemos observar em todos os grupos a serenidade, mesmo nas questões mais calorosas, que exigiam a posição individual de cada participante. De fato, não podemos excluir a forte participação dos espíritos abnegados, que nos confiaram a missão de levar a cabo esse trabalho, com a proposta assentada na aplicação da Alteridade na Seara Espírita.

Observando as proposições dos companheiros que participaram desse evento, pudemos notar que há latente o desejo de uma maior confraternização em nossos meios, com observância dos postulados doutrinários na sua prática, bem como o aprimoramento das relações através das reciclagens constantes, avaliações periódicas das atividades desenvolvidas e da reavaliação de algumas técnicas de aprendizado e de vivência espírita, utilizadas hoje na nossa seara.

Constatamos também nessa oportunidade que de fato a Alteridade vem como bálsamo e solução para os que se encontram na labuta pela manutenção do bom convívio nas casas e grupos espíritas. Vem igualmente como valor a ser trabalhado e observado, contribuindo poderosamente para o melhoramento íntimo a que somos conclamados, ajudando-nos a alçar vôo rumo à evolução a qual estamos fadados, instrumentalizando-nos a acompanhar o novo período que se inicia para o Espiritismo, de maneira fraterna e harmônica, em que possamos ser reconhecidos por muito nos amarmos.